ARTIGOS (DE MINHA AUTORIA),  COACHING COMPORTAMENTAL,  COMUNICAÇÃO E COMPORTAMENTO,  DESENVOLVIMENTO HUMANO,  GESTÃO,  LIDERANÇA,  NEUROCIÊNCIA,  PENSAMENTO SISTÊMICO,  PSICOLOGIA,  PSICOLOGIA SOCIAL,  RELACIONAMENTO

QUEM DEU A ESSE PROBLEMA O TAMANHO QUE ELE TEM AGORA?

Tem alguma coisa ocupando você agora.

Não precisa ser grande. Pode ser a mensagem que ficou sem resposta desde ontem, aquela em que você leu duas palavras do outro lado e passou a noite traduzindo o tom. Pode ser a reunião de quinta, o número que não fechou, o exame marcado, a frase atravessada que alguém soltou no almoço de domingo e que, de lá para cá, já tocou mais vezes na sua cabeça do que qualquer música de que você goste. Seja o que for, está aí. Estava aí antes de você abrir este texto e vai continuar quando você fechar. Sentada num canto, sem pressa, com a paciência de quem sabe que vai ser chamada de novo.

Responda com honestidade: de que tamanho ela é?

Não o tamanho que deveria ter, nem o que você diria a um amigo para parecer equilibrado. O tamanho que ela tem por dentro, neste exato minuto. E depois, uma segunda pergunta, mais incômoda: quem mediu?

*

Eu demorei muito para perceber que nunca tinha feito essa segunda pergunta. A vida inteira tratei o tamanho das coisas como um dado. O problema era grande porque era grande, ora. A conversa difícil pesava porque pesava. Existia uma espécie de balança neutra em algum lugar do mundo, e eu apenas lia o ponteiro.

Só que o ponteiro muda. E muda sem que nada no mundo tenha mudado.

Às três da manhã, aquela pendência do trabalho é a vida inteira. Carreira, reputação, o aluguel, o futuro dos filhos, a imagem construída em quinze anos — tudo pendurado num e-mail mal escrito. Você vira para o lado, o teto escuro devolve a mesma cena, e o corpo inteiro concorda: isso é gravíssimo. Às nove, com o café na mão e alguém perguntando onde foi parar o carregador, o mesmo assunto voltou a ser o que era. Um e-mail. Chato, resolvível, um entre vinte.

Entre as três e as nove, nenhum fato se moveu. O e-mail continuou com as mesmas palavras. O chefe não acordou mais ou menos irritado por causa da sua insônia. O que mudou foi outra coisa, e é nela que eu fico.

Mudou para onde você estava olhando. E por quanto tempo.

*

Desconfio que a gente aprendeu a pensar a atenção como uma lanterna. Você aponta, ilumina, vê melhor. A lanterna não altera o objeto, só o revela. É uma imagem confortável, porque nos deixa inocentes: eu só estava olhando.

Acontece que olhar não é inocente. Quanto mais observo isso em mim, nas pessoas que acompanho, nas empresas onde entro, mais me parece que a atenção funciona menos como lanterna e mais como uma mão pousada sobre o prato da balança. Aquilo que recebe o seu olhar pode ganhar um peso que não teria se estivesse perdido entre tantas outras coisas. Às vezes, olhar melhor até diminui o problema; em outras, revela uma gravidade que vínhamos evitando reconhecer. O que me interessa é perceber que o olhar participa da medida. Não porque você seja dramático, fraco ou descontrolado. É mais banal e mais estrutural do que isso: o que ocupa o primeiro plano tende a ser lido como importante, e o primeiro plano é, por definição, o lugar para onde você está olhando. A importância não mora só na coisa. Mora também no gesto de olhar para ela.

Você nunca pesou nada sem a própria mão em cima.

Quando isso assentou em mim, veio uma vertigem parecida com a de descobrir que o espelho do provador da loja é levemente inclinado. Quantas decisões tomei com a mão no prato? Quantas brigas comprei, quantos empregos larguei ou aceitei, quantas noites passei acordado medindo coisas numa balança que eu mesmo estava empurrando?

*

Repare como isso acontece numa discussão de casal. Começa com a louça. Alguém deixou a pia cheia de novo. Em cinco minutos, a louça deixou de ser louça. Virou símbolo de descaso, prova de que o outro nunca se importa, resumo de dez anos de desequilíbrio. Naquele instante, para quem está brigando, aquela pia é o casamento inteiro. Não uma parte dele. O todo.

As duas pessoas podem estar certas e erradas ao mesmo tempo. Certas porque, sob aquele foco, a louça realmente carrega tudo — e talvez carregue mesmo anos de responsabilidades mal divididas, promessas esquecidas, pequenas ausências que foram se acumulando. Erradas quando deixam que aquela cena represente sozinha uma história que também foi feita do café que um levou para o outro sem ninguém pedir, da risada no carro, da mão que procurou a outra no sofá durante um filme ruim. Nada disso estava sob a lente na hora da briga. E o que não está sob a lente corre o risco de não entrar na conta.

O que mais me intriga não é o quanto o foco aumenta as coisas. É o quanto ele apaga o resto.

*

A gente costuma falar desse engano pelo lado do exagero: o problema que incha de madrugada, a ansiedade que agiganta uma bobagem. Esse lado existe e é real. A balança, porém, tem dois pratos. Se aquilo que eu olho ganha peso, aquilo que eu não olho perde. E o que eu não olho, na maior parte do tempo, é justamente o que está sempre ali.

O que é constante some.

A saúde, enquanto funciona, não ocupa um único pensamento seu. O joelho que sobe a escada sem reclamar, o pulmão que não precisa ser lembrado. A pessoa que dorme ao seu lado há anos, cuja presença virou parte da mobília da casa. O colega que nunca dá trabalho e, por isso mesmo, nunca entra na pauta da reunião. A cidade que você atravessa todos os dias sem enxergar, até um amigo de fora aparecer e dizer que nunca viu um fim de tarde como aquele.

Quem mora no lugar bonito não passa o dia pensando que mora num lugar bonito. Passa o dia pensando no boleto, no trânsito, no filho que não quer tomar banho. A beleza desceu para o fundo, e o fundo não pesa. Quem olha de fora, sonhando com a vida ali, coloca a vista para o mar no centro da cena e calcula uma felicidade que o morador nunca sente — porque o morador não vive olhando para o mar. Vive olhando para a vida.

Nós nos enganamos duas vezes, então. Superestimamos o que está sob o olhar e subestimamos tudo aquilo que é tão presente que deixou de ser visto. E tenho a impressão de que boa parte dos arrependimentos humanos mora nessa segunda falha, muito mais do que na primeira. Ninguém se separa simplesmente por causa da louça. Há histórias inteiras escondidas naquela pia, algumas feitas de descaso verdadeiro, outras de cuidados que deixaram de ser percebidos. E há relações que vão se perdendo porque, durante anos, aquilo que as sustentava nunca ficou em primeiro plano tempo suficiente para ganhar peso. Quando finalmente olhamos, em geral é porque já foi embora.

*

Existe outra armadilha, mais silenciosa, e ela acontece com o desejo.

Você quer muito alguma coisa. A promoção, a casa, o carro, a viagem, o diploma, a relação que vai finalmente encaixar tudo. Enquanto deseja, a coisa desejada está sob um foco intenso, diário, quase obsessivo. Você ensaia o primeiro dia na sala nova, a chave girando na porta do apartamento, a foto no aeroporto. E nesse ensaio, a conquista é enorme, porque é a única coisa iluminada no palco.

Aí ela chega.

Nas primeiras semanas, sim, ainda brilha. Logo depois, sem pedir licença, desce para o fundo. A sala nova vira a sala. O carro vira o carro. A pessoa amada, que antes era um acontecimento, passa a ser alguém que esqueceu de comprar pão. Não porque a conquista fosse falsa ou porque você seja ingrato. A vida voltou a ser vivida, e quem vive não fica olhando para o que já tem. A conquista não encolheu. Saiu do foco.

Vejo executivos brilhantes passarem décadas nessa gangorra. Cada meta, enquanto meta, parece ser a que vai justificar tudo. Batida, evapora em quarenta dias e é trocada por outra, também definitiva, também capaz de justificar tudo. Não é ambição demais nem gratidão de menos. É o mesmo mecanismo da madrugada, com a lâmpada apontada para o futuro em vez de apontada para o medo.

*

O que ninguém costuma dizer é que existem ambientes inteiros desenhados para manter a sua mão em cima da balança.

Entro numa empresa e, em poucas horas, consigo saber o que importa ali. Não pelo que está escrito na parede da recepção, em letras prateadas. Pelo que está no painel. O indicador que abre toda reunião, que é atualizado de hora em hora, que aparece no celular do diretor antes do bom-dia. Aquilo é o centro da cena, todos os dias, para todos. E aquilo vai pesar mais do que qualquer outra coisa naquele lugar — inclusive mais do que as pessoas que produzem o número.

Não há maldade nisso. É a madrugada institucionalizada. O que é medido é olhado, o que é olhado pesa, o que pesa decide. E o que nunca entra no painel — o desgaste lento de uma equipe, a confiança que vai se esfarelando entre duas áreas, o talento que está com um pé fora e ainda sorri nas reuniões — não pesa nada até o dia em que pesa tudo de uma vez, numa carta de demissão que todos juram que ninguém viu chegar.

Viu, sim. Só não olhou por tempo suficiente para aquilo ganhar massa.

Organizações vivem em três da manhã permanente sobre algumas coisas e em nove da manhã eterna sobre outras. Uma liderança madura, me parece, não é a que enxerga tudo — isso ninguém consegue —, e sim a que sabe para onde a própria luz está apontada e desconfia dela de vez em quando.

*

Aí a gente sai do escritório, abre o celular e entra numa máquina ainda mais sofisticada.

Cada dia tem o seu assunto mais importante do mundo. Uma frase de alguém famoso, um vídeo de doze segundos, uma polêmica que divide o país antes do almoço. Durante aquelas horas, aquilo parece decisivo. As pessoas brigam, cortam relações, escrevem textões, se sentem moralmente convocadas. Na semana seguinte, pergunte qual era o assunto mais importante do mundo na terça-feira passada. Quase ninguém lembra.

Não acho que seja acidente. Vivemos num tempo em que a atenção virou a matéria-prima mais disputada que existe, e quem disputa conhece muito bem o valor de manter alguma coisa diante dos nossos olhos. A repetição faz o assunto parecer familiar, a indignação o mantém circulando, e a presença constante pode lhe dar uma importância que talvez não tivesse fora daquela disputa. Nem sempre é preciso convencer você de que algo importa. Às vezes, basta fazer você olhar tantas vezes que já não consegue ignorar. A importância vem de brinde.

Isso me deixa menos indignado e mais atento. A pergunta “isso é importante?” continua necessária, mas já não me basta. Quero saber também quem está segurando a lente agora. Fui eu que escolhi olhar para isso, ou alguém escolheu por mim?

*

E se tudo isso virar uma desculpa elegante?

Porque existe um risco, e eu sinto o cheiro dele toda vez que alguém me diz, com um sorriso tranquilo, que nada é tão grave assim. Relativizar tudo também é uma forma de fugir. Há quem descubra que o foco engana e, a partir daí, se recuse a deixar qualquer coisa ganhar peso. Não se compromete, não sofre, não aposta, porque tudo vai passar. Parece serenidade. Muitas vezes é só anestesia com boa postura.

Algumas coisas merecem a mão inteira sobre a balança. O filho que está diferente há semanas e a quem você ainda não teve coragem de perguntar o que houve. O sintoma no corpo que você vem empurrando. A injustiça que acontece na sua frente, no seu time, e que só continua porque todos decidiram que não é tão importante assim. Uma vida em que nada pesa não é uma vida leve. É uma vida que não encosta em nada.

E existem dores que não diminuem com a troca de ângulo. O luto não é um erro de enquadramento. A tristeza que se instala e não vai embora não se resolve com uma pergunta esperta às nove da manhã. Quando uma preocupação não cede, quando continua do mesmo tamanho dia após dia, ocupando o sono, o apetite, a vontade de levantar, o caso já não é de perspectiva — é de cuidado, e cuidado de gente preparada para isso. Saber que o olhar aumenta as coisas não dá a ninguém o direito de chamar de exagero o sofrimento alheio. Nem o próprio.

Por isso eu não proponho tirar a mão da balança. Ninguém consegue. Proponho algo mais modesto e, justamente por isso, mais difícil: lembrar que ela está lá.

*

Tenho tentado um exercício que não tem nada de sofisticado. Quando algo começa a ocupar a casa inteira, pergunto a mim mesmo quanto daquilo vai sobrar daqui a um mês. Não para diminuir o assunto à força, e sim para devolvê-lo ao tempo. A madrugada não tem calendário; tem só aquele instante, esticado até parecer eterno. Perguntar pelo mês seguinte é como abrir a janela de um quarto abafado. O problema continua ali, só que agora divide o ar com outras coisas.

Às vezes a resposta é “quase nada”, e eu rio sozinho da energia que gastei. Às vezes é “muito”, e o peso se confirma — com uma diferença enorme: deixou de ser peso de madrugada e virou peso de verdade. E peso de verdade a gente carrega com outro tipo de força.

O que mais me custou foi perceber tudo aquilo que deixava no escuro enquanto mantinha a luz concentrada num único ponto. Quem esperou de mim uma resposta que não veio. Que coisa boa aconteceu e não ganhou nem um segundo do meu olhar, porque eu estava ocupado medindo o que deu errado. Esse olhar não alivia o problema. Ele devolve o mundo em volta dele.

E, de vez em quando, me pego fazendo quase uma travessura: olhar de propósito para o que está no fundo. Ficar trinta segundos a mais no rosto de alguém que vejo todo dia. Reparar no caminho que faço de olhos fechados. Sentir a respiração que funciona sem pedir nada. Nada de gratidão de cartão-postal. É usar a mesma mão que pesa os problemas para dar peso, por alguns instantes, ao que sustenta a vida sem fazer barulho.

*

Fico com uma suspeita.

Passamos a vida acreditando que precisamos enxergar melhor o que importa. Que o problema é de visão: falta clareza, falta prioridade, falta foco. Talvez o problema nunca tenha sido enxergar. O olho humano é extraordinário em ampliar aquilo que encara. O que nos escapa é que o próprio ato de encarar faz parte do que é encarado. Que eu nunca vejo o tamanho das coisas — vejo o tamanho delas somado ao tamanho do meu olhar.

Isso não diminui nada. Devolve, ao contrário, uma liberdade estranha. Se o peso das coisas também depende de onde ponho a minha atenção, parte daquilo que chamo de destino é, na verdade, a soma dos lugares para onde olhei. A vida que você está tendo é, em boa medida, a vida para a qual você está olhando. E a que você não está tendo provavelmente acontece agora mesmo, no canto do quarto, sem luz nenhuma em cima.

*

Volte, por um momento, àquela coisa que estava ocupando você quando este texto começou.

Repare onde ela está agora.

Durante alguns minutos, enquanto você lia, ela não foi a vida inteira. Não sumiu, nem deixou de existir. Ficou ali, num canto, do tamanho que talvez sempre tenha tido. Nada nela mudou nesse intervalo.

Quem mudou de lugar foi você.

Se este texto mexeu com a balança aí dentro, continue a conversa no blog. Em marcellodesouza.com.br você encontra centenas de publicações sobre desenvolvimento cognitivo comportamental humano e organizacional, e sobre relações humanas mais saudáveis e conscientes.

#pesodaatencao #atencao #comportamentohumano #saudeemocional #ansiedade #lideranca #relacoeshumanas #tomadadedecisao #desenvolvimentohumano #gestaodepessoas #marcellodesouza #marcellodesouzaoficial #coachingevoce

Marcello de Souza | Coaching & Você

marcellodesouza.com.br

© Todos os direitos reservados

Se isso fez sentido para você, existe um próximo passo possível

Algumas reflexões não terminam no conteúdo — elas continuam em forma de diálogo, aprofundamento ou sustentação de um trabalho contínuo.

Se este conteúdo fez sentido, você pode acompanhar os próximos textos.

A forma como você percebe define a forma como você age — mesmo sem perceber.

Invalid email address
Apenas quando houver algo que realmente valha a pena.
Sustentar este trabalho também é uma forma de continuidade
Apoiar este trabalho

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *