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A PSICOLOGIA DA FELICIDADE

Por volta de 1998 deu-se início a um novo movimento na Psicologia focada na felicidade do Ser humano. A Psicologia Positiva, foi uma nova proposta científica com a promessa de melhorar a qualidade de vida dos indivíduos e prevenir as patologias psíquicas.

Este novo movimento mundial, foi dado a partir do psicólogo Martin Seligman quando assumiu a presidência da American Psychological Association (APA) que, ao lado de renomados cientistas como Mihaly Csikszentmihalyi, Ray Fowler, Chris Peterson, George Vaillant, Ed Diener dentre outros, começou a desenvolver Pesquisas utilizando o método científico quantitativo, a fim de promover uma mudança de foco na Psicologia atual – do estudo de algumas das piores coisas da vida para o estudo do que faz com que a vida valha a pena (Seligman, 2004).

 A Psicologia Positiva foi descrita por Sheldon & King (2001) como sendo o estudo científico das forças e virtudes próprias do indivíduo, permitindo uma nova abordagem da psicologia, através de uma postura diferenciada em relação ao potencial, motivação e capacidades humanas. Para Seligman (2004) trata-se do estudo de sentimentos, emoções, instituições e comportamentos positivos que tem como objetivo final a promoção da felicidade humana. A Psicologia Positiva utiliza os termos “positivo” e “negativo” para descrever as emoções. Para Fredrickson (2001), devemos entender as chamadas “emoções positivas” como sendo aquelas que favorecem a aproximação, e consequentemente, a convivência com o outro, enquanto que as “emoções negativas” fazem o contrário.

Inúmeros estudos têm apontado a importância das emoções positivas dentro do processo evolutivo do ser humano. A autora Fredrickson (2001), diz ainda que as emoções positivas fortalecem nossos repertórios físicos, sociais e intelectuais, criando recursos dos quais podemos lançar mão quando uma oportunidade ou dificuldades se apresentam e isto e evidenciado no dia a dia através da comunicação entre as pessoas. Sendo que o estado de espírito positivo desperta a afetividade do outro, como se contaminasse o ambiente de felicidade, contribuindo inclusive com que poderia definir de resiliência, ou seja, a capacidade para tolerar frustrações, sem desvirtuar do foco e dos objetivos, desencadeando um processo ascendente na busca da melhoria do bem-estar emocional.

A felicidade é a grande chave para dar significado a vida. “Como ganhar, manter e recuperar a felicidade é de fato o motivo secreto pelo qual a maior parte dos homens faz o que faz” (JAMES, 1902, p.76 apud MYERS, 2006, p. 379). 

Cortella (2014), diz em uma das passagens de seu livro Qual é a Tua Obra? (Inquietações Propositivas sobre Gestão, Liderança e Ética): “Cuidado, a vida é muito curta para ser pequena. É preciso engrandecê-la”. Pensando desta forma, é preciso tomar cuidado em dois pontos importantes, sugeridos pelo filosofo: a primeira é que tem muita gente que cuida demais do urgente e deixa de lado o importante. Cuida da carreira, do dinheiro, do patrimônio, mas deixa a saúde, os amigos, a família, enfim, aquilo que dá sentido à vida, de lado. E esquece que o depois, pode ser muito tarde! A segunda grande questão são as pessoas que se preocupam muito com o fundamental e deixa o essencial de lado. A lógica do seu pensamento está concisa na ideia de que não podemos cair na liquidez deste mundo e viver somente e exclusivamente perseguindo coisas, bens materiais, vivenciar somente o momento de “Estar”. O dinheiro é importante, sim, ele faz parte do sistema e com ele é possível fazer muitas “coisas”, principalmente permitir conseguir criar novas escolhas, entretanto, dinheiro e felicidade são incongruentes.

Deve-se quebrar a crença de achar que o essencial é o fundamental, por exemplo, dinheiro não essencial, ele é sim fundamental, pois ele é necessário para um equilíbrio sistêmico, mas ele não é a base da felicidade, não é essencial, porque você não compra o amor, amizade, por exemplo.

Dinheiro não compra a sexualidade, compra o sexo, não compra a amizade, compra interesse, não compra fidelidade, você compra reciprocidade, por isto tem que saber separar o essencial do fundamental, dinheiro não é desprezível, mas não é suficiente para nossa realização. Erros são cometidos, porque muitas vezes busca-se tudo aquilo que distância do essencial, aquilo que distancia da autenticidade do ser.

Cada vez mais as pessoas vivem em buscas de respostas esquecendo de primeiro saber quais são as perguntas. O mundo hoje está repleto de respostas prontas, dualistas, como a economia, religião, notícias, etc. e a felicidade tem a ver com buscar as perguntas, para que o todo faça sentido. 

As pessoas mais felizes não estão nos lugares mais ricos, e sim na simplicidade de viver a vida, fazendo o que ama com pessoas que amam. Pense nisso como a síndrome da casa maior. Você quer uma casa maior. Você precisa de uma casa maior. Então você compra. A vida é boa, até que alguns meses mais tarde, quando a sua casa maior se torna apenas a sua casa. O novo desejado sempre se torna o novo normal, quando alcançado. Coisas só fornecem explosões momentâneas de felicidade. Como dizia um velho sábio: Para ser mais feliz, não persiga muitas coisas. Em vez disso, persiga o essencial primeiro.

Passareli & Silva (2007) contraria todas as crenças populares, fortalecendo o descrito anteriormente, ao dizer que o que indica o aumento da renda produziria pouco benefício adicional ao bem-estar, o que sugere uma baixa correlação entre indicadores econômicos e o bem-estar. Diener & Seligman (2004) (apud PASSARELI & SILVA, 2007) relataram que nos últimos 50 anos os rendimentos aumentaram continuamente nos Estados Unidos, triplicando a renda per capita, mas no mesmo período não se observou aumento proporcional de satisfação de vida, sustentam que uma renda maior auxiliaria na avaliação de bem-estar subjetivo no caso de pessoas extremamente pobres, porém a partir de uma determinada renda, não se verificaria a correlação entre aumento da riqueza e aumento do bem-estar subjetivo.

Na história, entre seus diversos eventos de buscas e conquistas, dentro do processo de evolução humana, física e material, apenas uma única coisa se manteve como verdade: a busca constante por uma vida melhor.

Quando se busca na história humana, a filosofia mostra inúmeros caminhos na preocupação humana com a felicidade, desde ARISTÓTELES (384 a 322 a.c) dizia que era o objetivo de todo homem, e que seria alcançado através do exercício das virtudes, em sintonia com a vida em sociedade, ou então EPICURO (341a.C. a 270 a.C.) que dizia que lhe é possível levar uma existência feliz através da recusa dos excessos, medos e compromissos que podem levar a sofrimentos inúteis. SÊNECA (ano 2 a.C. a 65 d.C.), nas sabias palavras filosóficas, observando sua sociedade bastante infeliz, recusava-a como padrão de referência, dizendo que para ser feliz, a primeira coisa que o indivíduo deveria fazer seria recusar-se seguir a multidão.

Já no século XX filósofos como Russel (2003) dizia que a felicidade era um bem a ser conquistado, porém não como uma dádiva divina, dizia que a importância de o homem era integrar-se r interagir com a sociedade, buscando a felicidade de outrem na mesma medida em que busca a sua própria. Da mesma forma, nomes fundamentais da Psicologia – Abraham Maslow, Carl Rogers, Carl Jung, Albert Bandura,Gordon Allport e outros – se dedicaram a investigação das emoções positivas. Portanto, a grande contribuição da Psicologia Positiva não é ter inventado o estudo da Felicidade, mas tê-lo desenvolvido em bases científicas.

A qualidade de vida está diretamente interligada a felicidade. A felicidade não é um estado continuo, não é permanente, são instantes, episódios que fazem com que os sentimentos da vida cheguem ao ápice. Tem que se viver a vida em sua própria protuberância criativa, isto não significa enchê-la de adrenalina, viver emoções singulares dos extremos como pular de paraquedas, etc., a felicidade é poder ser muito mais simples; ser uma pessoa feliz não é sorrir todos os minutos do dia, mas saber saborear a presença na hora do sorriso verdeiro, da alegria presente na potência da vida. A felicidade também é estar presente ao saber vivenciar os momentos não tão felizes que fazem parte da vida.

Seligman (2004) faz uma distinção entre o que chama de “felicidade momentânea” e os níveis constantes de felicidade do indivíduo, como Diener, Lucas &Oishi (2002) que fala no bem-estar subjetivo momentâneo e de longo-prazo para diferenciar os momentos de felicidade episódicos dos níveis mais constantes de felicidade que se pode experimentar. Diferente de euforia, sem adornos de excesso, sem lucros da vida, de vivenciar o estado de estar, a felicidade é dar sentido à vida, no próprio legado.

Sua plenitude existe quando se deixa o julgamento, a gana de conquistar apenas o material, de buscar o reconhecimento não do que você tem e sim do que você é, reconhecer o valor das pessoas, honrar a própria história sem julgar e criticá-la. Os bens materiais permitem vivenciar somente o estado de estar, onde alcança espasmos momentâneos de alegria, raso, veloz, e entra em um processo obsessivo de consumo único. Porém a felicidade vem daquilo que é essencial, como amizade, lealdade, fraternidade, sexualidade, religiosidade, entre outros.

Se a felicidade faz parte intrínseca da natureza, pode-se dizer que a Psicologia Positiva também trabalha com o conceito de bem-estar subjetivo tanto cognitiva quanto afetiva, incluindo experiências emocionais agradáveis, baixos níveis de humores negativos e alta satisfação em relação à vida.

 “A felicidade, que é o objetivo da Psicologia Positiva, não se resume a alcançar estados subjetivos momentâneos. Felicidade também inclui a idéia de uma vida autêntica (…) e autenticidade descreve o ato de obter gratificação e emoção positiva através do exercício das próprias forças pessoais, que são caminhos naturais e permanentes para a gratificação.” (Seligman, 2004, p. 288)

 A ciência hoje, demostra diversas características que demonstram o indivíduo feliz. Seligman (2004) sugere que quando as pessoas estão mais felizes, maior e sua resistência a dor, melhor sua saúde, convivência e sua qualidade de vida segura e que também as emoções positivas desfazem as emoções negativas vivenciadas.

Lyubormirsky (2001 apud PASSARELI, 2007) descreve a propensão às pessoas felizes apreciarem mais o que pertencem a elas, se desprendendo daquilo que não possuem. De acordo com Tiba (2012) é uma boa autoestima que permite viver com esse sábio e feliz equilíbrio. Giannetti (2002) defende que estar bem consigo mesmo é em parte o objetivo, e em parte subjetivo, pois, depende de como as pessoas se sentem e avaliam as suas vidas.

Seligman (2004) acredita que existem forças humanas que desempenham um papel importante na proteção contra a doença mental: coragem, foco no futuro, optimismo, competências interpessoais, fé, trabalho ético, esperança, honestidade, perseverança, a capacidade de “flow” e de compreensão. Para Seligman (2004) apenas conhecer os danos e as fraquezas pessoais não é suficiente para promover a prevenção. É necessário desenvolver as pesquisas sobre competências e as habilidades dos indivíduos e sobre as suas forças, e ao fazê-lo estaremos a dar um grande passo no sentido da prevenção.

Rangé (2001), acredita que as pessoas possuem forte tendência em estipular uma grande variedade de metas e propósitos. Assim, apesar de diferirem em relação ao que lhe traz felicidade, as pessoas constroem e percorrem suas metas, o que demonstra um esforço para dar sentido às suas vidas. Sendo assim, acredita-se que este fator, influencia a satisfação ou não das pessoas, já que o fato da pessoa ter ou não alcançado as metas planejadas está intimamente ligado à satisfação de vida, ou seja, a interpretação que fazemos dos fatos está altamente relacionada à sensação do bem-estar subjetivo.

De acordo com diversas literaturas, pode-se dizer que na psicologia positiva também está incluso psicologia cognitiva, no qual contribui como fator fundamental a felicidade, fazendo com que todos os demais fatores, tenham ou não relevância e um significado para a percepção de felicidade.  

Para Graziano (2005) a felicidade e a qualidade de vida estão intimamente relacionadas com a capacidade de controlar a consciência, como o florescimento definido por Keyes & Haidt (2003), como sendo uma condição que permite o desenvolvimento pleno, saudável e positivo dos aspectos psicológicos, biológicos e sociais dos seres humanos. Lyubomirsky (2001 apud GRAZIANO, 2005) afirma que ao estudar a felicidade humana, notou-se a importância dos múltiplos processos cognitivos e motivacionais que moderam o impacto que o ambiente externo pode exercer no bem-estar subjetivo. Além do que, ao compreende-la, percebera na sua essência a capacidade que cada pessoa possui de mudar o estado emocional, contribuindo a felicidade, afinal os pensamentos, sentimentos e estados mentais afetam fisicamente, e o oposto também ocorre, por este motivo a Psicologia vista de forma Positiva torna-se um aliado extraordinário para o processo de transformação das pessoas.

 

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 CORTELLA, Mario Sergio. Qual é a tua obra?: inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética. Petropolis/RJ: Editoria Vozes, 2014.

 DIENER, Ed, LUCAS, Richard E. & OISHI, Shigehiro. Subjetive well-being: The science of happiness and life satisfaction. In: SNYDER, C. R. & LOPEZ, S. orgs. Handbook of Positive Psychology. New York, Oxford,p. 63- 73. 2002.

 GRAZIANO, L. D. A Felicidade Revisitada: Um estudo sobre o bem-estar subjetivo na visão da Psicologia Positiva. Tese de Doutorado do Instituto de Psicologia da USP. São Paulo, 2005. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47131/tde-23052006-164724/pt-br.php> Acesso em: 10 de nov. de 2014.

 KEYES, C. L. M., & HAIDT, J. Flourishing: Positive psychology and the life well lived. Washington DC: American Psychological Association, 2003.

 PASSARELI, P. M.& SILVA, J. A. da. Psicologia positiva e o estudo do bem-estar subjetivo. Artigo científico do Scielo. 2007. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/estpsi/v24n4/v24n4a10.pdf> Acesso em: 01 set. 2012

 RANGÉ, B. Psicoterapias Cognitivo-Comportamentais: Um diálogo com a psiquiatria. Porto Alegre: Artmed, 2001.

 RUSSEL, Bertrand. A conquista da felicidade. Tradução: Luis Guerra. Rio de Janeiro: Ediouro. 2003.

 SHELDON, Kennon M. & KING, Laura. Why Positive Psychology Is Necessary. Washington DC: American Psychological Association, 216-217. 2001.

 SELIGMAN, Martin E. P. Felicidade Autêntica: Usando a nova Psicologia Positiva para a realização permanente. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

 SELIGMAN, M. E. P., STEEN, T. A., PARK, N., & PETERSON, C. Positive Psychology Progress; empirical validation of Intervention. American Psychological Association, n. 5, vol. 60, p. 410-421, 2005 

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