VOCÊ GANHA O ACORDO E PERDE A NEGOCIAÇÃO – O QUE NINGUÉM CALCULA ANTES DE SENTAR À MESA
Ganhar um acordo e perder a negociação é mais comum do que parece. Descubra o valor subjetivo oculto que determina o que acontece depois que a tinta seca. – Marcello de Souza
Você fechou. O contrato está assinado. Os números fecharam do jeito que você queria.
E mesmo assim, três meses depois, o outro lado não está entregando com o empenho que você esperava. As reuniões têm uma frieza difícil de nomear. O e-mail demora para ser respondido. Quando surge um imprevisto — e sempre surge — a negociação para resolver é mais difícil do que deveria ser.
Você olha para o acordo no papel e ele está lá, intacto.
Mas algo fundamental entre vocês foi, de alguma forma, perdido.
Como isso acontece?
Existe uma categoria de resultado numa negociação que não aparece em nenhuma planilha e raramente entra em qualquer avaliação de desempenho. Ela opera em paralelo ao acordo econômico, tem lógica própria e, nas situações reais onde as mesmas pessoas precisam trabalhar juntas depois que a tinta seca, é um preditor mais poderoso de comportamentos futuros do que o valor do contrato em si.
Pesquisadores que passaram anos estudando o que as pessoas realmente valorizam quando negociam chegaram a uma conclusão que deveria perturbar qualquer executivo acostumado a medir resultados apenas por números: o que determina se alguém vai cumprir o acordo com boa vontade, vai querer negociar de novo com você ou vai procurar uma saída na primeira oportunidade não é o quanto ganhou no papel.
É como se sentiu tratada durante o processo.
Isso tem um nome — valor subjetivo. E ele se organiza em quatro dimensões que a maioria das pessoas nunca se dá ao trabalho de examinar: como a pessoa avaliou o resultado que obteve, como se sentiu em relação a si mesma durante a conversa, como percebeu a qualidade da relação com você, e se achou que o processo foi conduzido com justiça e respeito genuíno.
A descoberta mais perturbadora é esta: o valor subjetivo prediz melhor as decisões futuras do que o valor objetivo do acordo.
Uma pessoa que saiu com menos do que poderia ter obtido, mas que se sentiu tratada com dignidade e percebeu que o processo foi honesto, vai se comportar de forma radicalmente diferente nas próximas rodadas do que uma pessoa que arrancou a melhor proposta e saiu sentindo que foi gerenciada, calculada ou simplesmente ignorada como ser humano.
Você pode ter ganho o acordo. E ter perdido a negociação.
Há algo ainda mais profundo que isso — e é aqui que quase toda análise para.
Toda negociação carrega dentro de si uma outra negociação. Uma que acontece em silêncio, fora da pauta, sem que ninguém a tenha preparado.
É a negociação sobre quem cada pessoa vai ser reconhecida como sendo naquele encontro.
Todo ser humano entra em qualquer situação de alta tensão carregando uma necessidade que raramente verbaliza, mas que opera com força total: a necessidade de que sua identidade seja confirmada. Não elogiada. Não lisonjeada. Confirmada. Que o modo como você se enxerga seja reconhecido como legítimo pela pessoa que está à sua frente.
Pense num diretor experiente que entra numa negociação com um fornecedor estratégico. Ele domina os números, conhece o mercado, tem décadas de história consolidada. Quando o outro lado conduz a conversa de um modo que, ainda que sutilmente, o trata como alguém que precisa ser convencido em vez de como alguém com quem se está construindo algo junto — algo muda.
Não na lógica. Na disposição.
Uma tensão imperceptível instala-se e vai colorir cada proposta subsequente, não porque os números pioraram, mas porque aquele profissional passou a negociar, também, para proteger quem ele é.
Isso acontece em toda parte, o tempo todo — e quase sempre sem intenção.
Uma explicação oferecida antes de ser pedida. Uma objeção antecipada antes de ser levantada. Uma frase que começa com “deixa eu te mostrar” quando o outro ainda nem terminou de perguntar. São gestos pequenos, muitas vezes bem-intencionados, que carregam dentro deles uma mensagem que ninguém formulou conscientemente mas que o outro lado recebe com clareza: você não confia que ele chegará lá sozinho.
Você provavelmente já sentiu isso do outro lado da mesa. Aquele momento em que alguém responde ao que você ainda não disse — e você percebe, sem conseguir nomear, que está sendo gerenciado em vez de encontrado. Que a conversa já estava decidida antes de você abrir a boca.
Cada um desses momentos entra num sistema de avaliação que funciona muito abaixo da conversa consciente. Silenciosamente, produz estados que vão direcionar comportamentos que, dias depois, nenhuma das partes conseguirá explicar de forma racional.
O acordo pode estar assinado. A relação, não.
Agora pause.
Não para continuar lendo. Para se perguntar algo com honestidade:
Em qual estado você entra nas suas negociações mais importantes?
Não o estado que você descreve. O real — aquele que está funcionando enquanto você ouve a primeira contraproposta inesperada, enquanto enfrenta um silêncio que não previu, enquanto percebe que a conversa está indo para um lugar diferente do que planejou.
Há algo sobre autocontrole em situações de pressão que merece atenção: essa capacidade não é fixa. Ela flutua. Flutua em função de quanto já foi exigida antes daquele momento.
Um gestor que chega à negociação depois de um dia inteiro gerenciando conflitos, tomando decisões difíceis e contendo reações em reuniões anteriores chega com repertório reduzido. Mesmo que não perceba. E é exatamente nesses momentos que padrões mais primitivos emergem: a rigidez onde deveria haver flexibilidade, a reatividade onde deveria haver presença, o fechamento onde deveria haver abertura genuína.
Isso não é fraqueza. É funcionamento humano.
O problema é quando não há consciência suficiente de si mesmo para perceber que se entrou nesse estado — e a pessoa continua acreditando que está negociando com sua versão mais capaz, quando na prática está negociando com sua versão mais esgotada.
Pense numa cena que você provavelmente já viveu.
Você está numa negociação de renovação de contrato importante. Preparado. Sabe o que precisa defender. E então o outro lado faz algo que não estava no roteiro: em vez de ir direto ao ponto, passa os primeiros vinte minutos falando sobre os desafios internos que está enfrentando, mudanças na equipe, pressões que vieram de cima.
O que acontece dentro de você?
Para a maioria das pessoas, uma tensão sutil aparece. O pensamento que não é dito em voz alta, mas que está presente: isso está saindo do script. Preciso trazer de volta. E assim, mesmo que o comportamento externo pareça atento, internamente você já saiu da conversa que está acontecendo para gerenciar a conversa que havia planejado.
O que você perdeu nesses vinte minutos?
Talvez a informação mais valiosa de toda a negociação. A chave para entender o que o outro lado realmente precisa — não o que está pedindo, mas o que precisaria para se sentir seguro dizendo sim. Talvez a chance de ser a única pessoa naquele dia que tratou aquele profissional como alguém com uma história que importa, não apenas como uma função a ser gerenciada.
Escuta real não é técnica. É o estado em que você está suficientemente seguro de si mesmo para deixar o outro chegar até você — sem controlar o rumo, sem calcular a resposta enquanto o outro ainda está falando, sem usar o silêncio como posição estratégica em vez de como presença genuína.
Esse estado não se aprende num workshop. Ele é construído na relação que você tem consigo mesmo fora das negociações: na forma como lida com incerteza, com contradição, com o simples fato de que você pode estar errado sobre algo que achava consolidado.
Há uma ilusão de controle que atravessa quase tudo que se ensina sobre negociação: a ideia de que preparação suficiente elimina a imprevisibilidade humana. Que se você conhece bem a posição do outro lado, suas alternativas e seus interesses, pode construir um caminho que leva exatamente onde quer.
Essa ilusão é sedutora porque é parcialmente verdadeira. Preparação importa. Conhecimento importa.
Mas o que ela omite é que toda negociação real acontece entre duas pessoas que são, ambas, obras em processo — com histórias que as precedem, com estados internos que variam de dia para dia, com a capacidade de surpreender a si mesmas na mesma medida em que surpreendem os outros.
E quando você entra acreditando que controla o processo porque controla as variáveis externas, negligencia a única variável que está completamente sob sua influência e que raramente examina com honestidade:
Você mesmo.
O que você acredita, no fundo, sobre a pessoa à sua frente? Que está tentando tirar vantagem? Que é razoável, mas precisará ser conduzida? Que existe uma saída genuinamente boa para os dois lados?
Essas crenças não são neutras. Elas moldam cada escolha — o quanto você revela, o quanto esconde, o quanto de espaço você cria para que algo diferente do que planejou possa emergir. E são percebidas. Da mesma forma que você percebe quando alguém está realmente presente numa conversa e quando está apenas administrando a presença.
Acordos que duram têm uma marca que nenhum contrato consegue capturar.
Ambos os lados saem com a sensação de que foram vistos como pessoas inteiras — não como funções, não como obstáculos, não como problemas a resolver. Essa percepção é o que vai determinar o comportamento do outro lado quando as circunstâncias mudarem, quando um imprevisto surgir, quando o acordo precisar ser revisado.
Nesses momentos, o que vai importar não será o texto do contrato.
Será a memória de como aquela pessoa foi tratada quando tudo ainda era incerto.
Isso não é idealismo. É o cálculo mais estratégico que existe numa negociação — e o menos ensinado.
A pergunta que fica não é sobre técnica. É mais simples e muito mais difícil:
Você está suficientemente presente consigo mesmo para poder estar presente com o outro?
O outro lado da mesa sempre sente quando a resposta é não. Mesmo que nunca diga. Mesmo que assine.
É nesse espaço — que nenhuma planilha captura e nenhum treinamento de dois dias alcança — que a negociação real acontece.
Ou deixa de acontecer.
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