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QUANDO O OLHAR DOS OUTROS SE TORNA A ÚNICA MEDIDA DE QUEM VOCÊ É

Quando a crença de estar sendo julgada por todos encontra um ambiente que confirma esse julgamento, nasce a bomba perfeita. E a única falha real é não se permitir falhar. – Marcello de Souza

Ela carrega uma certeza que nunca ninguém plantou com palavras, mas que cresceu do mesmo jeito, como crescem as coisas mais poderosas — no silêncio, na repetição, na atmosfera. A certeza é esta: todos estão olhando. Todos estão medindo. Todos, a todo momento, estão formando uma opinião sobre ela — sobre o que fez, o que não fez, como fez, quando fez, se fez bem o bastante.
Não é paranoia. Não é insegurança no sentido rasteiro da palavra. É algo mais sofisticado e, por isso, mais difícil de desarmar. É um sistema inteiro de leitura do mundo que funciona assim: cada pessoa ao redor é um avaliador. Cada interação é um teste. Cada entrega é uma prova. E o resultado dessa prova não determina apenas a qualidade do trabalho — determina o valor de quem o fez. Se a entrega é boa, ela vale. Se a entrega falha, ela falha. Não o projeto. Não a tarefa. Ela.
É uma equação brutal na sua simplicidade: eu sou o que entrego aos olhos dos outros.
E o mais devastador é que ela não sabe que está obedecendo a essa equação. Acha que é apenas “comprometida”. “Detalhista”. “Exigente consigo mesma”. Esses são os nomes bonitos que a gente dá para um mecanismo que, por baixo da maquiagem, é puro medo. Medo de ser vista como alguém que falha. Não como alguém que fez algo que falhou — isso seria tolerável, isso seria humano. Mas como alguém que é falha. Que tem uma rachadura estrutural. Que, se os outros olharem com atenção suficiente, vão perceber que por trás da competência existe uma fragilidade que ela esconde com o mesmo zelo com que organiza suas planilhas.

Vamos falar dessa fragilidade. Porque ela não é o que parece.
Quando digo que ela não aceita ser reconhecida pelas falhas, não estou dizendo que ela é arrogante. Não estou dizendo que não tolera crítica. Estou dizendo algo mais fundo, mais dolorido e mais humano do que isso.
Ela não aceita a falha porque, no sistema interno dela, a falha não é um evento — é uma sentença. Não é algo que aconteceu — é algo que ela é. Existe uma diferença abismal entre “eu errei nesse ponto” e “eu sou o tipo de pessoa que erra”. Para a maioria das pessoas, essa diferença é clara. Para ela, não existe. O erro e a identidade estão colados. Fundidos. Cada falha — por menor, mais corriqueira, mais absolutamente comum que seja — é experimentada como uma exposição. Como se alguém tivesse puxado uma cortina e revelado aquilo que ela mais teme que os outros vejam: que ela não é perfeita.
E o absurdo — o absurdo que dói — é que as falhas dela são exatamente isso: comuns. Normais. O tipo de coisa que qualquer profissional competente comete e esquece no dia seguinte. Um detalhe que passou. Uma informação que faltou. Um prazo que apertou. Nada que mude resultados. Nada que comprometa o todo. Nada que qualquer pessoa razoável consideraria grave.
Ela não é qualquer pessoa razoável quando o assunto é ela mesma. Ela é, simultaneamente, a ré, a promotora, a juíza e o júri. E nesse tribunal particular, não existe absolvição por falta de provas. Existe apenas a condenação por acúmulo de imperfeições.

Agora pense nisso: uma pessoa que vive assim — para quem cada interação é um teste e cada falha é uma sentença — colocada num ambiente de trabalho que faz exatamente o que a crença dela prediz.
Porque esse é o ponto central: não se trata de um ambiente neutro mal interpretado por ela. O ambiente não é neutro. Ele cobra. O gestor não apenas orienta — ele microgerencia. O reconhecimento não se distribui pelo esforço invisível, mas pelo resultado fácil de mensurar.
Existe, de fato, uma assimetria estrutural: enquanto ela sustenta projetos complexos, inovadores, que exigem tempo, maturação e inteligência sistêmica, outros operam frentes menores, porém mais visíveis, mais vendáveis e mais rapidamente lucrativas.
Ela administra complexidade.
O sistema premia simplicidade aparente.
E é exatamente aí que nasce o conflito silencioso: quem carrega o que não aparece, quase nunca recebe o que deveria ser reconhecido.
O ambiente não criou a crença. A crença já estava lá — formada em silêncio, ao longo de anos, em outros contextos, em outras relações. O que o ambiente fez foi algo muito pior: confirmou a crença. Deu a ela evidência concreta. Transformou o que era uma hipótese interna — “todos estão me avaliando e vão me achar insuficiente” — numa experiência vivida, diária, documentada em e-mails e silêncios.
Isso é a bomba perfeita.
De um lado, uma estrutura interna que diz: meu valor depende de como os outros me veem. Do outro, um contexto externo que diz: de fato, nós estamos vendo, e o que vemos não nos impressiona o suficiente. A crença fornece o combustível. O ambiente acende o fósforo. E a explosão é silenciosa — acontece por dentro, sem que ninguém ao redor perceba, porque ela é exatamente o tipo de pessoa que mantém a compostura enquanto desmorona.

Preciso parar aqui e dizer algo que talvez incomode.
Ela se preocupa com os outros. Genuinamente. Isso é real. É uma das coisas mais bonitas nela — essa atenção ao que as pessoas ao redor precisam, sentem, pensam. Mas existe uma torção nessa preocupação que a transforma de qualidade em armadilha.
Porque quando ela “se preocupa com o que os outros acham”, não está exercendo empatia. Está exercendo vigilância. Está escaneando o ambiente o tempo inteiro — o tom de voz do gestor, a expressão do colega, o tempo que alguém demorou para responder um e-mail, o silêncio numa reunião — buscando sinais. Sinais de aprovação ou de reprovação. Sinais de que está segura ou de que o chão vai ceder.
Empatia é se importar com o que o outro sente. Vigilância é usar o que o outro parece sentir como termômetro do próprio valor. São movimentos que se parecem por fora e que são radicalmente diferentes por dentro. Na empatia, o outro é um fim — ela se importa porque se importa. Na vigilância, o outro é um instrumento — ela monitora porque precisa da leitura do outro para saber se está bem.
E esse monitoramento é exaustivo. Não é um esforço que ela faz de vez em quando, em momentos de tensão. É um programa que roda permanentemente, consumindo energia, atenção e presença. É como manter cem abas abertas no navegador: cada aba é uma pessoa, cada pessoa é uma possível avaliação, cada avaliação é uma possível condenação. E ela precisa monitorar todas ao mesmo tempo, porque se perder uma — se não perceber que alguém ficou insatisfeito, se não antecipar uma crítica, se não prever uma decepção — será pega de surpresa. E ser pega de surpresa, para quem vive assim, é o equivalente a ser pega desprotegida.
O corpo paga a conta. Paga com insônia. Paga com o maxilar que trava sozinho. Paga com os ombros que sobem quando o telefone toca. Paga com aquela exaustão que não melhora com descanso, porque não é cansaço de trabalho — é cansaço de vigiar. O sistema nervoso dela opera como se houvesse uma ameaça constante, e a ameaça é o olhar do outro. Contra ameaças que moram do lado de fora, a gente pode correr ou lutar. Contra uma ameaça que mora na própria percepção, não há fuga possível. O perigo viaja junto.

E as relações? Essa é a parte mais triste e mais importante.
Uma pessoa que vive sob vigilância constante do olhar alheio frequentemente se torna, sem perceber, menos disponível para as relações reais — não mais. Porque não está inteiramente presente no encontro. Está presente na gestão do encontro. Está calculando: o que dizer, como dizer, o que o outro está pensando, se aquela frase soou bem, se aquele silêncio significa algo.
E o outro sente. As pessoas ao redor podem não saber nomear o que percebem, mas percebem: há algo contido, algo que não flui, algo que parece cuidado e atenção, mas que tem um fundo de cálculo. E, devagar, sem confronto, sem ruptura, as relações vão perdendo espontaneidade. Vão ficando eficientes, corretas, funcionais — e vazias de uma certa graça que só aparece quando ninguém está medindo nada.
Isso cria um ciclo perverso. Ela se esforça para que os outros a vejam bem. O esforço torna as interações artificiais. A artificialidade gera distância. A distância é interpretada como… rejeição. E a rejeição confirma a crença: eu sabia, eles não me aprovam. Quando, na verdade, não houve rejeição — houve desconforto com algo que o outro não sabe explicar. É como abraçar alguém usando uma armadura: a intenção é carinho, mas o que chega é metal frio.
Ela não é fria. Ela é o oposto de fria. É quente demais, envolvida demais, preocupada demais — e é justamente o “demais” que atrapalha, porque o “demais” não vem do coração. Vem do medo.

Há algo que precisa ser dito sobre o perfeccionismo, mas não do jeito que costuma ser dito.
O perfeccionismo dela não é vaidade. Não é obsessão estética. Não é “querer tudo bonito”. É a última linha de defesa. É o muro que ela construiu entre si mesma e o julgamento do mundo. A lógica, destilada até a essência, é esta: se eu for perfeita, ninguém poderá me criticar. Se ninguém puder me criticar, ninguém verá minha falha. Se ninguém vir minha falha, estarei segura.
Perfeição como estratégia de sobrevivência. Não como busca de excelência.
E aqui está a distinção que muda tudo: excelência é uma relação com o trabalho. Perfeccionismo é uma relação com o medo. Quem busca excelência se alegra com o processo, tolera o erro, aprende com o resultado parcial, comemora o progresso. Quem vive no perfeccionismo não se alegra com nada — porque qualquer resultado que não seja absoluto é vivido como ameaça. Noventa por cento não é vitória. É os dez que faltaram. E esses dez imaginários pesam mais do que os noventa reais.
Ela não está buscando ser a melhor. Está tentando não ser pega. E essa diferença, quando compreendida de verdade, parte o coração. Porque revela que toda aquela competência extraordinária, toda aquela organização impecável, toda aquela dedicação que impressiona quem a vê de fora — tudo isso é, em parte, um escudo. E quem vive atrás de um escudo pode parecer forte, pode parecer inabalável, pode parecer uma referência. Mas está, no fundo, cansada de segurar o peso. E está, mais fundo ainda, com saudade de poder existir sem precisar se proteger.

E agora, a pergunta que importa: o que se faz com isso?
Vou resistir à tentação de dar respostas limpas. Porque respostas limpas, para quem vive essa bomba, soam como mais uma exigência — “agora, além de tudo, eu preciso também me curar do jeito certo”.
O que posso dizer é o que sei sobre o que vem antes de qualquer mudança. E o que vem antes é ver. Apenas ver. Ver o mecanismo funcionando em tempo real, sem tentar pará-lo.
Ver que, quando o gestor faz uma pergunta sobre um detalhe irrelevante, o que dói não é a pergunta — é a interpretação instantânea de que “ele acha que eu falhei”. Ver que essa interpretação é automática, mais rápida que o pensamento, e que ela opera antes de qualquer evidência. Ver que o corpo reage antes da mente: primeiro o estômago fecha, depois vem a narrativa.
Ver que a preocupação com os outros, que parece generosidade, é em parte monitoramento. Não porque ela seja egoísta — porque ela está com medo. E o medo se disfarça de muitas coisas bonitas.
Ver que a recusa da falha não é orgulho. É terror. Terror de que, se aceitar a falha como parte legítima de quem é, o edifício inteiro desabe. Porque o edifício foi construído sobre a premissa de que ela precisa ser impecável para merecer estar onde está. E aceitar a imperfeição parece, para esse sistema, aceitar a própria demolição.
Ver tudo isso. Sem julgamento. Sem pressa de consertar. Sem transformar a observação em mais uma tarefa a ser executada com excelência.

E depois de ver, algo que talvez ninguém tenha dito a ela com essas palavras:
As falhas que você esconde são exatamente as mesmas falhas que todo mundo tem. Não são maiores. Não são piores. Não são mais reveladoras do que as falhas de qualquer pessoa sentada na mesma sala de reunião. A diferença não está nas falhas — está no peso que você dá a elas. Enquanto os outros erram e seguem, você erra e desmorona por dentro. Enquanto os outros esquecem o detalhe que faltou, você o carrega por semanas. Enquanto os outros distinguem entre “algo que eu fiz deu errado” e “eu sou errada”, para você essas duas frases são a mesma.
Não são.
E a possibilidade de que não sejam — de que um erro possa ser apenas um erro, e não um atestado de insuficiência — essa possibilidade, se um dia puder ser habitada e não apenas entendida, muda tudo. Não de uma vez. Não de forma espetacular. Muda devagar, na repetição silenciosa de momentos em que a falha aparece e, em vez do desmoronamento habitual, acontece algo diferente: uma pausa. Um respiro. E a percepção, ainda frágil, ainda vacilante, de que o chão não cedeu. De que o olhar do outro, real ou imaginado, não destruiu. De que é possível falhar e continuar inteira.
Não é que o olhar dos outros deixe de importar. É que ele deixa de governar. Passa de ditador a ruído de fundo. E no espaço que se abre quando o ditador perde o trono, algo começa a acontecer — devagar, sem nome ainda, sem forma definida. Algo que se parece com a possibilidade de simplesmente ser. Sem performance. Sem prova. Sem tribunal.

Isso é uma conquista que requer liberdade e responsabilidade, e não algo que simplesmente acontece.
Liberdade de se ver inteira — com as competências extraordinárias e com as falhas comuns. Com a líder brilhante e com a mulher que trava o maxilar às 3h da manhã. Sem que uma anule a outra. Sem que uma precise ser escondida para que a outra exista.
Responsabilidade de parar de terceirizar o próprio valor. De não entregar ao gestor, ao colega, ao ambiente — a ninguém — o poder de dizer quem ela é. Porque nenhum deles tem informação suficiente. Nenhum deles vê o todo. Nenhum deles sabe o que custa gerenciar dezesseis frentes com a dedicação que ela coloca em cada uma. E mesmo que soubessem, a opinião deles ainda seria a opinião deles — não a verdade sobre ela.
A verdade sobre ela é anterior ao olhar de qualquer outro. E essa verdade inclui a falha. Inclui a imperfeição. Inclui o dia em que o detalhe passou e o projeto não ficou perfeito e ela não conseguiu entregar o seu melhor. Inclui tudo isso — e continua sendo uma verdade bonita. Não apesar das falhas. Com elas.
Porque a vida não acontece na perfeição. Acontece na bagunça. No improviso. No “não sei, mas vou tentar”. Na coragem absurda de acordar de manhã sabendo que alguém pode olhar para você com decepção — e ir assim mesmo. Inteira. Imperfeita. Viva.
E se os outros estiverem realmente olhando — que olhem. Que vejam. Que vejam tudo: a competência e o medo, a organização e o caos, a entrega e a falha. Porque o que vão encontrar, se olharem de verdade, não é a profissional insuficiente que ela imagina. É uma mulher inteira tentando dar conta de um mundo que não facilita — e, na maioria das vezes, conseguindo. E nas vezes em que não consegue, continuando.
Isso não é pouco. Isso é quase tudo.

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