A FELICIDADE QUE LHE VENDERAM NÃO ERA SUA
Sobre a indústria que transformou o direito de existir plenamente num pacote de assinatura mensal — e o que acontece quando você cancela
Por Marcello de Souza
———
Existe um momento, quase imperceptível, em que uma empresa decide que seus funcionários devem ser felizes. Não é uma decisão que aparece em ata de reunião. Não há votação, não há memorando. Acontece como um vírus que entra pela ventilação: alguém do alto escalão volta de uma conferência, alguém lê um artigo numa revista de negócios durante um voo, alguém ouve um podcast entre uma chamada e outra — e de repente, como se um interruptor tivesse sido acionado, a ordem silenciosa se espalha: precisamos de pessoas felizes aqui dentro.
E então começa o espetáculo. As paredes ganham frases motivacionais em letras garrafais. Surge uma sala de descompressão com pufes coloridos que ninguém usa porque ninguém tem tempo. O RH lança uma pesquisa de clima organizacional com emojis — do rosto triste ao rosto sorridente — e celebra quando a média sobe meio ponto. Um palestrante é contratado para falar sobre propósito durante duas horas numa sexta-feira, e na segunda-feira tudo continua exatamente como era, só que agora com a culpa adicional de que, se você não está feliz, o problema é você.
E é exatamente aqui que a armadilha se fecha.
Porque o que ninguém diz — o que os vendedores de fórmulas jamais vão dizer, porque isso destruiria o modelo de negócio deles — é que a felicidade transformada em meta corporativa deixa de ser felicidade. No instante em que alguém define que você deve sentir algo específico, num lugar específico, com uma frequência mensurável, a coisa morre. Vira métrica. Vira KPI. Vira mais uma engrenagem no maquinário de controle que se disfarça de cuidado.
Pense comigo, sem pressão e sem o filtro que nos ensinaram a usar. Você já esteve numa reunião onde o líder pergunta “como vocês estão se sentindo?” e todos respondem “bem”, enquanto por dentro o que há é um cansaço tão antigo que já virou paisagem? Você já preencheu uma pesquisa de engajamento sabendo que sua resposta real seria problemática — não para você, mas para quem vai ler? Você já sorriu no corredor quando o que queria era gritar?
Se a resposta é sim para qualquer uma dessas perguntas, você não precisa de um programa de bem-estar. Você precisa entender o que estão fazendo com a sua capacidade de sentir.
Fato é que há algo profundamente perverso na maneira como o mundo corporativo se apropriou da palavra felicidade. Perverso porque a intenção, quase sempre, não é que você seja feliz. A intenção é que você pareça feliz. Que funcione bem. Que não reclame. Que produza com entusiasmo, ou ao menos com a aparência de entusiasmo, porque um funcionário visivelmente infeliz é um problema de imagem — não de humanidade.
Eu vi isso acontecer dezenas de vezes. Uma empresa multinacional contrata um programa de mindfulness para suas equipes. Três meses depois, a gerência que aprovou o programa demite 15% do quadro sem aviso prévio. Os que ficam, atordoados, são convidados a “respirar fundo e focar no presente”. Outra empresa institui a “semana da saúde emocional” com palestras sobre resiliência, enquanto mantém metas que obrigam as equipes a trabalharem até meia-noite. Uma startup celebra ter sido eleita “melhor lugar para trabalhar” no mesmo trimestre em que três gestores pediram demissão por esgotamento.
Isso não é contradição. É o sistema funcionando exatamente como foi projetado. O programa de felicidade não existe para mudar a estrutura. Existe para que a estrutura permaneça a mesma sem que ninguém perceba. É um sedativo com embalagem bonita. Um curativo colocado sobre uma hemorragia. E o mais brilhante — do ponto de vista de quem controla — é que se você ainda se sente mal depois de toda essa “investida em bem-estar”, a culpa é transferida integralmente para você.
“Você não praticou a meditação.” “Você não aplicou as ferramentas.” “Você precisa trabalhar sua inteligência emocional.” Repare na sutilíssima transferência: a doença é do ambiente, mas a receita é para o indivíduo. Como se você pudesse curar uma pneumonia mudando o jeito de respirar, sem ninguém fechar a janela por onde entra o frio.
Nesse sentido, vamos falar sobre o que realmente está acontecendo, porque se há algo que me move depois de quase três décadas trabalhando com o comportamento humano dentro das organizações é a recusa de aceitar superfícies como explicações.
A indústria da felicidade corporativa movimenta bilhões. Há consultorias especializadas, apps de bem-estar, plataformas de gamificação emocional, certificações em “psicologia positiva aplicada” que podem ser obtidas num final de semana. Há um exército de profissionais cuja renda depende de que você continue acreditando que a felicidade é uma competência desenvolvível, um músculo que pode ser treinado, uma habilidade que se ensina em seis módulos com certificado incluso.
E nenhum deles tem interesse em lhe dizer a verdade incômoda: que a felicidade genuína, aquela que faz a existência valer a pena, não se encontra, não se treina e não se compra. Ela se conquista. E a conquista exige algo que nenhum programa corporativo vai oferecer: liberdade.
Não a liberdade decorativa — a do “horário flexível” que na prática significa estar disponível 24 horas, ou a do “dress code informal” que esconde a rigidez brutal das hierarquias. Falo da liberdade real. A liberdade de pensar o que você pensa sem traduzir para o idioma corporativo. A liberdade de discordar sem que isso vire “falta de alinhamento”. A liberdade de dizer “eu não estou bem” sem que isso acione um protocolo de intervenção. A liberdade de ser inteiro — não apenas a versão de si mesmo que cabe no crachá.
Agora, pare e olhe para algo que talvez nunca tenha olhado dessa forma. Observe os líderes que são celebrados como “inspiradores” nas redes sociais corporativas. Aqueles que postam sobre vulnerabilidade enquanto cultivam ambientes onde a vulnerabilidade real é punida com invisibilidade. Aqueles que falam em “segurança psicológica” nas conferências e, nos bastidores, classificam quem questiona como “resistente à mudança”. Aqueles que celebram “diversidade de pensamento” desde que o pensamento diverso chegue à mesma conclusão que eles já tinham.
Esse é o teatro da felicidade organizacional. E como todo teatro, tem atores, roteiro e plateia. A diferença é que a plateia não sabe que está assistindo a uma peça — acha que é a vida real.
Conheci um executivo que foi promovido três vezes em quatro anos. Cada promoção veio acompanhada de um discurso sobre meritocracia e reconhecimento. Ele agradeceu todas as vezes com o sorriso correto. Na terceira promoção, me procurou. Não para celebrar. Para me dizer, com a voz de quem finalmente admite algo que já sabe há anos: “Eu não sei mais quem eu sou fora daqui. Tenho um cargo, tenho um salário, tenho o respeito dos colegas. E acordo todo dia com a sensação de que estou vivendo a vida de outra pessoa.”
Esse homem não estava deprimido no sentido clínico. Não precisava de medicação. Precisava de algo muito mais raro e muito mais assustador: precisava se reencontrar. Precisava retomar a posse de uma existência que, em algum momento impreciso entre a primeira entrevista de emprego e a terceira promoção, havia sido silenciosamente transferida para a organização.
E aqui está a questão que nenhum Chief Happiness Officer vai colocar na pauta: quantas pessoas na sua empresa estão vivendo vidas que não escolheram? Quantos sorrisos nos corredores são apenas a contínua negociação entre quem se é e quem se precisa parecer?
Não se engane! A felicidade — aquela que de fato transforma, que sustenta, que dá consistência à vida — não é um sentimento. Não é um estado. Não é aquele momento de euforia depois de um resultado trimestral positivo nem aquele alívio temporário quando o chefe finalmente aprova seu projeto. Isso é satisfação. É alívio. É prazer momentâneo. E embora nenhum deles seja desprezível, nenhum deles é felicidade.
Felicidade é algo que acontece numa camada mais profunda da existência humana. Acontece quando há coerência entre o que você pensa, o que você sente e o que você faz. Quando essas três dimensões estão alinhadas, há uma espécie de ressonância interna — uma vibração silenciosa de que a vida, mesmo com suas imperfeições, é genuinamente sua. Quando estão desalinhadas — quando você pensa uma coisa, sente outra e faz uma terceira —, o que surge é aquele mal-estar difuso, aquela sensação de que “algo está errado” que nem férias, nem bônus, nem promoções conseguem resolver.
E o mundo corporativo, com raras e honrosas exceções, é uma fábrica de desalinhamento. Não porque seja inerentemente mau. Mas porque opera sob uma lógica que, por design, subordina o indivíduo ao sistema. Isso não é conspiração — é estrutura. Organizações existem para produzir resultados, e resultados exigem previsibilidade. Acontece que seres humanos não são previsíveis. Então o sistema faz o que pode para torná-los: cria processos, protocolos, métricas, metas, avaliações, rankings. E quando tudo isso não basta para domar a imprevisibilidade humana, inventa a felicidade como ferramenta de controle.
“Seja feliz aqui.” “Vista a camisa.” “Tenha propósito.” “Traga seu eu autêntico para o trabalho.” Cada uma dessas frases, repetida com sorriso cúmplice em onboardings e retiros corporativos, carrega um subtexto que ninguém diz em voz alta: “Seja feliz do jeito que a gente precisa que você seja.”
Confesso que o que mais me espanta não é que as organizações façam isso. O que me espanta é a velocidade com que aceitamos. A docilidade com que absorvemos a narrativa de que, se não estamos bem, é porque não “investimos o suficiente em nós mesmos”. A facilidade com que engolimos a ideia de que a resiliência é uma virtude individual e não, como frequentemente é, a resposta do corpo a condições que nenhum corpo deveria ser obrigado a suportar.
Olhe ao redor. Conte quantas pessoas você conhece que podem dizer, sem hesitar: “Eu escolhi esta vida. Esta rotina é minha. Estas prioridades são minhas. Eu não estou aqui por inércia, por medo ou por falta de alternativa — estou aqui porque isto é coerente com quem eu sou.” Conte. Provavelmente, os dedos de uma mão serão mais do que suficientes.
E não é porque as pessoas sejam fracas. É porque o sistema é sofisticado. Sofisticado o bastante para fazer a gaiola parecer jardim. Para transformar obediência em “engajamento”. Para rebatizar o medo de demissão como “compromisso”. Para chamar a exaustão de “dedicação”. Para vestir a asfixia com o figurino de “cultura forte”. E, claro, para vender felicidade como o verniz final dessa construção.
Quero ser claro sobre algo: não estou dizendo que felicidade no trabalho é impossível. Estou dizendo que ela é impossível nos termos em que está sendo oferecida. Porque a felicidade autêntica — aquela que nasce da coerência, da liberdade e da responsabilidade de construir uma vida que faça sentido — não pode ser dada por ninguém. Não pode ser institulada por política interna. Não pode ser entregue num workshop de quatro horas.
Ela exige algo que o mundo corporativo evita como algo pandêmico: confronto genuíno. Confronto com as próprias estruturas que geram sofrimento. Confronto com modelos de liderança que confundem autoridade com controle. Confronto com culturas que premiam a performance e punem a humanidade. Confronto com a verdade incômoda de que, muitas vezes, a infelicidade dos profissionais não é um bug do sistema — é uma feature.
Porque profissionais genuinamente felizes são perigosos. Não perigosos no sentido destrutivo, evidentemente. Perigosos no sentido de que pensam por conta própria. Questionam. Recusam-se a aceitar o inaceitável só porque sempre foi assim. Negociam. Estabelecem limites. Dizem não. Vão embora quando precisam ir. E esse tipo de pessoa, embora seja exatamente o que qualquer organização saudável precisaria, é uma ameaça para organizações que só funcionam enquanto a obediência travestida de engajamento permanece intacta.
Então, o que fazer? Se os programas de felicidade são em grande parte fachada, se a indústria do bem-estar corporativo opera mais como analgésico do que como cura, se a própria estrutura organizacional resiste à felicidade genuína dos seus membros — qual é o caminho?
O caminho começa por uma decisão que não depende de nenhuma empresa, nenhum gestor, nenhum programa. Começa por você. E começa, paradoxalmente, por um ato de desconforto: parar de aceitar o que lhe dizem sobre o que deveria fazer você feliz.
Isso não é rebelião adolescente. Não é cinismo. É lucidez. É a recusa adulta e consciente de terceirizar para qualquer instância externa — empresa, guru, plataforma, coach de Instagram, algoritmo — o trabalho que só você pode fazer: o trabalho de se conhecer, de se perguntar o que realmente importa, de construir uma vida cuja forma corresponda ao seu conteúdo.
E esse trabalho não é glamouroso. Não é fotogênico. Não cabe numa palestra inspiracional. Envolve olhar para as próprias escolhas com uma honestidade que dói. Envolve reconhecer onde você está por escolha e onde está por inércia. Envolve admitir que, talvez, aquela promoção que você perseguiu por cinco anos não era sua — era do roteiro que alguém escreveu para você quando você era jovem demais para perceber. Envolve aceitar que mudar pode significar perder: perder status, perder aprovação, perder a versão confortável de si mesmo que todo mundo ao redor já se acostumou.
Envolve, sobretudo, uma compreensão que o discurso motivacional evita como se fosse veneno: a felicidade não é a ausência de dor. É a presença de sentido. E sentido não se encontra na superfície. Não mora em slogans, em afirmações positivas diante do espelho, em rituais matinais de cinco etapas. Sentido se constrói quando você aceita habitar a complexidade da sua própria existência sem fugir, sem anestesiar, sem fingir que está tudo bem quando não está.
Conheço uma gestora que tomou uma decisão que desconcertou todos ao seu redor. Depois de dezessete anos numa corporação global, cargo de diretora, salário de seis dígitos, ela pediu demissão. Não porque recebeu uma proposta melhor. Não porque estava em crise. Pediu demissão porque, nas palavras dela, “eu percebi que estava tão ocupada sendo excelente que esqueci de me perguntar se aquilo me importava.”
A reação do entorno foi previsível. Os colegas disseram que era loucura. A família ficou apreensiva. O mercado classificou como “quebra de carreira”. Só que algo extraordinário aconteceu nos meses seguintes: pela primeira vez em quase duas décadas, ela começou a dormir sem remédio. Começou a tomar decisões sem consultar um organograma mental de quem seria afetado. Começou a reconhecer, com espanto, que a voz dentro dela — aquela que passara anos sendo abafada por urgências, deadlines e políticas internas — ainda estava lá. Só esperando ser ouvida.
Ela não encontrou a felicidade. Ela se reencontrou. E a felicidade veio como consequência.
Não estou dizendo que todos devem pedir demissão. Seria irresponsável e simplista. O que estou dizendo é que todos devem se perguntar: onde está a minha voz nesta história? Em que momento eu parei de decidir e comecei a reagir? Quando foi que a minha vida profissional deixou de ser uma expressão de quem eu sou e passou a ser uma negação sistemática de tudo o que me faz humano?
Existe uma confusão deliberada — e muito lucrativa — entre conforto e felicidade. O mercado todo é construído sobre essa confusão. Conforto é a sala bonita. É o salário competitivo. É o plano de saúde que cobre tudo. É o happy hour de sexta. Nada disso é desprezível — ao contrário, são condições básicas de dignidade. O problema é quando se confundem com felicidade. Porque a felicidade genuína, muitas vezes, nasce exatamente onde o conforto acaba.
Nasce na conversa difícil que você finalmente teve. Na demissão do projeto que todos esperavam que você liderasse. Na confissão de que você não sabe, quando todos esperam certeza. Na decisão de não rir da piada que ofende. Na escolha de não se vender por um título que não significa nada além de vaidade institucional.
A felicidade autêntica mora no desconforto de ser livre. Porque ser livre dói. Ser livre exige assumir o peso das próprias escolhas sem o alívio de culpar circunstâncias, chefes, mercados ou conjunturas. Ser livre significa aceitar que, se a sua vida não é o que você gostaria, a maior parte da responsabilidade é sua — e essa aceitação, embora esmague no primeiro instante, é também a única coisa que liberta de verdade.
Porque se a responsabilidade é sua, então a potência de mudança também é.
É tempo de abandonar a fantasia infantil de que alguém — uma empresa, um líder, um sistema, um guru — vai lhe entregar a felicidade embalada para presente. Ninguém pode. Não porque não queiram, embora muitos realmente não queiram. Ninguém pode porque a felicidade não é transferível. É intransitiva. Acontece em você e por você, ou simplesmente não acontece.
E isso não é solidão. É soberania. É a recuperação de algo que lhe pertence desde sempre e que o mundo passou a vida tentando administrar por você: a sua capacidade de decidir o que faz a sua existência valer a pena.
Se este texto provocou em você algo — desconforto, irritação, reconhecimento, alívio, uma vontade súbita de rever o que está vivendo —, então ele cumpriu seu papel. Não porque eu tenha respostas. Eu não tenho. Ninguém que diz ter está dizendo a verdade. O que tenho são perguntas — e a convicção de que perguntas honestas fazem mais pela transformação humana do que qualquer resposta pré-fabricada.
Então aqui vai a última, e talvez a mais importante: se amanhã você tirasse todas as máscaras que usa — no trabalho, nos relacionamentos, diante do espelho — quem estaria olhando de volta?
Se você não sabe, está na hora de descobrir. E esse é o começo de tudo.
#marcellodesouza #marcellodesouzaoficial #coachingevoce #FelicidadeCorporativa #VendedoresDeSonhos #FalsosGurus #LiberdadeNoTrabalho #CulturaOrganizacional #LiderancaConsciente #DesenvolvimentoHumano #AutoconhecimentoReal #SaudeMentalNoTrabalho #BemEstarGenuino #TransformacaoOrganizacional #PensamentoCritico #VidaComSentido #CoerenciaExistencial #ResilienciaReal #GestaoHumanizada #DCC #DCCO
———
Quer continuar esta conversa?
Acesse marcellodesouza.com.br e explore centenas de publicações sobre desenvolvimento cognitivo comportamental, transformação organizacional e relações humanas saudáveis e evolutivas. Cada texto é um convite ao desconforto necessário — aquele que precede toda transformação genuína.
© Marcello de Souza | Coaching & Você | Todos os direitos reservados
LA FELICIDAD QUE TE VENDIERON NO ERA TUYA
Você pode gostar
O PODER DA ATENÇÃO PLENA
1 de maio de 2024
O EU QUE TE SALVOU QUER AGORA TE MATAR
10 de dezembro de 2025