PORQUE NINGUÉM PODIA DIZER QUE O IMPERADOR ESTAVA NU
Hoje, conversando com um amigo da velha guarda das telecomunicações que trabalhou na Motorola, relembrávamos aqueles anos de efervescência — 1997, 1998 — quando o mercado de telecom fervia. Privatização da Telebrás, torres GSM brotando aos milhares, internet comercial explodindo, o mundo redescobrindo o que significava estar conectado.
E então ele disse aquele nome: Iridium.
Seis bilhões de dólares. Sessenta e seis satélites em órbita. Menos de um ano de operação comercial. Falência.
Mas não foi a magnitude do colapso financeiro que me fisgou. Foi outra coisa — uma pergunta que não quer calar desde aquela época, quando eu mesmo entrava no mercado como engenheiro e via, com meus próprios olhos, o óbvio gritando.
Torres de celular se multiplicando. Custos despencando. Cobertura viral. E a Motorola colocando satélites a 780 km de altitude para vender aparelhos de US$ 3.000 com ligações a US$ 8 o minuto.
Quando celulares terrestres custavam centavos e cabiam no bolso.
Era óbvio.
Então a pergunta real nunca foi “por que erraram?”. A pergunta é: por que quem sabia não pôde falar?
O PREÇO DA NUDEZ INVISÍVEL
Os números são conhecidos. Motorola investiu US$ 5-6 bilhões entre 1987 e 1999. Lançou 66 satélites operacionais. Projetou centenas de milhares de usuários, talvez milhões. Conseguiu 10 a 55 mil. Faliu em agosto de 1999, menos de um ano após lançamento comercial.
Em 2000, Dan Colussy — executivo de aviação, não gênio tecnológico — comprou os destroços por US$ 25 milhões. Hoje, Iridium fatura US$ 600-700 milhões anuais, vale bilhões, acaba de lançar 75 novos satélites por US$ 3 bilhões, e planeja a próxima geração.
A mesma tecnologia. Os mesmos satélites (funcionaram até 2019).
O que mudou?
Não foi a tecnologia.
Foi quem estava ouvindo. E o que estavam dispostos a ouvir.
É estatisticamente impossível que ninguém dentro de uma organização de milhares de pessoas tenha visto o que era óbvio para quem observava de fora. Engenheiros vendo torres terrestres se multiplicando enquanto trabalhavam em satélites caríssimos. Analistas vendo projeções não batendo com realidade. Vendedores tentando vender tijolos de US$ 3.000 quando clientes queriam algo por US$ 200.
Alguém via.
Meu amigo confirmou: “Tinha gente que via, Marcello. Não era todo mundo cego. Mas… sabe como é. Não era o tipo de coisa que você falava numa reunião.”
E aí está a anatomia do desastre.
O projeto seguiu. Sem pivô. Sem correção. Sem questionamento público de premissas. Até a falência.
Não por falta de informação.
Mas porque a arquitetura cultural tornou estruturalmente impossível que essa informação alterasse decisões.
A MÁQUINA DE SILENCIAR
Organizações técnicas de elite desenvolvem hierarquias epistêmicas invisíveis. No topo: C-level, PhDs, consultores de prestígio. Na base: quem está no território — campo, vendas, implementação, quem vê o dia a dia.
O paradoxo brutal: quem estava mais próximo da realidade tinha menos poder de influência. Quem estava mais distante — em salas estratégicas, olhando planilhas — tinha mais poder de decisão.
E quem está no território aprende rápido: contestar o mapa da cúpula não é visto como “trazer informação valiosa”. É lido como falta de visão, negatividade, desalinhamento.
Organizações não precisam censurar explicitamente. Basta que a estrutura envie sinais claros sobre quem tem direito de definir verdade estratégica. E o silenciamento se torna automático.
Emerge então aquela norma aparentemente razoável, estruturalmente devastadora: “Não traga problemas sem soluções.”
Na prática, significa: vê que a estratégia está errada, porém não tem alternativa completamente formulada? Cale-se. Detecta sinais contraditórios, mas não pode provar nos termos que a cúpula aceita? Cale-se. Sente dissonância, entretanto, não articula na gramática corporativa? Cale-se.
Informação crítica nunca chega. Não porque foi censurada, mas porque foi auto filtrada como improdutiva. A cultura criou um sistema imunológico que rejeita informação dissonante antes mesmo dela entrar. Fato é que cada organização desenvolve sua gramática de prestígio — formas de falar que conferem legitimidade.
Na Motorola do Iridium, prestígio vinha de: “visão de longo prazo”, “inovação disruptiva”, “pensar grande”, “conectar o planeta”. Não tinha prestígio: “limitações de mercado”, “vantagens da infraestrutura terrestre”, “pragmatismo comercial”.
Quem falava a segunda linguagem era lido como pequeno, sem visão. Então a percepção ou se traduzia em gramática aceita (distorcendo a mensagem) ou era ignorada. E na tradução, a urgência se perde. A criticidade se dilui. A dissonância vira “preocupação gerenciável”.
O IMPERADOR ESTÁ NU
Você conhece a fábula: o imperador está nu, todos veem, ninguém fala, até que uma criança grita a verdade. Por quê? Porque cada adulto pensa: “todo mundo parece ver roupa; se EU disser que não há, vou parecer incompetente.”
Em organizações, isso se amplifica exponencialmente.
Engenheiro A: “Talvez a cúpula saiba algo que não sei.”
Analista B: observou outros sendo marginalizados por questionar.
Manager C: performance depende de mostrar alinhamento.
VP D: já apostou publicamente; recuar destrói credibilidade.
Todos veem. Ninguém fala.
E quanto maior o elefante fica, mais impossível mencioná-lo — porque agora você teria que explicar não só o problema, mas por que ninguém falou antes.
Nesse sentido, vale a reflexão de que provavelmente a economia comportamental era clara:
• Incentivos para calar: emprego, ser visto como alinhado, promoção, bônus atrelados a milestones técnicos (não mercado), status, evitar ser rotulado como problemático.
• Incentivos para falar: nenhum positivo; todos negativos.
A estrutura garantia estatisticamente o silêncio. Não porque as pessoas eram covardes. Mas porque eram racionais dentro do sistema em que operavam.
QUANDO O DISCURSO E A VIDA NÃO CONVERSAM
Aqui está algo que a maioria das organizações confunde — e essa confusão custa bilhões.
Cultura = valores declarados. Motorola celebrava “inovação ousada”, “excelência técnica”, “pensar grande”.
Clima = experiência real vivida. Provavelmente: “não questione o plano”, “mostre alinhamento”, “se vê problemas, você é o problema”.
Cultura é o que dizem em townhalls e o que está em pôsteres.
Clima é o que você sente no estômago quando pensa em dizer que a estratégia está errada.
E clima é sistêmico, não por acaso, sempre vence.
Porque clima é onde promoções realmente vão. Clima é o que acontece com quem expressa dúvidas. Clima é quem tem voz e quem não tem.
E se o clima diz “cale-se”, você cala. Independentemente do que pôsteres declarem.
US$ 6 BILHÕES NÃO SÃO METÁFORA
São o custo documentado da ausência de segurança psicológica — essa crença compartilhada de que é seguro questionar, discordar, trazer más notícias.
Os sintomas eram observáveis: projeto seguindo até falência sem pivô fundamental, sem questionamento público de premissas, sem correção quando dados contradiziam projeções.
Isso não acontece porque todos são incompetentes. Acontece porque a arquitetura cultural tornou impossível que informação dissonante circulasse e alterasse decisões.
E então você navega cegamente para o iceberg. Mesmo quando metade da tripulação vê o iceberg. Porque ninguém pode dizer. Porque dizer tem custo pessoal alto e benefício coletivo incerto.
E você afunda.
Com US$ 6 bilhões.
QUANDO ALGUÉM FINALMENTE OUVE
Dan Colussy comprou os destroços por US$ 25 milhões em 2000 — 0,4% do investimento original.
Fez uma coisa profundamente simples que a Motorola não fez ou demorou muito para fazer: perguntou “onde isso realmente importa?” e ouviu.
Não chegou com mapa pronto. Não impôs narrativa grandiosa. Perguntou ao território.
E o território respondeu: aviação sobre oceanos (regulação pós-11/9), marítima em alto-mar (sem alternativa), militar em zonas sem infraestrutura, IoT global, operações em áreas extremamente remotas, serviços de emergência.
Colussy reposicionou completamente. Não competir com celulares terrestres. Servir nichos onde satélite é única opção viável. Margens altas, volume menor, expectativas realistas.
A mesma tecnologia que “fracassou” virou essencial e lucrativa. Não porque satélites mudaram. Porque alguém estava disposto a ouvir.
A OBJEÇÃO INEVITÁVEL
“Mas o Iridium hoje faz a mesma coisa que tentava fazer em 1998. E Starlink, OneWeb, Amazon Kuiper estão colocando constelações satelitais. Então a Motorola não estava certa?”
Resposta: tudo mudou, exceto a tecnologia.
Starlink resolve problema diferente: banda larga para 3+ bilhões sem acesso, em áreas onde infraestrutura terrestre não existe ou nunca chegará. Com economia radicalmente diferente: foguetes reutilizáveis (US$ 1-2 milhões por lançamento vs. US$ 50-100 milhões), satélites menores em órbita mais baixa, terminais de US$ 500 vs. US$ 3.000, latência de 20-40ms vs. mais de 1 segundo.
A física econômica simplesmente não existia em 1998.
Iridium hoje faz serviço similar, mas: mercado-alvo mudou completamente (de executivos urbanos para operações sem alternativa terrestre), contexto de valor mudou (mesmo preço, mas para navio em alto-mar é essencial, não extorsivo), tendências criaram mercados que não existiam em 1998 (regulação aviação pós-11/9 obrigatória, explosão de transporte marítimo, emergência de IoT industrial), matemática financeira mudou (comprar por US$ 25 milhões vs. construir por US$ 6 bilhões muda break-even completamente), e 20 anos de aprendizado doloroso ensinaram onde funciona.
A Motorola tinha tecnologia certa. Lançou no timing errado, para mercado-alvo errado, com posicionamento errado, estrutura de custos errada, e sem capacidade organizacional de adaptar.
Porque ninguém podia dizer que o imperador estava nu.
O QUE ISSO EXIGE DE QUEM LIDERA
Se você lidera — equipe, divisão, empresa — aqui estão perguntas que não dá para evitar:
Primeiro: Competência técnica sem segurança psicológica é caminho garantido para desastre. Melhores profissionais do mundo não salvam se não podem falar quando veem problemas. A Motorola provou com US$ 6 bilhões.
Segundo: Cultura real não é o que você declara. É quem pode falar quando você está fundamentalmente errado. Teste: analista júnior pode questionar premissa estratégica fundamental sem risco de carreira? Se não, você não tem inovação. Tem conformidade performática.
Terceiro: Papel da liderança não é proteger narrativa. É destruí-la quando território mudou. Não defender mapa até a morte, mas ter coragem de queimá-lo publicamente quando não corresponde mais ao território. E criar cultura onde qualquer pessoa pode acender o fósforo.
Quarto: Clima organizacional é mais determinante que estratégia declarada. Estratégia brilhante no papel não importa se clima diz “cale-se quando vir problemas”. Clima é o que separa organizações que adaptam (Google matando produtos, Amazon experimentando, Netflix pivotando) de organizações que afundam (Blockbuster, Kodak, Nokia, Motorola).
Quinto: Ações concretas para criar segurança psicológica estrutural:
Institucionalizar dissidência (red teams formais, advogado do diabo com incentivo de performance atrelado a qualidade de crítica).
Inverter hierarquia epistêmica (quem está no campo tem voto mais pesado em decisões sobre mercado).
Tornar mudança de opinião virtude máxima (celebrar executivos que recuam quando território muda, incluir em avaliação “quantas vezes mudou de opinião baseado em evidência?”).
Medir clima real (pesquisas anônimas: “você se sente seguro para discordar do gestor em público?”, “já deixou de compartilhar informação crítica por medo?”).
Criar bypass hierárquico (informação crítica chegando à cúpula sem filtro de camadas intermediárias).
O IMPERADOR AINDA ESTÁ NU
A tragédia do Iridium não foi tecnológica. Não foi financeira. Foi epistemológica. Foi organizacional. Foi psicossocial.
US$ 6 bilhões foram perdidos porque alguém — provavelmente muitos — via o óbvio. E não pôde falar. Ou falou e não foi ouvido. Ou foi ouvido e descartado como “sem visão”.
Não porque a Motorola era má ou liderada por incompetentes. Mas porque a arquitetura cultural tornou o silêncio estruturalmente mais seguro que a verdade desconfortável.
Até que custou US$ 6 bilhões.
Dan Colussy transformou “fracasso histórico” em bilhões não mudando tecnologia. Mudando quem estava ouvindo.
Por fim,
A pergunta para sua organização — 5 pessoas ou 500 mil — não é “temos a estratégia certa?”
A pergunta real é: “Se nossa estratégia estiver fundamentalmente errada… quem pode dizer? Eles falariam? Seriam ouvidos? Algo mudaria?”
Se a resposta honesta é “ninguém”, “não”, “não”, “não”…
Você não está construindo o futuro.
Você está construindo seu próprio Iridium.
E em algum lugar — talvez no seu time, no andar de baixo, no escritório que ninguém visita — alguém já sabe.
Mas não pode dizer.
Porque o imperador não pode estar nu.
Mesmo quando todos veem.
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Porque mapas bonitos não salvam ninguém.
Só a coragem de os queimar quando o território mudou.
E criar estruturas onde qualquer pessoa pode acender o fósforo antes de custar US$ 6 bilhões descobrir o óbvio.
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