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NÃO SE ENGANE — O CAMINHO DO MEIO NÃO É EQUILÍBRIO

Você já ouviu falar no “caminho do meio”. Provavelmente já leu ou ouviu dezenas de vezes essa expressão sendo usada como sinônimo de equilíbrio, moderação, bom senso. Como se houvesse, entre dois extremos, um ponto seguro, confortável, onde você deveria se posicionar para evitar excessos. Como se a sabedoria estivesse em nunca ir longe demais para nenhum lado, em manter-se sempre na zona temperada da existência, protegido das intensidades que poderiam desestabilizá-lo.
Esqueça isso. Completamente.
O caminho do meio não é mediocridade travestida de sabedoria. Não é a recusa dos extremos em nome de uma suposta sanidade. Não é o ponto intermediário onde você se acomoda para não sentir demais, não arriscar demais, não viver demais. O verdadeiro caminho do meio — aquele que exige coragem, presença e uma maturidade brutal — é outra coisa completamente diferente, e bem mais assustadora do que qualquer manual de autoajuda ousaria admitir.
É a capacidade de transitar pelos extremos com intensidade plena, mas sem se identificar com nenhum deles. De sentir a solidão até o osso sem se definir como solitário. De gritar até esvaziar os pulmões sem se tornar alguém que grita. De amar com intensidade absoluta sem fazer do amor sua identidade permanente. De habitar polaridades opostas com presença total em cada uma, mas sem se fixar em nenhuma como se fosse sua morada definitiva.
Porque aqui está o problema que ninguém quer enfrentar: a maioria das pessoas nunca chegou perto dos próprios extremos. Vive numa zona mediana não por sabedoria, mas por medo. Medo de sentir demais, de querer demais, de falhar demais, de sofrer demais, de se perder no caminho. E aí chama essa contenção defensiva de “equilíbrio”, essa paralisia cautelosa de “maturidade”, essa recusa sistemática de intensidade de “caminho do meio”.
Mas o que acontece quando você nunca experimentou seus limites? Você não sabe do que é capaz. Você não sabe o quanto aguenta. Você não sabe onde está sua verdadeira borda. E passa a vida inteira se comportando como alguém que precisa de proteção constante — de si mesmo, dos outros, da vida. Você se torna uma versão editada, filtrada, controlada de quem poderia ser. E chama isso de sabedoria.

A ARMADILHA DA COERÊNCIA
Existe um desconforto silencioso que atravessa a vida de quase todas as pessoas que conheço. Não é depressão no sentido clínico, não é ansiedade diagnosticável, não é crise existencial dramática. É algo mais sutil e, talvez por isso, mais insidioso: a sensação persistente de estar dividido, de carregar dentro de si versões conflitantes que nunca se acomodam completamente, que nunca fazem as pazes de verdade.
Você conhece essa sensação. É aquela que aparece quando você está exausto de pessoas, mas, ao mesmo tempo, sente um vazio pela falta delas. Quando você quer partir, e também quer ficar. Quando você fala, porém preferia ter calado, e quando você cala gostaria de ter gritado. Não estou falando de indecisão, de falta de clareza ou de imaturidade emocional. Estou falando de algo muito mais fundamental: a experiência concreta, vivida, de ser simultaneamente coisas que parecem radicalmente incompatíveis.
E aí vem a armadilha — porque vivemos numa época que tem verdadeiro horror à incoerência. Uma época que exige de você uma narrativa pessoal linear, uma marca bem definida, um posicionamento claro, uma identidade que se possa resumir em três palavras. “Quem é você?” virou uma pergunta que demanda resposta única, cristalina, repetível. Como se você fosse um produto com características estáveis, como se sua existência pudesse ser empacotada numa descrição de perfil profissional ou numa bio de rede social.
Mas acontece que você não é isso. Ninguém é.
Há uma guerra silenciosa acontecendo dentro de cada pessoa que tenta se comportar como um “eu” singular e coerente. Porque no exato momento em que você está sentindo necessidade profunda de solidão, há outra parte igualmente legítima desejando conexão visceral com alguém. Enquanto você planeja friamente sua próxima jogada de carreira, há algo em você que gostaria de largar tudo e simplesmente existir sem propósito. Você ama e ao mesmo tempo quer distância da mesma pessoa. Você confia e desconfia. Você sabe e não sabe.
E o que fazemos com isso? Gastamos energia descomunal tentando resolver essas contradições, como se fossem bugs no sistema, falhas de caráter, sinais de imaturidade. Procuramos terapias que nos “integrem”, coaches que nos “alinhem”, metodologias que nos façam “encontrar nossa essência verdadeira”. Como se houvesse, em algum lugar escondido dentro de você, uma versão definitiva, coerente, final — e todo o resto fosse apenas ruído a ser eliminado.
Mas e se não houver? E se essa busca pela completude, pela inteireza, pela coerência absoluta for exatamente o que está nos destruindo?

O CUSTO DE SER ÚNICO
Pense na quantidade de sofrimento que vem não da contradição em si, mas da sua inaceitabilidade. Você se sente culpado por querer estar sozinho quando “deveria” estar feliz com a companhia. Você se julga por sentir raiva de alguém que também ama. Você questiona sua capacidade de liderança porque às vezes se sente inseguro. Você duvida do seu relacionamento porque há dias em que a paixão inexplicavelmente esfria. Como se sentimentos contraditórios invalidassem uns aos outros, como se você precisasse escolher um lado e eliminar o outro para ser uma pessoa “saudável”.
Mas a questão que ninguém faz é: quem definiu que saúde é uniformidade?
Há uma sabedoria profunda — e assustadora — em reconhecer que você carrega dentro de si tanto o grito quanto o silêncio, e que nenhum dos dois é mais verdadeiro que o outro. Que há momentos em que a lembrança do que você foi ocupa todo o espaço, mas há outra dimensão de você que simplesmente não sabe quem é — e talvez nunca saiba. E isso não é falha. É condição humana na sua forma mais crua.
O problema começa quando traduzimos essa multiplicidade inerente como “falta de identidade”, como se precisássemos de uma resposta única e estável para a pergunta “quem sou eu?”. Quando nos forçamos a performances de coerência que custam energia psíquica brutal. Quando construímos personas profissionais tão rígidas que mal conseguimos respirar dentro delas. Quando escolhemos relacionamentos com pessoas que exigem de nós uma versão única, previsível, controlável — e aí começamos a nos odiar por não conseguir entregar essa impossibilidade.
Você já reparou como certas relações adoecem não porque haja falta de amor, mas porque há falta de espaço para a contradição? Você ama alguém profundamente, mas também precisa de distância. Você quer proximidade, mas também autonomia. E em vez de isso ser tratado como algo natural — como respirar para dentro e para fora, como sístole e diástole — vira evidência de problema. “Se você realmente me amasse, não precisaria ficar sozinho.” “Se você estivesse realmente comprometido, não teria dúvidas.” Como se amar fosse um estado contínuo, sem oscilação, sem respiração própria.
E no ambiente corporativo? Ainda pior. Você é contratado para ser estratégico, mas também precisa ser executor. Para ser criativo, mas também disciplinado. Para ser líder inspirador, mas também gerente controlador. E em vez de reconhecermos que essas dimensões existem em tensão — e que é exatamente dessa tensão que vem a potência — criamos expectativas impossíveis de “profissional completo”, de “liderança 360 graus”, como se fosse possível alguém ser todas as coisas ao mesmo tempo sem entrar em colapso.
A exaustão contemporânea tem muito a ver com isso. Com essa obrigação de ser uno quando somos múltiplos. Com essa demanda de coerência narrativa quando nossa experiência é fundamentalmente fragmentada. Com esse imperativo de “se conhecer” como se houvesse um eu estável esperando ser descoberto, quando na verdade o que existe é uma série de configurações provisórias que se reorganizam conforme o contexto, o momento, o interlocutor, a intensidade do que está sendo vivido.

TRANSITAR SEM SE TORNAR
Não estou romantizando a fragmentação. Não estou dizendo que é fácil ou confortável viver nessa condição. Há dor real em sentir coisas opostas simultaneamente. Há angústia genuína em não ter resposta definitiva sobre quem você é. Há cansaço em carregar versões conflitantes de si mesmo sem conseguir eliminar nenhuma delas.
Mas há algo infinitamente pior: há violência em tentar suprimir partes de si para parecer inteiro.
Porque quando você tenta eliminar a parte que quer solidão para ser o “bom companheiro”, você não se torna mais presente — você se torna ressentido. Quando você suprime a parte que duvida para ser o “líder seguro”, você não se torna mais forte — você se torna rígido. Quando você silencia a parte que cala para ser sempre o “comunicador autêntico”, você não se torna mais verdadeiro — você se torna performático. Quando você nega a parte que quer partir para ser a “pessoa confiável”, você não se torna mais estável — você se torna aprisionado.
Então o que seria o verdadeiro caminho do meio? Não é encontrar um ponto de equilíbrio seguro entre opostos. É desenvolver a capacidade rara, brutalmente difícil, de experimentar extremos com intensidade total sem se fixar em nenhum deles como identidade permanente.
Você pode mergulhar na solidão profunda, explorar cada camada de silêncio, sentir o peso da ausência até o osso — e depois emergir dela sem carregar “solitário” como etiqueta definitiva. Você pode sentir raiva com intensidade avassaladora, deixar que ela percorra seu corpo inteiro, gritar até esvaziar — e depois soltá-la, sem transformá-la em quem você é. Você pode amar alguém com entrega absoluta, com vulnerabilidade total — e ao mesmo tempo sustentar a clareza de que esse amor não é sua identidade, é um dos muitos movimentos que você é capaz de fazer.
Isso não é indiferença. Não é frieza emocional. Não é dissociação defensiva. É algo radicalmente diferente: é a capacidade de sustentar o campo de tensão inteiro — todos os opostos, todas as contradições, todas as versões simultâneas — sem colapsar, sem precisar resolver, sem forçar síntese artificial.
É poder vestir a raiva como quem veste um casaco — sentir seu peso, sua textura, seu calor — e depois tirá-la, sem deixar que ela vire sua pele. É mergulhar no oceano da tristeza, explorar suas profundezas sem medo — e depois voltar à superfície sem trazer o oceano para dentro dos pulmões. É habitar a intensidade de cada polo sem fazer de nenhum deles sua morada definitiva.
Isso exige uma maturidade que não se ensina em cursos. Exige presença sem defesa. Exige a coragem de sentir tudo sem se agarrar a nada. Exige que você desenvolva uma espécie de consciência que observa, que sustenta, que permite — mas que não se identifica com nenhum dos conteúdos que atravessam você.

A CORAGEM DE NÃO SE DEFINIR
O que acontece quando você permite que as contradições coexistam? Não numa síntese forçada, não numa integração artificial, mas numa tensão viva, produtiva, real? Você para de gastar energia tentando ser uma ficção de coerência. Você para de se punir por sentir o que sente. Você para de exigir dos outros uma estabilidade que você mesmo não consegue — e nem deveria — oferecer.
E curiosamente, é aí que a relação com o outro se torna possível de verdade. Porque enquanto você precisar que ele seja sempre acolhedor, sempre disponível, sempre coerente com a versão dele que você conheceu, você não está se relacionando com uma pessoa — está se relacionando com uma ideia, com uma projeção, com uma fantasia de estabilidade. E quando ele inevitavelmente mostrar que também é grito e silêncio, também é partida e saudade, também é clareza e não saber, você vai se sentir traído por uma promessa que ele nunca fez.
Mas se você conseguir olhar para suas próprias contradições sem transformá-las em defeito, você consegue olhar para as dele também. E aí, talvez, vocês possam se encontrar não na completude fictícia, mas na incompletude real. Não na harmonia forçada, mas na dissonância honesta. Não na resolução, mas na convivência consciente com o que não se resolve.
Tem uma percepção que me persegue há anos: “Eu achei que precisava me encontrar. Descobri que precisava me suportar.” Não no sentido de tolerância condescendente, mas no sentido literal de dar suporte, de sustentar estruturalmente. De parar de tratar partes de si como erros de fabricação que precisam ser corrigidos.
Porque o que chamamos de “desenvolvimento pessoal” virou, em grande medida, um projeto de eliminação. Elimine a insegurança. Elimine a dúvida. Elimine a contradição. Torne-se uma versão otimizada, funcional, coerente de si mesmo. E quanto mais você tenta, mais percebe que há algo que não se deixa eliminar, que insiste em voltar, que resiste à programação, que se recusa a desaparecer.
E se esse “algo” for exatamente o que há de mais humano em você? E se a verdadeira patologia não for ser contraditório, mas sim a recusa violenta em aceitar que somos feitos de impulsos simultâneos que não se harmonizam numa síntese confortável?
Não estou sugerindo que você deva se entregar passivamente a qualquer impulso contraditório. Não estou dizendo para viver sem direção ou propósito, à deriva de cada mudança interna. Estou dizendo que há diferença brutal entre escolher conscientemente entre possibilidades simultâneas e tentar exterminar metades de si para simplificar a equação.
Você pode querer partir e também querer ficar. E pode escolher ficar hoje, sabendo que amanhã a vontade de partir estará lá novamente. Não porque você é indeciso, mas porque você é vivo. Você pode amar profundamente alguém e também precisar de distância dessa pessoa. Não porque o amor é falso, mas porque amor não é ocupação total do espaço psíquico — é um dos muitos movimentos que você faz.
A pergunta deixa de ser “quem eu realmente sou?” e se torna “quais dessas versões simultâneas de mim vão guiar minha ação agora?”. Não há resolução final. Há escolhas provisórias, conscientes, responsáveis — mas provisórias. E não só está tudo bem com isso, como é a única forma honesta de viver.
Está tudo bem você ser grito e silêncio. Está tudo bem você não saber metade de si. Está tudo bem você ser abrigo e cansaço ao mesmo tempo. Porque talvez a saúde não esteja na eliminação da tensão, mas na capacidade de habitá-la sem entrar em colapso. Na capacidade de transitar por extremos com intensidade plena, mas sem se cristalizar em nenhum deles.
Talvez o maior medo não seja sentir coisas opostas. Talvez seja descobrir que você não precisa ser nenhuma delas para agir. Que você pode experimentar a solidão profunda sem se definir como solitário. Que você pode sentir insegurança brutal sem se tornar inseguro. Que você pode habitar a dúvida sem fazer dela sua identidade.
Isso não é para todos. Exige coragem de sentir tudo sem se agarrar a nada. Exige presença sem defesa. Exige a capacidade de ser intenso sem ser rígido, de ser múltiplo sem ser fragmentado, de ser contraditório sem ser incoerente. E a maioria das pessoas vai preferir a prisão confortável de uma identidade fixa do que a liberdade aterradora de ser múltiplo, fluido, vivo.
Mas se você conseguir? Se você desenvolver essa capacidade rara de sustentar o campo de tensão inteiro, de transitar extremos sem se perder neles, de experimentar sem se identificar? Você descobre algo extraordinário: que nunca precisou se completar. Só precisava parar de se dividir.

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