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O PREJUÍZO QUE SUA PLANILHA NUNCA VAI MOSTRAR

Quantas vezes você já refez uma tarefa que já tinha sido feita?

Não me refiro ao arquivo perdido, ao retrabalho técnico, àquele relatório que precisou ser reescrito porque alguém apagou sem querer. Falo de outra coisa. Falo daquele instante em que você percebe, no meio de uma reunião, que a equipe está discutindo pela terceira vez, com palavras diferentes, o mesmo problema que já tinha sido resolvido — ou que todo mundo jurava que tinha sido resolvido — seis meses atrás.

Isso não aparece em nenhum relatório financeiro. Nenhum indicador de produtividade capta isso. E, ainda assim, é provavelmente o maior custo dentro da sua empresa.

Eu convivo com isso há mais de vinte e oito anos, dentro de organizações dos mais variados tamanhos e segmentos. E se tem uma coisa que aprendi, com um certo desconforto, é que o desperdício mais caro nunca é o que se vê.

Material perdido, a gente vê. Hora extra, a gente calcula. Retrabalho técnico, a gente documenta. Mas o desperdício de clareza, esse ninguém mede. Ele simplesmente acontece, todos os dias, silenciosamente, drenando energia de gente boa, competente, que trabalha duro e ainda assim sente que está remando contra uma correnteza que ninguém nomeia.

Queria te propor um exercício. Pensa num cruzamento sem sinalização, no horário de pico. Todo mundo acelerando, todo mundo com pressa, todo mundo achando que tem prioridade. Ninguém está parado. Ninguém está de braços cruzados. E, mesmo assim, o trânsito não anda. Às vezes é exatamente isso que acontece dentro de uma empresa. Todo mundo trabalhando, ninguém parado, e o resultado emperrado.

Não é falta de esforço. É falta de combinação.


Eu já sentei com diretores brilhantes, gente que sabe tudo sobre o próprio mercado, sobre margem, sobre concorrência, sobre tecnologia — e que, quando eu perguntava com uma calma quase incômoda “o que exatamente você precisa entregar este trimestre, e como isso vai ser medido”, ficava em silêncio por mais tempo do que deveria.

Não porque não soubessem trabalhar. Porque nunca ninguém tinha perguntado aquilo com clareza. A meta existia, mas vaga, genérica, quase decorativa, pendurada num slide de reunião trimestral. E cada gestor, na ausência de uma resposta nítida, criava a própria versão da meta. Uma colcha de retalhos de prioridades individuais, cada uma fazendo sentido isoladamente, e todas juntas puxando a empresa em direções ligeiramente diferentes.

Isso não é falha de caráter. É desenho.

Uma casa mal planejada tem corredores que não levam a lugar nenhum. Uma empresa mal desenhada tem gente competente correndo em corredores que não levam a lugar nenhum. E o pior: correndo rápido.


Tem uma cena que se repete, quase idêntica, empresa após empresa, setor após setor. Um problema aparece. Alguém apaga o incêndio. Aplaudem o herói do dia. Duas semanas depois, o mesmo problema reaparece, com uma roupagem levemente diferente, e alguém apaga de novo. E de novo. E de novo.

Ninguém para na intenção de perguntar por que o incêndio começou.

Eu costumo dizer, quando estou com um grupo de gestores na sala, que resolver um problema todo santo dia não é competência. É sintoma. É o corpo da empresa avisando que existe uma causa que ninguém teve coragem, tempo ou instrumento para investigar.

Imagina alguém que, toda manhã, precisa pôr um balde debaixo do mesmo vazamento no teto. Ele fica orgulhoso da própria eficiência em posicionar o balde no lugar certo, no horário certo, sem derramar uma gota. Só que o telhado continua furado. E vai continuar furado enquanto o esforço inteiro da casa for em torno do balde, e não do telhado.

As organizações amam balde. Balde dá sensação imediata de controle. Consertar telhado exige parar, subir, sujar a mão, admitir que aquilo ia ficar pior antes de melhorar. E poucas empresas têm estômago para isso, porque o balde parece produtivo e o telhado parece perda de tempo.

Só que o telhado é o único lugar onde o dinheiro de verdade está sendo perdido.


Talvez você conheça esse outro tipo de desperdício de perto: duas áreas que, no papel, deveriam se complementar, e que na prática vivem em atrito de baixa intensidade. Ninguém grita. Ninguém bate porta. Mas existe uma tensão constante, um jogo de empurra silencioso, decisões que demoram porque passam por um filtro invisível de desconfiança entre departamentos.

É como dirigir um carro com o freio de mão puxado pela metade. O carro anda. Chega ao destino. Só que gasta o dobro de combustível, o motor esquenta, as peças desgastam mais rápido, e ninguém entende por que aquele carro, tão bem revisado no papel, consome tanto para rodar tão pouco.

Conflito organizacional crônico é isso. Ele não impede a empresa de andar. Ele impede a empresa de andar com a eficiência que o motor permitiria, se o freio fosse solto.

E o mais curioso é que, quando eu pergunto quem é o responsável por soltar esse freio, a resposta quase nunca aponta para uma pessoa. Aponta para um vazio. Um espaço que ninguém ocupou, porque a ninguém foi dito, com todas as letras, que aquele espaço era seu.


Eu penso muito sobre isso quando observo minha própria rotina, longe do ambiente corporativo. Em casa, às vezes, duas pessoas discutem sobre quem deveria ter levado o lixo, e no fundo o problema nunca foi o lixo. Foi que ninguém combinou, com clareza, de quem era aquela tarefa naquela semana. A raiva que sobra não é sobre o saco de lixo esquecido na cozinha. É sobre a ausência de um acordo que deveria ter existido antes.

As empresas fazem isso em escala industrial. Times inteiros discutindo sobre entregas, prazos, qualidade, quando o problema de verdade nasceu muito antes, no instante em que ninguém definiu, com honestidade, quem seria dono de quê.

Liderar, pra mim, depois de tantos anos, deixou de significar inspirar discursos ou desenhar visões grandiosas de futuro. Passou a significar, antes de qualquer coisa, ter a coragem de dizer, olho no olho: isso aqui é seu. Essa entrega, essa decisão, esse resultado, é sua responsabilidade, e é assim que vou saber se você entregou.

Parece simples. Quase óbvio demais para escrever num texto. Mas é justamente o óbvio que a maioria das empresas nunca faz.


Existe uma palavra que eu evito, porque virou clichê de tanto ser usada sem sentido, mas o fenômeno por trás dela é real: alinhamento. Não estou falando de discurso de missão e visão emoldurado na parede da recepção. Estou falando de duas pessoas, em áreas diferentes, que conseguem descrever a mesma prioridade da empresa usando palavras parecidas, sem ensaiar.

Você já tentou isso na sua empresa? Pergunte, separadamente, para três gestores de áreas diferentes, qual é a prioridade número um do trimestre. Se as respostas forem parecidas, você tem uma empresa organizada. Se forem completamente diferentes, cada uma defendendo com convicção sua própria versão, você tem, ali, na sua frente, o desperdício mais caro que existe.

Porque cada um desses gestores vai gastar orçamento, tempo de equipe, energia emocional e capital político defendendo uma prioridade que os outros nem reconhecem como prioridade. E, no fim do trimestre, todos vão apresentar resultados individuais impecáveis, e a empresa, como um todo, vai ter avançado bem menos do que a soma dos esforços sugeriria.

Isso não sai em nenhum balanço. Mas está lá, corroendo margem, represando crescimento, cansando gente boa que começa a se perguntar por que trabalha tanto para colher tão pouco.


Eu não tenho uma fórmula mágica pra resolver isso em três passos, porque desconfio profundamente de quem promete isso. O que eu tenho, depois de tantos anos sentado dentro dessas salas, é uma pergunta que costumo devolver para quem me procura, antes de qualquer diagnóstico:

  • Sua empresa sabe, com nitidez, o que cada liderança precisa entregar, e como essa entrega será reconhecida?
  • Os problemas que voltam toda semana são tratados na raiz, ou apenas administrados com competência?
  • Quanto da energia da liderança é gasta apagando incêndio, em vez de construir estrutura?
  • As áreas da sua empresa cooperam de verdade, ou apenas coexistem educadamente?
  • Sua empresa está formando gestores capazes de sustentar o próximo tamanho do negócio, ou ainda depende dos mesmos heróis de sempre?

Nenhuma dessas perguntas tem resposta fácil. E talvez seja exatamente por isso que a maioria das empresas prefira não as fazer.


Tem ainda um quarto tipo de desperdício, talvez o mais corrosivo de todos, porque ele mina sem que ninguém perceba de onde vem o barulho: a inconsistência nas decisões.

Uma semana, determinado comportamento é tolerado. Na semana seguinte, o mesmo comportamento é motivo de bronca. Um projeto recebe prioridade máxima numa reunião de segunda-feira, e na quinta já foi esquecido, substituído por outra urgência que também vai ser esquecida em quinze dias. As pessoas aprendem, rápido, a não confiar no que ouvem, porque o que vale hoje pode não valer amanhã.

Em casa, isso também acontece, e a gente reconhece na hora. Um dia o pai deixa a criança comer doce antes do jantar porque está cansado demais para discutir. No outro dia, pela mesma cena, ele grita como se aquilo fosse um crime. A criança não aprende a regra. Aprende que a regra depende do humor de quem manda. E, cedo ou tarde, para de confiar na regra e passa a testar o humor.

Empresas fazem isso o tempo inteiro, em escala muito maior, com consequências muito mais caras. Times inteiros deixam de confiar no discurso da liderança, não porque o discurso seja mentira, mas porque ele muda de direção com uma frequência que nenhuma bússola resistiria. E, quando a confiança na palavra do líder se esvazia, cada decisão futura passa a exigir o dobro de esforço para ser aceita, porque vem carregada de um ceticismo que a própria liderança ajudou a construir.


Existe uma cena que também se repete, e que eu observo com um misto de compaixão e frustração: o gestor que evita a conversa difícil.

Ele sabe que precisa dizer para alguém da equipe que a entrega não está boa. Sabe que precisa encerrar um projeto que não vai dar certo. Sabe que precisa admitir, publicamente, que uma decisão anterior estava equivocada. E, mesmo sabendo, adia. Adia porque a conversa difícil dói, e o corpo humano é treinado, há muito tempo, para evitar dor imediata mesmo quando essa dor evitada hoje se transforma em prejuízo multiplicado amanhã.

É como não ir ao dentista por medo da dor da consulta, e deixar que uma cárie pequena vire uma raiz inflamada. O adiamento nunca elimina o problema. Só troca uma dor pequena, administrável, por uma dor maior, mais cara, e quase sempre num momento pior para lidar com ela.

Eu já vi organizações inteiras carregando, por anos, uma decisão que todo mundo sabia que precisava ser tomada, e que ninguém tinha coragem de assinar embaixo. O custo desse adiamento não aparece como uma linha no orçamento. Aparece como uma névoa espalhada sobre todos os outros números, tornando tudo um pouco mais lento, um pouco mais caro, um pouco mais difícil do que precisaria ser.


Eu costumo desafiar os dirigentes com quem converso a pensar menos em ferramenta de gestão e mais em coragem de gestão. Porque ferramenta, todo mundo tem acesso. Planilha, indicador, metodologia, curso, certificação, isso está disponível para qualquer empresa disposta a pagar por ele.

O que separa uma empresa que cresce de forma sustentável de outra que vive em ciclos de euforia e crise não costuma ser o acesso à ferramenta. É a disposição de alguém, lá em cima, de encarar uma conversa desconfortável, de admitir um erro publicamente, de dizer não para um projeto querido, de cobrar um resultado de alguém que também é seu amigo fora do expediente.

Isso não se ensina numa palestra de uma tarde. Isso se constrói, devagar, com repetição, com exemplo, com gente disposta a errar na frente de todo mundo e corrigir na frente de todo mundo também.

E talvez seja exatamente essa a diferença entre uma liderança que apenas administra o presente e uma liderança que constrói, de fato, o próximo tamanho do negócio. A primeira sobrevive ao trimestre. A segunda sustenta a década.


Fico pensando, às vezes, no motorista daquele cruzamento sem sinalização. Ele não precisa de um carro mais potente. Não precisa de mais pressa. Precisa de alguém que organize o fluxo, que diga quem passa primeiro, que transforme a pressa individual de cada um em movimento coletivo.

É estranho pensar que, muitas vezes, o que falta numa empresa não é mais gente trabalhando duro. É menos gente trabalhando sozinha, na direção errada, com muita convicção.

Talvez o mais difícil não seja identificar onde está o desperdício. A maioria dos gestores, no fundo, já sabe. Sabe qual conversa está sendo adiada. Sabe qual telhado precisa ser consertado. Sabe qual prioridade nunca foi realmente combinada entre as áreas. O difícil é admitir isso em voz alta, numa sala cheia, sem procurar um culpado fora de si mesmo.

E talvez esse seja o verdadeiro tamanho do prejuízo que nenhuma planilha consegue mostrar.


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