
LIVRE E INFELIZ
16 de março de 2019
O declínio no número de famílias com pais unidos, por exemplo, quase sempre diminui a satisfação na vida das mulheres que criam seus filhos sozinhas. Mas isso não pode ser a única explicação, pois a tendência de uma maior insatisfação entre as mulheres cruza linhas de classe social e raça. Uma mulher hispânica que trabalha tem muito mais probabilidade de ser mãe solteira do que uma mulher branca e rica, ainda assim a lacuna entre a felicidade dos homens e mulheres do East Hampton e do East L.A. (área povoada por maioria hispânica)



As mulheres americanas são mais saudáveis, mais ricas e mais bem educadas do que há 30 anos. São mais suscetíveis a trabalhar fora de casa, e a ganhar salários iguais aos homens quando o fazem. Podem deixar casamentos abusivos e processar empregadores sexistas. Elas aproveitam o controle sem precedentes de sua própria fertilidade. Em algumas áreas, taxas de graduação, expectativa de vida e mesmo segurança no trabalho , homens parecem cada vez mais com o segundo sexo.
Mas todos os feitos das feministas podem ter entregado as mulheres a uma grande infelicidade. Nos anos 60, quando Betty Friedan diagnosticou suas companheiras esposas e filhas como vítimas do problema sem nome, mulheres americanas se declararam mais feliz que os homens, no geral. Hoje, essa diferença entre os sexos se reverteu. A felicidade dos homens aumentou um pouco e a da mulher decaiu. Nos EUA pós-feminismo, os homens são mais felizes que as mulheres.
Esse é The Paradoxo of Declining Female Happiness (O paradoxo do declínio da felicidade feminina, em tradução livre), assunto de um provocativo ensaio dos economistas Betsey Stevenson e Justin Wolfers. Ele é fascinante não só por causa do que mostra, mas porque os autores deliberadamente evitaram tratar de explicações fáceis para seus dados.
O declínio no número de famílias com pais unidos, por exemplo, quase sempre diminui a satisfação na vida das mulheres que criam seus filhos sozinhas. Mas isso não pode ser a única explicação, pois a tendência de uma maior insatisfação entre as mulheres cruza linhas de classe social e raça. Uma mulher hispânica que trabalha tem muito mais probabilidade de ser mãe solteira do que uma mulher branca e rica, ainda assim a lacuna entre a felicidade dos homens e mulheres do East Hampton e do East L.A. (área povoada por maioria hispânica)
São parecidas.
Então, de novo, os números da felicidade estão se inclinando para baixo em relação a muitas mulheres sobrecarregadas de trabalho ¿ o famoso segundo turno, no qual as mulheres continuam a fazer maior parte dos trabalhos domésticos mesmo que elas recebam mais e mais responsabilidades no trabalho. Certamente é possível ¿ mas como Wolfers e Stevenson apontam, na verdade, pesquisas recentes mostram padrões similares de carga de trabalho para homens e mulheres no geral.
Ou talvez o problema seja político ¿ talvez as mulheres prefiram a igualdade de direitos, sociedades de baixo risco, e a era de capitalismo caubói de Reagan teve um efeito indutor de ansiedade nas mulheres americanas. Mas mesmo na ingênua, educada e igualitária sociedade da União Europeia, a felicidade feminina tem diminuído em relação à dos homens durante as últimas três décadas.
Toda essa ambiguidade dá a si mesmo amplas leituras. Uma feminista fervorosa e uma tradicionalista de papel limitada em seu gênero podem, igual e provavelmente, encontrar alguma prova de suas premissas nas linhas da cuidadosa prosa de Wolfers e Stevenson.
A feminista verá evidências de uma revolução interrompida, na qual o crescimento das expectativas está batendo com força em tetos de vidro, gerando ressentimentos justificados. A tradicionalista verá evidências de que toda a revolução foi de maneira distorcida, na qual as mulheres foram empurradas para vidas que correm contra suas necessidades biológicas, e os homens foram liberados para se envolver com a irresponsabilidade imunda.
Há evidências que se encaixam em cada uma dessas narrativas. Mas há também espaço para ambas.
Os feministas e tradicionalistas deveriam estar dispostos a concordar, por exemplo, que as estruturas da sociedade americana não oferecem concessões o suficiente para desafios particulares da maternidade. Podemos brigar para sempre sobre as escolhas que as mães têm de fazer, mas a dificuldade com o trabalho de malabarista dos pais continua existindo (é só perguntar a Sarah e Todd Palin). E há todos os tipos de formas ¿ desde um Código Fiscal mais amigável às famílias até um sistema educacional mais favorável ¿ por meio das quais as políticas públicas podem tornar esse malabarismo mais fácil.
Os conservadores e os liberais não concordarão com os meios, mas eles devem concordar com o fim: uma nação onde seja mais fácil equilibrar o trabalho e a educação dos filhos, apesar de achar que o equilíbrio deveria ser dispensado.
Eles também deveriam estar dispostos em concordar que o avanço estável da existência de mães solteiras ameaça os interesses e felicidade das mulheres. Aqui as opções de políticas públicas são limitadas, algum tipo de estigma social é uma necessidade. Mas um novo modelo não deveria (e não poderia) parecer como velho sexismo. Não há uma razão certa pela qual as feministas e os conservadores culturais não possam unir forças ¿ da mesma forma que tiveram uma causa comum durante as guerras pornográficas dos anos 80 ¿ atrás de uma revolução social que afasta pais de bebês em série e colecionadores de esposas como troféus tão a fundo quanto a mulher abandonada da era patriarcal.
Nenhuma razão a não ser o fato de que os EUA contemporâneo não parecem estar disposto a aceitar o estigma sexual. Simplesmente não temos estômago para banir permanentemente a irresponsabilidade sexual ¿ seja uma gravidez de iniciante, um magnata divorciado três vezes, ou mesmo um político que contrata prostitutas.
Neste sentido, o nosso é um país melhor, mais gentil e mais complacente do que era há 40 anos. Mas para metade do público, também é um país infeliz.
Por ROSS DOUTHAT
Leia mais sobre Link deste artigo: https://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/nyt/comentario-livre-e-infeliz/n1237629502575.html
Fonte: Último Segundo – iG @ https://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/nyt/comentario-livre-e-infeliz/n1237629502575.html
Se isso fez sentido para você, existe um próximo passo possível
Algumas reflexões não terminam no conteúdo — elas continuam em forma de diálogo, aprofundamento ou sustentação de um trabalho contínuo.
O que vem daqui não é mais sobre inscrição. É sobre percepção.
Sustentar este trabalho também é uma forma de continuidade
Apoiar este trabalho
anterior
MUDAR É PRECISO, NÃO MUDAR É SOFRER
mais recente
MEDO
Você pode gostar

CINCO RAZÕES PELAS QUAIS BOAS OFERTAS SÃO REJEITADAS
19 de fevereiro de 2019
FICA MAIS DIFÍCIL SENTIR EMPATIA PELAS PESSOAS SE VOCÊ JÁ PASSOU PELA MESMA SITUAÇÃO
28 de março de 2019
2 Comentários
ainda te amo
Great blog here! great article. 52750288
Marcello De Souza
I invite you to read my book: The map is not the territory, the territory is you
Link Amazon: https://www.amazon.com/MAP-NOT-TERRITORY-YOU-ebook/dp/B08QVJ452P/ref=sr_1_4?crid=3U8E4KX9B6E45&keywords=the+map+is+not&qid=1704581711&s=books&sprefix=ther+map+is+not%2Cstripbooks-intl-ship%2C231&sr=1-4