A CRIOGENIA EMOCIONAL: QUANDO O TEMPO VIRA INIMIGO DE QUEM SE ACHA DONO DA VERDADE
O tempo poderia ser o melhor amigo de quem terminou uma relação. Poderia. Mas só para quem aceita ser humilhado por ele.
O Espelho do Fenômeno
A criogenia emocional é o estado psíquico de quem congela o último frame do término e decide que ali está a verdade absoluta, eterna e inquestionável. “Eu sei exatamente o que aconteceu.” “Eu sei exatamente quem ele/ela foi.” “Eu sei exatamente quem eu sou por causa disso.”
Esse “eu sei” não é lucidez — é narcisismo epistêmico travestido de autopreservação. É o ego construindo um mausoléu cognitivo onde a pessoa se enterra viva, convencida de que protege sua dignidade quando, na verdade, está apenas adiando sua dissolução.
Porque o tempo não apaga, não perdoa, não consola. O tempo apenas expõe. Expõe quem usou os anos para virar gente maior e quem usou os mesmos anos para virar uma versão piorada, mais amarga e mais convicta de si mesma.
O Mecanismo Interno
A neurociência nos mostra que o cérebro humano é uma máquina de narrativas — e narrativas coerentes são mais atraentes para o sistema límbico do que verdades fragmentadas. Quando vivenciamos um término doloroso, o córtex pré-frontal busca desesperadamente criar uma história que faça sentido. O problema é que essa história quase sempre privilegia a homeostase emocional em vez da precisão factual.
O fenômeno da cristalização cognitiva, descrito pelos estudos de confirmação de viés, mostra como o cérebro seleciona, distorce e ignora informações para manter uma narrativa interna consistente. No contexto de términos, isso significa que a pessoa literalmente reescreve a história do relacionamento para que ela faça sentido dentro da identidade que precisa manter intacta.
A psicologia comportamental nos lembra sobre a diferença entre relação e experiência. Quem congela emocionalmente transforma o outro em “isso” — objeto da própria narrativa, peça do próprio quebra-cabeça identitário. O ex-parceiro deixa de ser uma pessoa com complexidade, contradições e evolução própria para se tornar personagem fixo no drama pessoal.
O psicanalista Wilfred Bion chamaria isso de evacuação psíquica — quando a pessoa não consegue metabolizar a experiência dolorosa, então a expulsa para fora, congelando-a em uma forma que pode controlar. O problema é que essa forma congelada se torna um parasita: alimenta-se da energia vital da pessoa, impedindo que ela cresça além daquele ponto de ruptura.
E o resultado é sempre o mesmo, previsível, trágico e repetitivo:
• Repete os mesmos padrões disfarçados de “lições aprendidas” — porque a “lição” aprendida é sempre externa: “os outros são…” nunca “eu sou…”.
• Escolhe parceiros que confirmem a narrativa antiga (“viu? todos são iguais”) — o que a psicologia social chama de profecia autorrealizável.
• Afasta, um a um, os amigos que ousam dizer “você também teve culpa” — porque quem desafia a narrativa congelada é visto como traidor, não como aliado da verdade.
• Perde os filhos que cansam de ouvir a mesma ladainha de vitimização — e que, silenciosamente, aprendem que amor é prisão e que maturidade é ameaça.
• Isola-se na fortaleza da razão absoluta — uma fortaleza que, vista de fora, parece mais um hospício onde o único morador é também o único visitante.
O Campo da Dor
Talvez você se reconheça aqui. Talvez não na versão extrema, mas na versão diluída — aquela em que você ainda carrega uma versão editada do ex, uma narrativa sobre “quem era culpado”, uma certeza sobre “o que deu errado” que nunca foi realmente questionada.
Você percebe quando está preso nessa criogenia emocional quando:
• Sua história sobre o término nunca muda, não importa quanto tempo passe.
• Você conhece novas pessoas, mas compara obsessivamente com o padrão congelado.
• Amigos novos ouvem a mesma história que amigos antigos ouviram há anos.
• Você sente uma estranha satisfação quando o ex falha ou sofre — porque confirma sua narrativa.
• Qualquer sugestão de que você também errou dispara reações desproporcionais de defesa.
Fato é que o Outro não é espelho — é rosto. E rosto exige responsabilidade infinita. Mas quem está criogenicamente congelado transformou o rosto do outro em espelho quebrado, onde só enxerga os próprios fragmentos distorcidos.
A dor não está no que aconteceu. A dor está em ter parado de viver no dia em que aquilo aconteceu.
O Movimento de Cura
A cura da criogenia emocional não começa com perdão — começa com dúvida.
Não a dúvida paralisante, mas a dúvida filosófica, socrática, aquela que Heidegger chamou de abertura para o Ser. “E se eu não souber tudo? E se minha história for apenas uma versão? E se minha certeza for meu maior obstáculo?”
Nesse sentido, vale apena lembrar que as emoções são marcadores somáticos que guiam decisões. Quando congelamos emocionalmente, congelamos também nossa capacidade de criar novos marcadores. Continuamos reagindo ao presente com os códigos neurais do passado. O corpo não sabe que a guerra acabou.
Para descongelar, é preciso sentir de novo — e isso dói mais que manter-se anestesiado. É preciso revisitar a história não para reescrevê-la a seu favor, mas para desconstruí-la completamente. Admitir: “Eu também fugi. Eu também menti. Eu também fui cruel. Eu também estava perdido.”
Isso não é autocondenação — é humanização.
O psicólogo James Hollis disse algo devastador: “A segunda metade da vida é sobre recuperar quem você sempre foi antes de começar a fingir.” A criogenia emocional é o ápice da fingição — fingir que você era inocente, fingir que tinha razão, fingir que o tempo não te mudou porque você já era perfeito naquele momento de dor.
Para descongelar:
1. Questione sua narrativa — escreva a história do término pela perspectiva do outro, sem julgamento.
2. Sinta o que evitou sentir — vergonha, culpa, remorso, arrependimento são portais de amadurecimento.
3. Aceite a complexidade — ninguém é vilão ou herói. Relacionamentos são sistemas, não biografias.
4. Escolha um novo significado — não “o que aconteceu”, mas “quem eu me tornei através disso”.
5. Agradeça pelo caos — porque só no caos há possibilidade de transformação real.
Quanto mais o tempo passa, mais as pessoas que um dia foram as mais importantes da vida dessa pessoa congelada se afastam. Não por rancor. Por cansaço. Porque ninguém aguenta conviver com alguém que transformou o próprio sofrimento em identidade sagrada e intocável.
No fim, a pessoa criogenicamente congelada fica sozinha com a única companhia que suporta: ela mesma, na versão mais pobre, mais raivosa e mais estéril que já existiu. E ainda acha que venceu.
Porque quem se acha dono de todas as respostas nunca percebe que a vida continuou sem ele. E que o tempo, esse amigo implacável, só abraça quem aceita ser desmontado e reconstruído.
Quem se recusa a isso não morre de amor. Morre de orgulho.
E orgulho, diferente do amor, não deixa herança. Deixa apenas um corpo congelado que ninguém mais visita.
No fim, só existem dois tipos de ex: os que viram fantasmas e os que viram mestres.
Os fantasmas moram dentro de quem se recusa a enterrar o cadáver. Os mestres só aparecem para quem ousou fazer o velório — e chorou de verdade.
O tempo não abraça quem tem razão. O tempo abraça quem tem coragem de mudar de ideia sobre si mesmo.
Porque a pior solidão não é ficar sem o outro. É ficar com a versão de você que o outro abandonou — e que você resolveu mumificar.
Descongele. A vida continuou. E ela está linda do lado de quem aceitou ser desmontado.
Reflita: Você ainda vive a vida ou ainda vive a história de quem você era quando tudo terminou?
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