
QUEM RI QUANDO VOCÊ NÃO CONSEGUE PARAR DE RIR?
Você já riu no lugar errado.
Não adianta negar. Um velório, uma reunião de diretoria, a fila do cartório, o instante exato em que alguém tropeça numa palavra solene. Algo sobe pelo peito, você aperta os lábios, olha para o chão, conta azulejos, pensa em boletos, morde a parte de dentro da bochecha. E nada funciona. Pelo contrário: quanto mais você segura, mais aquilo cresce, como água empurrando uma porta que alguém insiste em trancar por dentro. Até que sai. Um guincho ridículo, um chiado pelo nariz, os olhos molhados, o corpo dobrado ao meio. E, por alguns segundos, você deixa de ser o profissional, o filho comportado, o amigo que veio prestar apoio. Você é só aquilo. Um bicho rindo.
Eu quero ficar com essa cena. Porque desconfio que ela diz mais sobre quem somos do que a maioria das conversas que temos durante o dia inteiro.
*
Repare em quantas vezes você riu hoje. Não as gargalhadas. As outras. O “rsrs” falado na chamada de vídeo quando o gestor fez uma piada morna. O sorriso curto, quase uma tosse, que você soltou para o porteiro. A risadinha que veio depois de dizer algo duro a um colega, como quem passa algodão sobre o corte que acabou de fazer. O riso que concorda, o riso que pede desculpas, o riso que diz “estou do seu lado”, o riso que diz “não me leve tão a sério”, o riso que ocupa o silêncio porque o silêncio, naquele momento, seria uma acusação.
A maior parte do que chamamos de riso não tem nada a ver com graça.
É pontuação. Vírgulas sonoras que espalhamos pela conversa para que ela não desabe. Quem presta atenção percebe que em dez minutos de papo comum a gente faz isso várias vezes, quase sem notar, sempre curto, sempre grave, sempre começando e terminando no tempo certo. Ninguém ensinou e todo mundo sabe. É uma das gramáticas mais refinadas que carregamos, e talvez a menos estudada por quem a pratica. Você sabe exatamente quanto rir da piada do chefe. Sabe que um segundo a mais soa bajulação e um segundo a menos soa desafio. Sabe calibrar o riso para a sogra, para o cliente, para o ex que encontrou por acaso no supermercado. Ninguém nunca precisou explicar isso a você.
Esse riso é trabalho. Bem feito, delicado, necessário. Só que é trabalho.
*
E aí existe o outro.
O que não pede permissão. O que tem outro som, mais agudo, cheio de assobios e ruídos que, se você ouvisse gravados fora de contexto, talvez nem reconhecesse como seus. O que não tem forma de palavra. O corpo de quem ri assim não se parece com o corpo de quem fala; a garganta desiste de articular, a boca abandona a geometria das sílabas, o diafragma assume o comando como se uma parte muito antiga de você tivesse acordado e tomado o volante sem avisar.
Há algo nisso que me fascina e me inquieta ao mesmo tempo. A ciência que olha para o cérebro percebeu que esses dois risos não nascem exatamente do mesmo lugar. Seguem caminhos em parte distintos, que se tocam e se cruzam o tempo todo, e nenhum deles trabalha sozinho. Um deles nasce numa região que só a nossa espécie desenvolveu com tanto requinte, a mesma que nos permite falar, cantar, modular a voz numa negociação. O outro vem de um circuito velho, muito mais velho que qualquer idioma, que dividimos com os mamíferos que brincam de rolar no chão. O filhote de cachorro que morde a orelha do irmão e solta aquele arquejo ofegante. O rato que, cutucado de leve, emite sons que ouvido humano nenhum alcança. Esse circuito estava aqui antes da linguagem, antes da etiqueta, antes do cargo, antes do nome.
Simplifico de propósito, e quero que isso fique claro entre nós. O cérebro não se divide em andares, nem guarda cada coisa numa gaveta separada; quem o estuda sabe que quase tudo ali conversa com quase tudo, e o que hoje se descobre amanhã pode ser revisto. A imagem de um riso novo e de um riso antigo, de um porão e de um andar de cima, não pretende ser um mapa. É uma lente. Um modo de organizar o que todos nós já sentimos no corpo, para que a gente consiga pensar sobre isso.
Ou seja: quando você não consegue parar de rir, quem está rindo não é exatamente você. É alguém que veio antes de você.
*
Fico pensando no que isso significa para o modo como nos apresentamos ao mundo.
Passamos a vida construindo uma voz. A voz que se usa em entrevista de emprego, a voz da reunião, a voz que se usa com o filho quando ele mente, a voz que pede um desconto. Cada uma delas exige controle fino, cálculo, uma espécie de vigilância contínua sobre o efeito que estamos produzindo nos outros. O riso social é a extensão natural dessa voz. É o mesmo aparelho, a mesma precisão, o mesmo cuidado com a plateia. Uma ferramenta de quem aprendeu a viver em grupo e sabe que viver em grupo é negociar o tempo todo.
O riso incontrolável é o momento em que essa engenharia toda entra em pane.
E repare em quando ele costuma aparecer. Raramente no lugar seguro. Quase nunca quando estamos sozinhos no sofá. Ele aparece justamente onde a pressão para se controlar é máxima. No funeral. Na missa. Na sala de audiência. No meio da apresentação para o conselho. Como se houvesse uma relação direta entre o tamanho da formalidade e a força com que o bicho antigo quer escapar. Quanto mais pesado o ambiente exige que você seja só a sua função, mais intensamente alguma coisa dentro de você lembra que existe para além dela.
Eu não acho que isso seja falha. Acho que é protesto.
*
Penso numa reunião que acompanhei anos atrás, numa empresa grande, com aquele clima que todo mundo conhece: ar-condicionado gelado, slides impecáveis, números que não fechavam e ninguém dizia. Duas horas de risos educados, todos no tom certo, todos curtos, todos funcionais. Até que o projetor travou numa imagem do diretor congelado de boca aberta, numa careta impossível. Uma analista júnior soltou um som pelo nariz. Depois outro. Tentou disfarçar com uma tosse. Não deu. Em trinta segundos, a sala inteira estava chorando de rir, inclusive o próprio diretor, que batia na mesa sem conseguir respirar.
O que me impressionou não foi o riso. Foi o depois.
A conversa mudou. Alguém finalmente disse que os números não fechavam. Outro admitiu que não tinha entendido a estratégia desde o começo. A analista júnior fez uma pergunta que ninguém com mais de dez anos de casa teria coragem de fazer. Era como se aquele riso tivesse aberto um buraco na parede de vidro que separava cada pessoa da sala, e por esse buraco tivesse entrado ar.
Duas horas de riso negociado não produziram uma única frase honesta. Trinta segundos de riso descontrolado produziram várias.
Por quê?
*
Tenho uma hipótese, e quero arriscar.
O riso que controlamos serve para manter as coisas como estão. Ele lubrifica, alivia, suaviza. Evita o atrito. É o riso da manutenção da ordem, e não há nada de errado com isso, porque sem ele a convivência seria insuportável. Só que, justamente por ser um instrumento de estabilidade, ele também é um instrumento de defesa. Quem ri na medida certa nunca se expõe. Quem domina perfeitamente o riso social pode atravessar anos de convivência sem que ninguém o conheça de verdade.
O riso que nos escapa faz o contrário. Ele desmonta a hierarquia por alguns segundos, porque ninguém consegue rir assim e manter a pose. O diretor de cara vermelha e o estagiário de cara vermelha são, naquele instante, a mesma coisa. Corpos sacudidos pela mesma onda. E quando a onda passa, fica uma memória no ar: a de que vimos uns aos outros sem a armadura. Fica difícil voltar ao teatro com a mesma convicção de antes.
Talvez seja por isso que tantas culturas organizacionais tratam o riso solto com desconfiança. Não é falta de seriedade que elas temem. É falta de controle. E controle, em muitos ambientes, é o verdadeiro valor que se protege, por baixo de todos os outros que se escrevem na parede.
*
Agora, quero complicar a minha própria hipótese.
Porque seria fácil demais transformar isso numa celebração ingênua do espontâneo contra o calculado, do autêntico contra o social, do bicho contra a máscara. E eu não acredito nessa divisão. Ninguém é mais verdadeiro só porque perdeu o controle. Quem grita de raiva no trânsito também perdeu o controle, e isso não faz do grito uma revelação sagrada. O circuito antigo que nos faz rir sem parar é o mesmo que nos faz gritar de medo. Ele não é sábio. É apenas antigo.
O que me parece mais interessante é outra coisa. É o fato de que precisamos dos dois e de que vivemos, na maior parte do tempo, presos a um só.
Há pessoas que só conhecem o riso controlado. Elas são agradáveis, eficientes, impecáveis nas relações de trabalho. Riem sempre na hora certa. E, se você perguntar quando foi a última vez em que riram até doer a barriga, vão demorar para responder. Algumas nem se lembram. Não é que sejam tristes. É que, em algum momento, a vigilância ficou tão boa que passou a funcionar sozinha, inclusive quando não havia ninguém para vigiar. A voz social virou a única voz. O bicho foi domesticado tão bem que esqueceu o caminho de volta.
E há o oposto, mais raro, que também cobra seu preço: quem não consegue sustentar nenhuma negociação, quem transborda sempre, quem não sabe rir pela metade e por isso não sabe estar em lugares que exigem meio riso. Também está preso. Só que do outro lado da porta.
A maturidade, se é que essa palavra serve, não está em escolher um lado. Está na capacidade de transitar. De saber pontuar a conversa com delicadeza e, ao mesmo tempo, preservar a possibilidade de ser atravessado. De não confundir o instrumento com a pessoa que o toca.
*
Há um dado que me persegue desde que tomei contato com ele.
Pessoas que sofrem uma lesão na parte do cérebro que cuida da fala articulada às vezes perdem quase toda a capacidade de construir frases. Não conseguem pedir um copo d’água, não conseguem dizer o nome dos filhos. E, em alguns desses casos, nem em todos, continuam rindo. Continuam chorando. Continuam xingando.
Leia de novo.
Não é regra, e cada cérebro ferido conta a própria história. Mesmo assim, quando acontece, a cena diz muito: a camada mais recente desmorona e resiste justamente aquilo que nunca dependeu dela. O riso que escapa. A lágrima que não pede licença. O palavrão que sai antes do pensamento. As três expressões que a educação inteira tentou administrar estão entre as que, às vezes, resistem quando o resto se cala. Como se não morassem no andar de cima, onde guardamos a linguagem, a estratégia, a reputação. Como se morassem no porão, onde estão as fundações.
Eu não sei você, mas isso me faz olhar de outro jeito para tudo o que passamos a vida tentando polir. Talvez a parte de nós que tratamos como inconveniente, como descontrole, como algo a esconder em público, seja justamente a mais estrutural. Aquela que segura a casa de pé quando o resto cai.
*
Volto para o funeral, para o tribunal, para a missa.
Por que o riso escolhe justamente esses lugares?
Uma resposta possível é química. O riso solto desencadeia no corpo uma cascata de alívio, algo que diminui a dor física, que acalma, que dá ao organismo uma espécie de recompensa imediata. Em ambientes de tensão extrema, o corpo procura uma válvula. E encontra.
Só que eu quero ir além da válvula. Porque existe também uma dimensão relacional nisso, que a química sozinha não explica. Repare: quase nunca rimos assim sozinhos. Quando a crise de riso acontece, ela costuma ter cúmplice. Um olhar cruzado com alguém do outro lado da sala. Uma sobrancelha que se mexe. E pronto, acabou, ninguém mais segura. O riso incontrolável é contagioso porque é, antes de tudo, um fenômeno entre corpos. Ele passa de um para outro antes que qualquer um dos dois tenha decidido nada.
Isso quer dizer que, no meio do momento mais solene, duas pessoas se reconheceram. Sem palavras, sem acordo, sem negociação. Os bichos antigos que moram dentro delas se cheiraram, por assim dizer, e disseram um ao outro: eu também estou aqui, eu também acho isso tudo absurdo, eu também não aguento.
Talvez o riso fora de hora seja uma das formas mais primitivas de companhia que existem. Um jeito de lembrar ao outro, no pior momento, que ele não está sozinho dentro da própria pele.
Quem já riu num velório ao lado de um primo, os dois tremendo de vergonha atrás do lenço, sabe do que estou falando. Na hora, parece desrespeito. Anos depois, muita gente descobre que aquele foi o único momento do dia em que não se sentiu sozinha com a perda.
*
Quero trazer isso para mais perto.
Pense na sua casa. No seu casamento, se você tem um. Nos seus filhos, nos seus pais, nos amigos que restaram da adolescência. Em qual dessas relações ainda acontece o riso que não se controla?
Faço essa pergunta porque tenho percebido uma coisa nos casais que atendo e nas equipes que acompanho. A qualidade de uma relação raramente se mede pelas conversas sérias que ela consegue ter. Conversas sérias, com algum esforço, qualquer um aprende a ter. Existe método, existe técnica, existe gente que vende isso. O que não se ensina é o espaço onde o descontrole é permitido sem que ninguém precise pedir desculpas depois. O lugar onde você pode fazer aquele som horrível pelo nariz e ninguém registra como deslize.
Ele não é termômetro, e sozinho não prova nada. Há casais que gargalham e se destroem, equipes que riem muito e se sabotam. Ainda assim, casais que riem assim juntos muitas vezes têm algo que os outros perderam, mesmo quando brigam. Equipes que riem assim tendem a aguentar crises que derrubariam equipes tecnicamente superiores. E não é porque o riso resolve problemas. Não resolve. É porque ele costuma ser um sinal, entre outros, de que ainda existe, entre aquelas pessoas, uma zona onde ninguém está performando.
Quando esse riso some de uma relação, ele quase nunca some de uma vez. Ele vai rareando. As piadas internas viram referências educadas. A gargalhada vira sorriso. O sorriso vira aceno. Até que um dia você percebe que, com aquela pessoa, só sobrou o riso de pontuação. O riso que mantém a conversa funcionando. O riso de quem convive bem, mas já não se encontra.
E ninguém percebeu o momento em que isso aconteceu, porque não houve momento. Houve um esquecimento lento.
*
Existe um paradoxo que não consigo resolver e que talvez não deva ser resolvido.
Não dá para provocar o riso incontrolável de propósito. Basta tentar. Fique diante do espelho agora e decida rir até perder o ar. O que sai é falso, mecânico, um riso de palco. A própria decisão contamina o resultado, porque decidir é tarefa do andar de cima, e esse riso mora no porão. Quanto mais você tenta alcançá-lo pela vontade, mais ele se afasta.
E, ao mesmo tempo, dá para matá-lo de propósito. Dá para construir uma vida, uma carreira, uma empresa, um casamento, em que ele simplesmente não tenha espaço para acontecer. Basta controlar tudo. Basta que nenhum ambiente seja seguro o bastante. Basta que todo mundo esteja sempre sendo avaliado.
Ou seja: não temos poder para chamá-lo. Temos todo o poder para expulsá-lo.
O que nos resta, então, é algo mais sutil do que qualquer técnica. É cuidar das condições. Criar lugares, relações e rotinas onde a vigilância possa baixar a guarda sem que isso custe caro. Não para forçar o riso, mas para deixar a porta destrancada caso ele queira passar.
Vivemos o auge do discurso da felicidade no trabalho. Ela virou meta, indicador, item de avaliação, e sobretudo responsabilidade de cada um: seja grato, seja leve, seja positivo, e se não der certo o problema mora em você. Só que quem cobra felicidade recebe outra coisa. Recebe gente sorrindo na hora certa, com o volume certo, com medo de errar o tom. Recebe mais riso de pontuação, agora com crachá. Muitas empresas gastam fortunas tentando produzir o que chamam de clima: mesas de pingue-pongue, festas temáticas, dinâmicas de integração em que todos são obrigados a se divertir na mesma hora. É quase cômico, no pior sentido. Pede-se ao porão que se manifeste com hora marcada e roteiro aprovado. E chamam isso de folga.
Para quem lidera, contrata ou avalia, fica uma pista desconfortável. Ninguém consegue exigir o riso que escapa, a lágrima que não pede licença, o descontrole que mostra que ali tem gente. O que se consegue é não cobrar caro quando eles aparecem. A conta deixa de ser só do indivíduo, mas também não passa inteira para a empresa. Ela mora no espaço entre os dois, naquilo que um ambiente permite ou castiga.
O riso que importa não vem quando é convidado. Ele vem quando percebe que não será punido.
*
Às vezes me pergunto o que diríamos de uma pessoa se só pudéssemos conhecê-la pelo modo como ri.
Não pelo currículo, não pelas opiniões, não pelo que ela posta. Só pelo riso. Pela proporção entre o riso que negocia e o riso que escapa. Pela frequência com que o corpo dela ainda é tomado por algo que ela não decidiu.
Acho que aprenderíamos coisas que nenhuma entrevista revela. Saberíamos quanto da vida dela está sendo administrado e quanto ainda está sendo vivido. Saberíamos se existe alguém, em algum lugar, diante de quem ela pode desmontar. Saberíamos se o bicho antigo ainda respira, ou se foi trancado tão fundo que desistiu de bater na porta.
E aí a pergunta se vira para você, inevitavelmente.
Quantas vezes hoje você riu para manter alguma coisa de pé?
E quando foi a última vez em que algo dentro de você riu sem pedir sua opinião, sem medir o volume, sem se importar com quem estava olhando, e você, depois, com os olhos ainda molhados e a barriga doendo, ficou alguns segundos sem saber muito bem quem era?
Aquela pessoa sem saber quem era.
Faz tempo que você não a encontra?
*
Hoje, em algum lugar, alguém vai segurar o riso numa sala silenciosa. Vai apertar os lábios, olhar para o chão, contar azulejos. E vai perder.
Que bom.
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¿QUIÉN SE RÍE CUANDO VOS NO PODÉS PARAR DE REÍRTE?
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