O TRIBUNAL QUE NÃO EXISTE
Sobre a liberdade de parar de se julgar pelo olhar que você inventou
Por Marcello de Souza
São 3h14 da madrugada e Ariele — não é o nome real dela, mas é verdadeiro o suficiente — está olhando para uma planilha. Não está trabalhando — já não sabe se trabalha ou se apenas ocupa o espaço entre uma insônia e outra com algo que pareça produtivo. O cursor pisca. O café esfriou há duas horas e ela não percebeu. A casa está em silêncio absoluto, esse tipo de silêncio que amplifica tudo o que mora dentro — e dentro, agora, mora um barulho que ela não sabe como descrever.
Não é angústia, exatamente. É mais como um zumbido. Um ronco grave e contínuo que vibra atrás do esterno e que diz, sem palavras, que algo está muito errado. Mas se alguém perguntasse o quê, ela não saberia responder. Diria “estou cansada”. Sorriria. Mudaria de assunto.
O celular acende. Uma notificação do e-mail corporativo. São 3h14 da manhã de uma quarta-feira e há um e-mail do gestor dela. Enviado às 23h47 — ele também não dorme, ou talvez tenha programado o envio para parecer que não dorme, que é um tipo particular de violência disfarçada de dedicação. O assunto diz: “Alinhamento urgente — região Sul”. O corpo do e-mail tem três parágrafos. O primeiro é uma cobrança. O segundo é outra cobrança. O terceiro termina com “precisamos falar sobre isso amanhã, primeira hora”.
Nenhum reconhecimento pelo trabalho de ontem. Nenhuma menção ao fato de que ela gerencia a planta mais complexa e com maior responsabilidade, enquanto outro colega administra uma unidade menor, cujo destaque vem do produto estratégico — e não da complexidade ou da responsabilidade do cargo. Nenhum olhar sobre o esforço contínuo: ela não tirou férias em onze meses. Nenhuma pergunta sobre como está lidando com a pressão. Essa ausência de reconhecimento expõe uma falha de liderança e uma cultura que valoriza o produto estratégico acima da gestão real e da responsabilidade assumida.
Ela lê o e-mail duas vezes. Na primeira, sente o estômago fechar como um punho. Na segunda, os olhos ardem, mas ela não chora. Chorar seria admitir que dói. E se dói, alguém pode perceber. E se alguém percebe…
Ela fecha o e-mail. Volta para a planilha. O cursor continua piscando. E o zumbido atrás do esterno cresce um tom.
⸻
Aqui quero fazer uma breve reflexão — e preciso ser honesto antes de continuar. Isto me faz lembrar de anos atrás, quando escrevia algum texto: uma parte de mim estava sempre escolhendo palavras. Montando imagens. Calculando o impacto de cada frase. Existe uma ironia venenosa em escrever sobre o tribunal do olhar alheio enquanto uma voz dentro de mim sussurra: isso está bom o suficiente? O leitor vai se impressionar? Vai achar que você escreve bem?
Percebe? O tribunal opera em todos nós. Inclusive em quem escreve sobre ele. E talvez a única diferença entre quem sofre em silêncio e quem tenta colocar o sofrimento em palavras seja que o segundo aprendeu a flagrar o juiz no ato — não a silenciá-lo. Ele continua lá. Eu continuo aqui. E a escrita acontece nesse espaço estranho entre a honestidade e a performance.
Digo isso porque seria fácil — e desonesto — falar de liberdade a partir de um lugar de superação. Esse lugar não existe. O que existe é uma tentativa, diária e imperfeita, de não obedecer cegamente à voz que mede tudo.
⸻
Voltando a Ariele. Ela teve um nome para isso um dia. Não para o sofrimento — para o que veio antes dele. Para aquilo que agora parece pertencer a outra vida.
Houve um tempo em que ela amava organizar. Parece ridículo dito assim, mas era verdade. Havia um prazer quase sensorial em pegar o caos e transformá-lo em estrutura. Abrir uma tela em branco e desenhar um plano. Distribuir tarefas como quem compõe uma partitura — cada instrumento no seu tempo, cada entrada na sua hora. Ver as peças se encaixando. Sentir, no peito, aquele calor específico que só aparece quando algo que a gente fez funciona.
Liderar era uma extensão disso. Não o poder — o poder nunca a interessou. O que a interessava era a orquestra. Estar no meio de pessoas que confiavam nela. Saber que podia segurar a barra quando tudo tremesse. Oferecer segurança não como discurso, mas como presença: estou aqui, vai dar certo, eu tenho um plano. E na maioria das vezes, tinha.
Analisar era outra forma de amor. Mergulhar nos dados como quem mergulha num lago frio — o choque inicial e depois a clareza absoluta. Encontrar o erro escondido na terceira casa decimal. Seguir um fio lógico até a raiz. Sentir a satisfação de entender, de verdade, como as coisas funcionavam. Não por vaidade intelectual, mas porque entender era a forma dela de cuidar. Se eu entendo, eu protejo. Se eu prevejo, eu evito o desastre. Se eu planejo, ninguém se machuca.
Ela amava tudo isso.
E o que dói mais — mais do que a exaustão, mais do que a cobrança, mais do que o e-mail das 23h47 — é que ela perdeu o acesso a esse amor. O que antes era prazer virou obrigação. O que antes era vocação virou armadilha. Organizar, que era sua dança, virou marcha forçada. Liderar, que era sua forma de existir no mundo, virou peso. Analisar, que era mergulho, virou afogamento.
Isso é o que ninguém conta sobre a exaustão profissional: ela não apenas rouba a energia. Ela rouba o sentido. Transforma aquilo que a pessoa mais ama fazer na coisa que mais a destrói. E a pessoa fica presa entre a vocação e a dor, sem conseguir largar nenhuma das duas — porque largar a vocação seria perder a si mesma, e continuar na dor é se perder do mesmo jeito.
⸻
Quinta-feira, 14h30. Reunião de resultados.
Ela apresenta os números de todos os produtos pelos quais responde. São bons. Não espetaculares — porque espetacular é o que acontece quando você gerencia o que traz maior faturamento, não quando você gerencia atividades com equipes enxutas e orçamentos apertados. Mas são bons. Sólidos. Consistentes. Fruto de um trabalho de formiga que ninguém vê porque ninguém olha.
O gestor escuta em silêncio. No slide seguinte, faz uma pergunta sobre uma queda de três por cento nas vendas. Ela explica. É sazonal. Acontece todo ano. Ela tem os dados comparativos. Mostra. Ele assente, mas a expressão não muda. Ela conhece essa expressão. É a expressão de quem já decidiu que a resposta não é suficiente antes mesmo de ouvi-la.
Em seguida, o colega apresenta. Os produtos dele são os que mais vendem. Cinquenta por cento da receita. Os slides têm gráficos ascendentes. O gestor sorri. Faz comentários positivos. Usa a palavra “excelente”. O colega agradece com modéstia ensaiada.
Ela observa. Não diz nada. Por fora, está calma. Anotando. Profissional. Por dentro, acontece um terremoto em câmera lenta. Não é inveja do colega — ela sabe que a comparação é injusta. É algo pior que inveja: é a confirmação, mais uma vez, de que o sistema não mede o que ela dá. Mede o que o produto dá. E os produtos dela, por mais que ela se mate, não vão competir em números brutos com o pop star da empresa. Nunca. A matemática não permite.
Ela sabe disso. Intelectualmente, sabe. Mas o estômago não ouve o intelecto. O estômago ouviu “excelente” para o outro e silêncio para ela, e traduziu: você não é suficiente.
Depois da reunião, ela vai ao banheiro. Tranca a porta. Encosta a testa na parede fria. Respira. Uma vez. Duas. No terceiro respiro, os olhos enchem. Ela não chora — ela nunca chora, chorar é perder o controle e perder o controle é ser vista e ser vista é — ela segura. Aperta o maxilar. Engole. Lava o rosto. Olha no espelho. A mulher que olha de volta tem olhos vermelhos e expressão neutra. Ela conhece essa mulher. É a versão que sobrevive. Não a versão que vive.
Volta para a mesa. Abre o e-mail. Responde três mensagens. Ninguém percebe nada.
⸻
Tem uma coisa que eu gostaria de dizer e que não sei se consigo dizer bem, porque ela resiste às palavras. É sobre cor.
Quando alguém vive assim — sob vigilância interna constante, com o corpo em estado de alerta permanente, medindo cada gesto pela régua imaginária do outro — o mundo perde cor. Literalmente. Não como metáfora elegante, mas como experiência vivida. As coisas ficam cinzas. O almoço não tem gosto. O domingo não tem forma. A música no carro não chega. É como se houvesse uma película entre a pessoa e a vida, fina o bastante para parecer transparente, espessa o suficiente para filtrar tudo o que é vibrante.
Ela se lembra de vermelho. O vermelho de uma raiva que, quando era mais nova, ela deixava sair — uma discussão acalorada, um “não concordo” dito com o corpo inteiro, uma porta que bateu mais forte do que o necessário. Esse vermelho agora vive trancado. Foi domesticado. Virou “profissionalismo”. Virou compostura. Virou aquele sorriso sereno que ela usa como escudo e que, com o tempo, colou no rosto de um jeito que ela já não sabe se é máscara ou pele.
Ela se lembra de amarelo. O amarelo ridículo de uma tarde em que, anos atrás, um plano que ela montou funcionou tão perfeitamente que a equipe inteira riu de alívio e surpresa. Alguém trouxe bolo. Ela comeu dois pedaços. Não pensou em calorias, nem em impressionar ninguém, nem em se o bolo era adequado ao contexto profissional. Apenas comeu, e riu, e sentiu no peito algo que agora ela chamaria, com espanto, de felicidade descomplicada.
Ela se lembra de azul. O azul de uma tristeza antiga e honesta que aparecia quando as coisas não davam certo e que, naquela época, ela permitia. Sentava, ficava triste, às vezes ligava para alguém e dizia “hoje foi difícil” sem vergonha. A tristeza passava. Não porque fosse enfrentada ou resolvida, mas porque era acolhida. Tinha espaço. Respirava e ia embora.
Agora não vai embora. Porque não tem espaço. Porque o tribunal não permite tristeza — tristeza é fraqueza, fraqueza é falha, falha é exposição. Então a tristeza fica presa, comprimida, e se transforma naquele zumbido atrás do esterno que não é angústia exatamente, não é dor exatamente, é um cinza que ocupa tudo.
⸻
De onde vem isso? É a pergunta que todo mundo faz e que quase todo mundo responde rápido demais.
Não vou responder rápido. Vou dizer o que suspeito, com toda a hesitação que o assunto merece — não como verdade, mas como fio que talvez ajude a entender o desenho maior.
Quando comecei o processo com Ariele, alguns insights me fizeram seguir uma linha de investigação. O que encontrei vem de uma casa onde o amor existia — genuíno, real, presente — mas onde o amor tinha condições. Não condições explícitas, não contratos escritos. Condições de ar. Condições atmosféricas. A temperatura subia quando ela acertava. Baixava quando errava. Ninguém dizia “só te amo se você for perfeita”. Mas o corpo da criança entendia a mensagem sem precisar de palavras: quando eu acerto, estou segura. Quando erro, o chão se move.
E a criança, que não tem como questionar as regras do único mundo que conhece, faz a única coisa que pode fazer: aprende a não errar. Ou, quando isso é impossível, aprende a esconder o erro. Ou, quando isso também é impossível, aprende a compensar o erro tão rapidamente que ninguém percebe. E chama isso de disciplina. De responsabilidade. De excelência.
Décadas depois, a mulher adulta está sentada diante de uma planilha às 3h da manhã, obedecendo a uma instrução que recebeu aos seis anos.
⸻
E agora vem a parte em que eu deveria oferecer uma saída. Uma chave. Um caminho. Um “faça isso e aquilo e o tribunal se dissolve”.
Não vou.
Não vou porque seria desonesto. Porque para algumas pessoas, em alguns momentos, não há saída imediata. O tribunal não fecha com uma frase bonita. A exaustão não passa com um insight. O corpo que aprendeu a se contrair não aprende a se soltar numa tarde. A crença de que o valor depende do olhar do outro, cultivada ao longo de uma vida inteira, não se desfaz com um parágrafo final esperançoso.
O que posso dizer — e é pouco, e eu sei que é pouco — é que existe uma diferença entre estar quebrada e ser quebrada. Estar é condição. Ser é identidade. E a confusão entre as duas é uma das violências mais sutis que o tribunal impõe: convencer a pessoa de que o momento em que ela se encontra é a verdade definitiva sobre quem ela é.
Não é.
Ela continua sendo a mulher que amava organizar, mesmo quando organizar virou dor. Continua sendo a líder que segurava a orquestra, mesmo quando a orquestra desafinou e ninguém ajudou. Continua sendo a analista que mergulhava nos dados com prazer, mesmo quando o prazer secou. Essas versões não morreram. Estão soterradas sob camadas de exaustão, cobrança e medo — mas estão lá. Intactas. Esperando não uma solução, mas uma pausa. Um momento em que a vigilância descanse o suficiente para que a vida volte a vazar pelas frestas.
⸻
Talvez a única coisa que faça sentido dizer agora — a única que não soa como conselho, fórmula ou tentativa de resolver o que não se resolve com palavras — é isto:
Você não precisa fechar o tribunal para começar a viver. Ele pode continuar lá, com suas sessões e seus veredictos e seu barulho. Você pode ouvi-lo e, mesmo assim, escolher não obedecer. Não como ato heroico. Não como epifania. Como gesto pequeno, humano, às vezes trêmulo. Como levantar da cadeira às 3h da manhã, fechar a planilha e ir dormir sem resolver nada — sabendo que amanhã o e-mail continuará lá e o gestor continuará cobrando e os números continuarão sendo injustos. E ir dormir mesmo assim. Porque o corpo pediu. E porque, pela primeira vez em muito tempo, você escolheu ouvir o corpo em vez do tribunal.
Isso não é superação. Não é virada de chave. É sobrevivência com dignidade.
E às vezes — em alguns momentos específicos, para algumas pessoas específicas, no meio de uma exaustão que o sono não resolve — sobrevivência com dignidade é tudo o que se pode oferecer a si mesma. E é o bastante. É mais do que o bastante. Porque carrega dentro de si uma verdade que o tribunal nunca vai admitir: que existir, imperfeita, cansada, sem respostas, com o maxilar travado e os olhos vermelhos e a planilha aberta — existir assim, exatamente assim — já é um ato de coragem que a maioria das pessoas não percebe.
Eu percebo.
E se, em algum momento, entre uma insônia e outra, a pergunta aparecer — não como exercício intelectual, mas como necessidade visceral: se ninguém estivesse olhando, absolutamente ninguém, como eu saberia que fiz um bom trabalho? — não tente responder de imediato. Apenas segure a pergunta. Deixe-a existir sem resposta. Porque a pergunta, sozinha, já é o começo de algo. Não sei de quê. Mas de algo.
A liberdade não algo que simplesmente acontece. Mas hoje — agora — talvez o que importe não seja a liberdade. Talvez o que importe seja algo anterior e mais urgente: a permissão de estar exatamente onde se está, sem que isso seja mais uma falha a ser corrigida.
Você está aqui. Inteira. Mesmo quando não parece.
Isso basta. Por agora, isso basta.
⸻
#tribunalinterno #liberdade #responsabilidade #autoconhecimento #perfeccionismo #vocação #liderançaconsciente #esgotamento #presença #vulnerabilidade #corpoemente #relaçõesdetrabalho #dignidade #coragem #vidainteira #marcellodesouza #marcellodesouzaoficial #coachingevoce
Marcello de Souza | Coaching & Você
marcellodesouza.com.br
© Todos os direitos reservados
⸻
📌 Se algo neste texto tocou um lugar que você não costuma mostrar — continue. No blog do Marcello de Souza há centenas de publicações sobre desenvolvimento cognitivo comportamental, liderança e relações humanas. Não é conteúdo para consumir. É conteúdo para habitar. Acesse: www.marcellodesouza.com.br
EL TRIBUNAL QUE NO EXISTE
Você pode gostar
EU ESTOU BEM, VOCÊ NÃO ESTÁ BEM: A LINHA TÊNUE ENTRE EGOCENTRISMO EMOCIONAL E EMPATIA
25 de julho de 2023
GRATIDÃO
12 de março de 2021