UM SENTINDO A MAIS PARA ESTAR PRESENTE
Somos seres relacionais e estamos em constante afeto. São as relações que determinam as características do nosso mundo. De forma única são elas que traçam os caminhos, expressando o resultado através dos nossos comportamentos. Toda a nossa consciência é também uma criação. Através de nossas relações é que criamos nossos pensamentos. O pensamento é construtor e construtivo do conhecimento. Nossos pensamentos constroem nossa consciência e a urgência do pensamento e que vai nos desestabilizar. Desconfie se a sua consciência não te incomoda, desconfie que as respostas já estejam dadas, porque isto é justamente o encontro com a origem das questões e é isto que torna um pensamento original. Pensar não é ter ideia de quem nunca teve, mas é poder identificar quais são as causas e quais são os modos que podemos interagir, transformar e efetivamente dar sentido a minha própria vida.
Conhecer é muito pouco. Conhecer é domínio técnico. Todos nós podemos ir acumulando, acumulado e acumulando conhecimento, mas o pensamento é algo exclusivo, nobre, porque ele vai lidar com significados, lidar com sentidos que estamos atribuindo para cada uma das nossas escolhas. O pensamento não se interessa pelas verdades das coisas, mas sim por aquilo que ele significa para nós, o pensamento é uma forma de dar significado ao mundo. Na ciência da nossa existência é que torna possível perceber que a vida é formada por instantes interruptamente virginais. Vivemos um processo de sucessivas oportunidades de transformação. Não somos o que fomos ontem, o que somos hoje e a única certeza é que seremos diferentes amanhã.
Se cada homem é, de alguma maneira, responsável pelo estado onde vive, ele próprio também será, de alguma maneira, responsável pela maneira como as coisas surgem”. (Aristóteles)
Quanto mais conscientes de nós mesmos, mais realista somos e, portanto, maior é a discernimento para lidar com as transformações. Isto porque o futuro não é um lugar para onde estamos indo, mas o lugar que estamos criando a cada segundo de vida através das nossas relações legitimadas. Propósitos. O caminho para ele não é encontrado, mas construído a partir das escolhas e o ato de tê-lo é o que nos determinam como SER e escreve linha a linha, parte de nosso destino. Entretanto, tudo se transforma, a sociedade, as condutas, os códigos, as crenças, as relações, as nossas próprias verdades, nossos próprios pensamentos e a percepção da própria existência de sermos quem somos. São tantas transformações que as vezes não conseguimos lidar com todas elas. Por isto, de vez enquanto, as coisas se escapam, e o escapar não quer dizer que estamos deixando a vida sair pelas nossas mãos, mas sim que temos que estar sempre preparados, cometendo o exercício de escolhas para seguir.
A angustia, sentimento que acompanha nossas escolhas, é um paradoxo entre a prisão e a liberdade de escolher. Se a angustia nos acompanha, então é preciso saber dar valor para melhor escolher e assim diminuir a ânsia do viver. Valor para as próprias decisões. Para dar valor é preciso reconhecer e viver é condição para conhecer. Sem conhecimento não há valor. Sem valor não há sentido. É preciso dar valor a vida para não cair nas quimeras de ter que tomar decisões apenas por tomar, deixar de lado a oportunidade das próprias escolhas porque a maioria das pessoas tomaram aquela ou outra decisão. É a ação que revela a verdade a respeito das intenções mais profundas quando os verdadeiros valores são expressos.
Quando aprendemos a dar valor a vida é quando exercemos a condição de estar presente. Passamos a compreender que nossas escolhas foram as únicas que poderiam ser e que nossas crenças e convicções não são as respostas mais certas, são apenas as nossas respostas. Que as verdades são apenas possibilidades e que somos construídos a todos os instantes através de uma singular trajetória da própria vida. Quando entendemos o que é valor, aceitamos que na vida nada é estático, tudo se transforma e as mudanças são inevitáveis para sobreviver. Cada um de nós destina-se a ter um caráter próprio, a ser exatamente o que ninguém mais pode ser e fazer o que ninguém mais pode fazer. Mas, existe uma tendência do homem em quase sempre trilhar pelo um mesmo caminho. Mesmo assim, os desafios são grandes, as mudanças inevitáveis e a chance de sermos surpreendidos pelo acaso nos acompanhará até o fim.
Não há uma proposta de vida pronta, escrita e definida, nada é fixo ou já está decifrado. O fato da parcialidade a uma constância é o que leva a ser tendenciosos aos caminhos tênues e não os perduráveis. Isto porque talvez seguir por caminhos já construídos é mais simples do que construir o próprio caminho. Tudo que é mais simples, vicia. Em nossa trajetória a mais vícios do que virtudes e continuamos a procurar os caminhos mais fáceis para viver. O problema que na hora de encontrar nossa identidade, como saber quem engana quem. Somos quem somos pelo simples ato de viver ou somos aquilo que construímos através do esforço do viver. Se estamos elaborando um caminho para nós mesmos não pode haver como premissa a indiferença. Aquilo que realizamos na plenitude da nossa vida passada, na abundância das experiências, essa riqueza interior nada e nem ninguém nos podem tirar e são elas a razão de chegarmos aqui. É preciso vivenciar para viver. Por isto, talvez seja porque a aparência não representa a legitimidade de ser quem gostaríamos de ser, e esta disputa pela gloria perde todo o sentido quando se percebe que de nada vale parecer quando não é, pois em algum momento, o desejo de reconhecimento deixa de ter sentido, em algum momento somos desmascarados não pelos outros, mas por nós mesmos.
Por que tantos então, suspiram pela ilusão?
O fato de se fantasiar, de se enganar, ou melhor, enganar-se a si mesmo, não é um simples exercício de mentir para si mesmo, não representa uma mera ação deliberada de equívocos e culpas, mas sim, que cada um de nós tem por natureza utilizar-se do engano como ferramenta de sobrevivência. Enganamos e somos enganados. Em outras palavras, estamos envolvidos em um mundo de crenças, de valores, de expectativas, de desejos, sonhos, e é em torno destes sonhos, desejos, expectativas é que nós realizamos nossos movimentos e outros tantos deixamos para trás. Existe uma sistemática que forma as relações humanas no qual lidamos cotidianamente com as expectativas de uma parte a outra. E se as vezes, não retiramos o idealismo fantasioso e encaramos a vida de uma forma crua e direta, acabamos quase sempre prejudicando nossas relações, considerando-a como um engano porque as expectativas das quais nos iludimos, não foram cumpridas. Nem de uma parte e nem da outra!
Maquiavel diz que: “É preciso subir aos montes para poder reconhecer as planícies. ” Está referência é justamente a importância do esforço que devemos ter na vida. Para isto é necessário haver presença com a própria vida. Estar presente também é um valor. É a capacidade de estar consciente no agora e que se torna determinante para as relações as quais mantemos com o mundo. A falta de presença nos contemplam de crenças limitantes, da temporalidade, da ilusão de ser o que não somos. A partir deste momento, perdemos a liberdade, porque somos nós, somos as nossas decisões.
Qual o mistério de “ser livre” que todos falam, mas quase ninguém busca?
Ser livre é não ser escravo da ignorância, não ser refém da ação e deliberação da imposição dos meios no qual fazemos parte. Por isto que, o discernimento necessário da liberdade faz com que o homem reconheça sua soberania em ser livre. É preciso reconhecer as próprias inclinações para agir melhor e ser livres para escolher. Introspecção. Reconhecer seus limites, suas fragilidades e imperfeições, não é um exercício fácil, mas é necessário para que seja possível tomar as rédeas da vida não esperando que o acaso intervenha em nossas relações. Não se justificando por crenças, milagres, questões eternas, astros, razões metafisicas, que possam de alguma forma, governar e definir as possibilidades que na vida perdura em nosso caminho. É preciso ter consciência em ser responsável pelas predileções para deliberadamente não conviver com equívocos e agir como se não soubesse porquê agiu assim.
“Não importa o que a vida fez de você, mas o que você faz com o que a vida fez de você”. (Sartre)
Há muita coisa que não sabemos, outras que não percebemos, e tantas outras que nem tomamos consciência, é verdade. Entretanto, existem outras tantas que sabemos, sentimos, suportamos, experimentamos e que nos trouxe até aqui, e estas, inegavelmente somos responsáveis. Por isto, a importância da introspeção. Nela encontramos quem somos ou pelo menos uma parte importante de nós mesmo. A sensação incomensurável do encontro do desconhecido e o despertar de uma nova condição identitária. Da transparência de Ser.
Num sistema óptico, transparência é a propriedade de ser transparente, isto é, que permite passar luz. Aqui, a transparência representa clareza para buscar a melhor escolha, e nos expressar adiante a concordância com nós mesmos e não manifestar defronte da adesão do que os outros desejam. A falta de clareza não favorece o pensar e nos limita da liberdade!
A propriedade oposta da transparência é a opacidade. A falta de transparência não favorece o pensar! Ser opaco é o mesmo que seguir as crenças que nos perpetuam. Opacidade é quando retiram de nós a autonomia do pensamento, filtrando certas informações. Na falta de transparência, incorporamos outras informações como sendo nossas, mesmas que não produzidas por nós. Perdura um descaminho entre os ideais de virtude e que valeria a uma prática, a uma busca do bem comum e uma simples condição de interesses para sobreviver.
Somos seres contínuos. SER continuamente, significa que mudamos várias vezes. Somente percebemos a mudanças quando presentes. O que nos leva a admitir mais uma vez que a nossa ausência como SER presente muitas vezes nos conduz ao hábito serviçal de não viver as próprias escolhas para seguir com os desejos de outros. Um caminho que sempre traz por si uma falsa sensação de segurança, gera quimeras de conforto e devaneios de autoconfiança e bem-estar. Claro, mesmo que por um momento, se está sendo absorvido da facilidade de viver. Da sua responsabilidade porque apenas está seguindo uma maioria ou alguém que admira. O que não quer dizer que isto te abstém do juízo porque todo mundo faz deste jeito.
O que entendemos por responsabilidade? Temos consciência das consequências de nossas ações ou mesmo de nossas omissões? Da nossa interferência na vida dos outros?
Não podemos nos amparar de que existe uma culpa coletiva ou uma absolvição absoluta, quando muitos ou quase todos erraram. Nos tornamos capazes, em virtude de nossa própria obra, construir ou destruir é sempre uma questão individual de escolha. A vaidade que nos corroem, propõe o excesso de querer sem poder e tudo se torna urgente sem querer ampliar os horizontes da responsabilidade daquilo que propomos a nós mesmos. Na verdade, a simples ignorância de uma situação ou uma recusa diante a ação como pensamento não nos torna ausente de responsabilidade, somos continuamente SER e como ser somos responsáveis por nossas ações e a submissão é um fardo cada vez mais pesado e que a ignorância nos faz eternamente carregar.
A consciência é criação então a liberdade só existe na condição do pensar. Se em certos momentos da vida, estivermos lúcidos com nossa presença, você então é capaz de observar a sua volta é ver quais são suas escolhas e daí perceber o valor da vida. O que somos nós e o quanto somos o outro, mas não somente isto. Em outras palavras, muito do que somos nos desagrada, e mesmo assim, não damos a chance a nós mesmo de transformar uma vida sem graça, morna, desiludida, opaca em algo melhor. Está na condição de presença a resiliência. Resiliência não como atributo imperativo e sim com a capacidade de pensar como um ser plural dando valor a própria vida.
Façamos então deste instante, uma oportunidade. Retiraremos as máscaras e o idealismo fantasioso e vamos encarar a vida de uma forma crua e direta. Que seja por uma única vez, um único instante. Como forma de desafio e refletir. Quem sabe isto nos levam a algo realmente melhor, um momento de lucidez. A vida não é um conto de fada, a realidade é, muitas vezes, divergente das nossas perspectivas e o realismo introspectivo só existira para aqueles que não vive sob a condição de que existe um mundo ideal. A fantasia também é uma prisão. É a razão de muitas de nossas ilusões e muito mais das nossas desilusões. Quando iludido, transtornamos de nossas responsabilidades. Quando desiludidos passamos a buscar culpados, cegos das condições criadas que nos trouxe até aqui.
E o que nos trouxe até aqui?
Se chegamos aqui, é porque de alguma forma permitimos, algum ganho houve por aceitar que fosse assim, mesmo que retoricamente se faz de desavisados, escondendo-se hipocritamente das próprias responsabilidades, como um atestado, certificando as razões da vida com a própria cegueira ilusória de querer não ser quem realmente é.
Não importa no que quer acreditar, mas estas escolhas de reconhecer quem realmente é e suas responsabilidades na vida é a condição onipresente da qualidade das suas relações com a vida. E é a qualidade das relações que irá desenhar em o valor real da vida. As relações é que dão sentido para buscar sempre as virtudes que nos tornam melhor. O sentido da vida está nas relações, somos seres sociais. São as relações, os afetos, que compõe a construção de nosso caminho. Sem eles, não há sentido algum de existirmos da mesma forma que não sobreviveríamos muito mais que um simples pesar. Depreendemos de um significado muito maior da felicidade do que de momentos que nos entristeceu, que gerou dor ou sofrimento. Ninguém é feliz sempre, mas todos nós podemos reconhecer os instantes de felicidade. A felicidade é atemporal ao mesmo tempo que só existe por um instante. Não é eterna no tempo, mas se eterniza em nossos pensamentos, em nossa história e em nossas relações. A qualidade de uma vida bem-sucedida está justamente alusiva nestes momentos.
Quanto aos paradoxos das pessoas felizes, bem, eles são concretizados nas obras do sofrimento como representativo valor autêntico do significado do viver. Os valores reais de uma vida bem vivida. Saber tirar ensinamentos valiosos da dor e sofrimento, dos momentos de infelicidade e angustia, são os princípios básicos de uma vida feliz. É daí que aprendemos a construir um caminho próprio e a fazer a diferença. O mundo está cheio de pessoas iguais, o que falta são as diferenças e se não é capaz de entender o significado da infelicidade, você não é capaz de compreender a vida e muito menos o que é ser feliz.
O significado das diferenças está na maneira pela qual as pessoas resilientes constroem pontes entre dificuldades do presente e um futuro mais completo e mais bem construído. Essas pontes fazem com que o presente seja administrável, transformando os esforços em sensação de alegria, e assim nada mais é impossível de lidar. Saiba que nós podemos porque somos plurais na essência e singulares em um universo e temos que dar o testemunho e o respeito da singularidade do outro para que o sentido da vida continue sendo a liberdade das próprias escolhas.
É verdade que acabamos por se dominados pelos ensinamentos imperativos, e a essência não é mais a vida, mas a técnicas para viver. A essa visão contrapomos a outra: “A técnica não é dominação da natureza: é dominação da relação entre o que somos e o que queremos ser.” Se nossos pensamentos formam a nossa consciência, que seja na experiência de viver a prática do testemunho, nascidas desse acúmulo de desejos e transformações, e que podem incidir sobre novos modelos de se pensar as relações com o mundo.
Mais do que nunca, está na hora de encarar a experiência do sofrimento daqueles esmagados pela engrenagem de nossos modelos de progresso e de técnica e a escuta do lamento da relação que poderão servir de armas contra nossa própria percepção do mundo. Mais do que um discurso de sustentabilidade, precisamos de afetos mais autêntico, verdadeiro, crítico e revolucionário. São as experiências que nos trouxe aqui e que nos levam a buscar construir uma ética da responsabilidade e do cuidado, é quando surge a necessidade de discutir e pensar o papel do testemunho de viver a liberdade da própria vida é preciso estar presente para compreender nossas relações.
Nossos pensamentos constroem nossa consciência e com ela o conhecimento. Pensar é a razão para nossa existência. É o que dá sentido à vida. É a liberdade. Isto significa que nós, neste espaço, temos o direito de acreditar então na expectativa de milagres, não porque acreditemos religiosamente em milagres, mas porque os homens enquanto puderem agir como singulares, estão aptos a realizar o improvável e o imprevisível, e realizam-no, continuamente quer saibam disto, quer não e, esta talvez seja então nossa razão do verdadeiro milagre, que é pensar para viver!
Se o tempo atual não fosse bom ele não se chamaria presente. Ele é o único presente que temos.” (Daniel Munduruku)
Bibliografia e Fonte de Inspiração:
ARENDT, H. (2006). O que é política? Rio de Janeiro: Bertrand.
ARENDT, H. (2009). A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária.
NETO, J. A. F. Hannah Arendt- A capacidade de julgar. Café filosófico: CPFL. Acessado em:<https://www.youtube.com/watch?v=ShKlsQ2Yn08>
2 Comentários
Lucius Orsak
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Marcello de Souza, Ph.D.