
A PRAÇA QUE NÃO APLAUDIU
Deus morreu. Deus morreu.
Não é uma frase para chocar quem lê — é um diagnóstico que alguém precisou de dez anos de silêncio numa montanha para conseguir pronunciar sem tremer. E mesmo assim, quando finalmente desceu para dizê-la em voz alta, a praça riu. Não porque a frase fosse absurda. Porque a praça ainda não tinha fome daquilo. A praça queria o equilibrista. Queria o espetáculo de sempre, a corda esticada entre duas torres, o risco calculado e aplaudível. Ninguém ali tinha pedido uma verdade que exigisse reconstruir, sozinho, tudo que antes vinha pronto de algum lugar fora de si.
Há algo nessa cena que ninguém costuma olhar de frente: o homem não foi ridicularizado por estar errado. Foi ridicularizado por estar cedo demais para aquela plateia. E essa é, talvez, a solidão mais peculiar que existe — não a de quem fala e não é ouvido, mas a de quem fala exatamente a verdade certa, no lugar certo, para pessoas que ainda não estão prontas para precisar dela.
Você já sentiu isso. Não precisa ter descido montanha nenhuma. Basta ter chegado em casa, depois de um processo de virada interna — um luto que se resolveu de um jeito que ninguém esperava, uma decisão profissional que rompeu com tudo que a família sempre validou, uma forma nova de amar que não cabe nas categorias que aprenderam a te oferecer — e ter percebido, no rosto de quem te ouvia, aquele mesmo riso disfarçado de afeto. Que bom que você está bem. Mas será que não é cedo para mudar tanto assim? É a praça, de novo, esperando o equilibrista de sempre.
A questão que isso levanta não é se a verdade vale a pena. É se vale a pena trazer a verdade para um lugar que não pediu por ela.
E aqui mora a primeira armadilha de quem decide viver com mais consciência: a expectativa de que a profundidade, uma vez alcançada, será automaticamente reconhecida. Não será. A maturidade interior não vem com legenda. Ninguém vê o seu processo de dez anos — só vê os cinco minutos em que você desce e fala diferente do que falava antes. E os cinco minutos, isolados, parecem loucura, exagero, fase, crise. A praça não tem acesso à montanha. Só tem acesso ao que você diz quando já desceu — e julga pela superfície, porque é só isso que está disponível para ela julgar.
Isso muda a pergunta que normalmente se faz sobre viver com verdade. A pergunta não é “as pessoas vão entender?”. É: “eu desço mesmo sabendo que talvez não entendam?”. E é exatamente aqui que a maioria recua. Não porque tenha medo da verdade que carrega — mas porque tem medo do silêncio que vem depois de dizê-la. O silêncio de quem esperava aplauso e recebeu indiferença. O silêncio que parece confirmar que talvez a verdade não fosse tão importante assim, já que ninguém pareceu precisar dela.
Porém, antes mesmo de chegar à praça, existe uma montanha menor, mais traiçoeira, que quase ninguém escala: a de admitir, sem desviar o olhar, que não existe nada pronto te esperando lá dentro. Nenhuma natureza fixa. Nenhum “eu sempre fui assim” que explique e justifique, de uma vez por todas, o que se faz com a própria vida. O que existe, no centro de cada pessoa, é uma abertura — um espaço sem fundo onde cabe a cada instante uma escolha nova, e nenhuma escolha anterior tem o poder de decidir pela próxima. Essa abertura é, ao mesmo tempo, a coisa mais parecida com liberdade que se pode ter, e a coisa mais difícil de sustentar olhando de frente. Porque se nada está pronto, então tudo — absolutamente tudo o que se faz, se sente, se evita — é escolha. E escolha implica responsabilidade sem desconto, sem desculpa que se sustente até o fim.
É por isso que tanta gente prefere não olhar para essa abertura. Prefere inventar, às pressas, qualquer coisa que pareça pronta: uma infância que explica tudo, um signo, um diagnóstico usado como sentença, uma “personalidade” tratada como destino imutável. São formas diferentes da mesma fuga — a de transformar a própria liberdade aterradora em um enredo já escrito, que não precisa mais ser decidido, só repetido. E quando o enredo pronto não convence nem a si mesma, vem a segunda camada da fuga, ainda mais sofisticada: eu justificando eu, que justifica eu, que justifica eu de novo — uma sucessão de versões de si mesma, cada uma criada só para explicar a anterior, nenhuma disposta a parar e simplesmente admitir o que está sendo sentido, sem disfarce, sem terceiro a quem culpar, sem desprezo a distribuir para aliviar o peso de ter escolhido.
Essa fuga raramente vem de ignorância. Vem de saber — ou de ter, bem ali, todas as condições de saber — e preferir não ouvir. Preferir justificar a sentir. Preferir culpar a existir sem anestesia. Porque a verdade nua, a de que não há nada além da própria escolha sustentando cada gesto da vida, é vertigem demais para se manter o tempo todo à vista. E é justamente por isso que descer a montanha simbólica para falar uma verdade incômoda começa muito antes da praça — começa no instante em que alguém para de fugir de si mesma o suficiente para finalmente ter algo verdadeiro, e não emprestado, para dizer.
Mas reparar nesse silêncio como prova de erro é o primeiro engano. O silêncio da praça não mede o valor do que foi dito. Mede só a distância entre quem fala e quem ainda não chegou lá. São coisas completamente diferentes, e confundi-las é o que faz tanta gente voltar para a montanha em retirada — não para amadurecer mais, mas para se esconder, achando que o problema foi ter descido cedo demais, quando na verdade o problema foi esperar que a praça estivesse no mesmo ponto que a montanha.
A retirada costuma vir disfarçada de sabedoria. A pessoa diz para si mesma: “não vou mais desperdiçar verdade com quem não está pronto”, e isso soa maduro, soa como discernimento conquistado. Mas é preciso desconfiar dessa frase quando ela aparece logo depois de um riso que doeu. Porque existe uma diferença enorme entre escolher silêncio por sabedoria — sabendo exatamente quando e onde a palavra vai ser semente, e não desperdício — e escolher silêncio por ferida, fechando a porta da praça inteira só porque uma plateia específica, num dia específico, não soube o que fazer com o que foi oferecido. A primeira é estratégia. A segunda é medo usando a roupa da estratégia para não precisar se reconhecer como medo.
O teste para diferenciar uma da outra é simples, embora incômodo: sabedoria escolhe o silêncio e continua disponível para a próxima praça, a próxima pessoa, a próxima oportunidade de descer. Medo escolhe o silêncio e começa a evitar praças — qualquer praça, todas as praças, antecipando o riso antes mesmo de saber se ele vai acontecer de novo. Quando a retirada vira hábito, e não exceção pontual, é sinal de que a montanha deixou de ser lugar de elaboração e virou esconderijo. E esconderijo, por mais alto e silencioso que seja, não produz mais nenhum amadurecimento — só produz mais e mais razões para nunca mais descer.
Há uma pergunta ainda mais incômoda escondida dentro disso tudo, e é a que sempre surge em meus pensamentos: será que vale a pena viver o que nos propomos a viver, se um dia, no fim, nada vai restar? Se a praça nunca aplaudir, se ninguém entender, se tudo isso terminar e o universo seguir exatamente como seguiria sem você ter descido coisa nenhuma — valeu a pena?
A maioria das respostas que existem por aí tentam resolver essa pergunta inflando o sentido: dizem que sim, vale, porque você deixa um legado, porque alguém vai lembrar, porque o impacto continua depois que você não está mais lá para ver. São respostas bonitas. E são, todas elas, uma forma sofisticada de fugir da pergunta — porque continuam dependendo de uma plateia futura para justificar o presente. Trocam a praça de hoje pela praça de amanhã, mas seguem amarradas à mesma lógica: preciso que alguém, em algum momento, valide isso, ou não valeu a pena.
Existe outra possibilidade, a que é parte do meu modo de eu, hoje, ver a vida, e apesar de ser mais difícil de engolir é mais honesta: a pergunta “vale a pena, se no fim nada restar?” está formulada de trás para frente. Ela assume que o valor de uma ação precisa ser comprovado por um resultado posterior — uma plateia que aplauda, uma lembrança que permaneça, um efeito que se propague. Mas e se o valor não estiver depois? E se ele estiver inteiramente contido no instante em que a ação acontece, sem precisar de testemunha nenhuma para ser real?
Pense no homem na praça vazia de risos. No momento exato em que ele fala — antes de saber que vão rir, antes de qualquer resultado —, alguma coisa já aconteceu que nenhuma reação posterior pode desfazer. Ele já se tornou, naquele instante, alguém que disse o que precisava dizer, mesmo sem garantia de ser ouvido. Isso já é fato consumado. O riso que vem depois não apaga isso — só revela que a praça ainda não estava pronta. Mas o ato, em si, já tinha acontecido inteiro, completo, antes de qualquer julgamento externo chegar para validá-lo ou destruí-lo.
É por isso que a pergunta “será mesmo que vale a pena, quando nada existir?” carrega um erro de cronologia. Ela coloca o “nada existir” no futuro, como se fosse o veredito final que vai decidir, retroativamente, se a vida toda fez sentido. Mas o “nada existir” não é um veredito — é só o fim do palco. E confundir o fim do palco com o julgamento da peça é o engano mais antigo que existe. Ninguém pergunta, depois que as luzes do teatro se apagam e todos vão embora, se a peça “valeu a pena” baseado em quanto tempo a sala ficou vazia depois. A peça já aconteceu. Ela já foi, inteiramente, o que foi, enquanto estava sendo encenada.
Vale a pena esticar essa imagem um pouco mais, porque é nela que mora o engano mais sutil de todos. Quando alguém pergunta “vale a pena, se um dia nada vai restar?”, está implicitamente comparando dois estados: o estado de ter vivido com intensidade, e o estado de não existir mais. E está pesando um contra o outro, como se fossem coisas da mesma natureza, colocáveis na mesma balança. Mas não são. Viver com inteireza é um verbo — é coisa que acontece, que tem textura, duração, peso, presente. Não existir mais não é um verbo. É a ausência de qualquer verbo. Comparar os dois é como perguntar se o sabor de uma fruta “vale a pena”, considerando que um dia a fruta vai apodrecer. A pergunta confunde duas categorias que nunca poderiam se cancelar uma à outra: o sabor aconteceu enquanto a fruta existia, e nenhuma decomposição posterior tem o poder de retroceder no tempo e desfazer o sabor que já foi sentido.
O mesmo vale para cada instante em que você, de fato, viveu — não sobreviveu, não rascunhou, não esperou pela hora certa, mas viveu, plenamente, o que tinha para viver naquele momento específico. Esse instante não está em débito com o futuro. Ele não precisa ser resgatado por nada que venha depois, nem precisa temer ser anulado por nada que venha depois. Ele simplesmente foi. E “ter sido”, de forma plena e verdadeira, é uma categoria que nenhum apagamento futuro consegue alcançar, porque apagamento futuro só atua sobre o que ainda vai acontecer — nunca sobre o que já aconteceu de fato.
Só que aqui mora uma diferença essencial entre o teatro e a vida: no teatro, alguém comprou ingresso, sentou, assistiu. Na vida, às vezes você sobe ao palco e a sala está vazia desde o início — ou pior, está cheia de gente que veio para ver outra coisa, e ri quando você não entrega o espetáculo esperado. E mesmo assim — mesmo sem plateia, mesmo com risos no lugar de aplausos — a pergunta sobre se valeu a pena não pode depender de quem estava nas cadeiras. Tem que depender de uma coisa só: se você, no palco, foi inteiramente você mesma enquanto a luz estava acesa.
Isso não é consolo barato para quem fracassou em ser ouvido. É uma mudança radical de onde se coloca o critério de valor. Enquanto o critério estiver na plateia — aplaudiu, entendeu, validou, lembrou — você está condenada a viver de empréstimo, pedindo a cada pessoa ao redor uma permissão que ela nunca teve autoridade real para conceder. Quando o critério se desloca para dentro do próprio ato — eu disse o que precisava ser dito, vivi o que era meu para viver, desci quando precisava descer, mesmo sabendo que ninguém estava pronto — a pergunta sobre o “nada que vai restar” perde a urgência que tinha. Porque nada precisa restar para que algo já tenha sido, inteiramente, real.
Há quem confunda isso com indiferença ao mundo, como se bastasse fazer as coisas “para si mesma” e pronto, sem nenhuma responsabilidade pelo efeito que se causa nos outros. Não é disso que se trata. Descer a montanha continua sendo um gesto generoso — você desce porque tem algo a oferecer, não porque quer ficar sozinha falando para o vazio. A generosidade do gesto não desaparece. O que desaparece é a dependência de que a generosidade seja recebida do jeito que você imaginou, no momento em que você imaginou, pela pessoa que você esperava que recebesse. Você pode continuar oferecendo verdade, presença, profundidade — sem fazer da resposta da praça o termômetro do seu valor.
E talvez seja exatamente isso que separa quem vive de verdade de quem só performa autenticidade: a disposição de continuar descendo, mesmo depois de ter sido recebida com risos, porque a descida nunca foi, desde o início, sobre conseguir o aplauso. Foi sobre ser, integralmente, quem se é, no momento em que se é. O aplauso, quando vem, é generoso bônus. A ausência dele não invalida nada que já tenha acontecido de verdade lá dentro.
Existe ainda uma distinção que vale nomear, porque sem ela é fácil confundir coragem com isolamento. Subir a montanha para elaborar, em silêncio, o que ainda não está maduro o suficiente para ser dito — isso é solidão fértil. É o tipo de recolhimento que prepara alguém para descer mais inteiro do que subiu. Mas existe outro tipo de silêncio, que só parece igual de fora: o isolamento que se justifica como elaboração, mas que na prática é fuga de qualquer praça, de qualquer julgamento, de qualquer chance de riso. Quem está em solidão fértil sente o impulso de descer quando a taça enche — sente que tem algo a oferecer e a generosidade de oferecer pesa mais que o medo da reação. Quem está em isolamento sente o oposto: cada motivo para descer é imediatamente superado por um motivo maior para continuar subindo, sempre adiando, sempre encontrando uma razão nova para esperar mais um pouco antes de se expor de novo. A montanha, nesse segundo caso, deixa de ser preparação e vira destino permanente — um lugar bonito o suficiente para parecer escolha consciente, mas que na verdade é só medo com vista panorâmica.
Volte então à pergunta original, mas vire-a pelo avesso: não pergunte se vale a pena viver, temendo que um dia nada reste. Pergunte se, enquanto resta, você está sendo inteira naquilo que faz. Porque o dia em que nada mais existir não vai perguntar nada a ninguém. Ele simplesmente vai chegar — silencioso, sem plateia, sem veredito, sem aplauso e sem riso. E nesse dia, a única coisa que importa não será quanto tempo a praça ficou cheia ou vazia. Será se, enquanto você esteve nela, falou — ou ficou esperando por uma permissão que nunca chegaria, na esperança de que um dia a multidão certa, finalmente, estivesse pronta para te ouvir.
A montanha sempre vai estar lá, disponível para quem quiser voltar a se esconder nela depois de um riso difícil de engolir. Mas a pergunta que fica não é sobre a montanha. É sobre quantas vezes você está disposta a descer, mesmo sabendo, de antemão, que a praça pode não estar pronta — e descer assim mesmo, não porque vai ser aplaudida, mas porque isso, e só isso, é o que significa ter estado, de fato, viva enquanto durou.
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