A TIRANIA DA ESPERANÇA: QUANDO ESPERAR QUE O RELACIONAMENTO MUDE SE TORNA CUMPLICIDADE COM O PRÓPRIO SOFRIMENTO
Existe uma ilusão tão profundamente enraizada na experiência humana que poucos ousam questioná-la: a de que o amor, por si só, transforma. Que basta esperar, compreender, perdoar mais uma vez — e a pessoa ao seu lado finalmente se tornará aquilo que você sempre soube que ela poderia ser. Essa crença não é ingênua. Ela é perigosamente sofisticada, neurologicamente reforçada e culturalmente celebrada como virtude suprema. Chamá-la de esperança seria generoso demais. Trata-se, na verdade, de uma forma refinada de cumplicidade — um mecanismo pelo qual nos tornamos cúmplices do próprio aprisionamento.
Porque relacionamentos abusivos não prosperam apenas pela violência explícita. Eles prosperam, sobretudo, pela esperança crônica — essa fé inabalável de que “desta vez será diferente”, de que “depois das festas ele vai mudar”, de que “no ano novo ela finalmente vai me valorizar”. A esperança, nesse contexto, deixa de ser virtude e se torna anestesia relacional: um modo de interromper temporariamente a dor sem jamais tratar a ferida que a provoca.
Schopenhauer tinha razão quando afirmou que o ser humano é guiado na sua busca pela felicidade não pela razão, mas pela ilusão. Em relacionamentos abusivos, essa ilusão assume forma específica: a ilusão projetiva. Você não enxerga a pessoa que está diante de você — enxerga aquilo que ela poderia ser se apenas mudasse, se apenas quisesse, se apenas te amasse do jeito que você merece. E nessa projeção interminável, você perde de vista não apenas quem o outro é de fato, mas também quem você está se tornando ao permanecer.
Este texto não é sobre otimismo relacional. É sobre a tirania da esperança — e sobre como recuperar a soberania sobre a própria vida afetiva antes que a próxima promessa vazia chegue.
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Quando a Esperança Substitui a Ação
Saint-Exupéry escreveu que a felicidade só pode ser encontrada no calor das relações humanas, que apenas um bom amigo pode nos levar pela mão e nos libertar. A frase é bela. Porém, ele não previu a pergunta que assombra milhões de pessoas hoje: e quando a mão que deveria libertar é exatamente aquela que aprisiona? E quando o calor das relações humanas queima, machuca, deixa cicatrizes invisíveis que ninguém mais vê — exceto você, no silêncio da madrugada, quando a esperança finalmente cansa e o corpo grita aquilo que a mente insiste em negar?
A filósofa Simone Weil fez uma distinção devastadora entre atenção verdadeira e ilusão projetiva. A atenção verdadeira exige que você veja o outro exatamente como ele é — com suas limitações, suas escolhas, seus padrões repetidos. A ilusão projetiva, por outro lado, é a fantasia que você constrói sobre quem o outro poderia ser se apenas as circunstâncias mudassem, se você amasse melhor, se você fosse mais paciente, mais compreensivo, mais silencioso diante da violência disfarçada de “momento difícil”.
Iris Murdoch, filósofa e romancista irlandesa que poucos conhecem, chamou isso de fantasia consoladora: a narrativa que construímos para suportar o insuportável. “Ele está passando por uma fase.” “Ela não é assim de verdade.” “Depois que conseguir aquele emprego, tudo vai melhorar.” “No ano novo, começamos do zero.” Essas frases não são esperança — são anestesia cronológica aplicada a relacionamentos. Elas funcionam exatamente como as promessas de ano novo: oferecem alívio temporário, ativam circuitos de recompensa no cérebro, e garantem que absolutamente nada mude de fato.
Porque existe um componente neurológico perverso nessa dinâmica: o núcleo accumbens, estrutura cerebral envolvida na antecipação de recompensa, libera dopamina não quando você recebe amor, respeito, reciprocidade — mas quando você imagina que finalmente vai recebê-los. A promessa de mudança já basta para ativar prazer. “Dessa vez ele realmente prometeu que vai parar.” “Ela disse que percebeu o quanto me machucou.” Seu cérebro recebe a dose de satisfação antecipada e, com isso, perde parte significativa da urgência de agir.
Você fica viciado na promessa, não na prática. Viciado na esperança, não na transformação real. Tudo isso retorna ao mesmo ponto: a esperança, aqui, não é virtude — é um mecanismo sofisticado de manutenção do vínculo adoecedor, sustentado por antecipação dopaminérgica, negação cognitiva e adiamento existencial.
E enquanto isso, os ciclos de promessa-decepção se repetem. A violência emocional — sutil, invisível, sempre negada — continua corroendo sua autoestima. O gaslighting faz você questionar sua própria percepção da realidade. O controle se disfarça de cuidado. A manipulação se veste de vulnerabilidade. E você, exausto, continua esperando. Porque a esperança crônica em relacionamentos abusivos não é virtude — é estratégia de sobrevivência psíquica. É o modo que você encontrou de não ter que encarar a verdade insuportável: que talvez você precise sair. Que talvez não haja salvação possível para algo que nunca foi amor de fato.
Quando Esperar Aprisiona
Gaston Bachelard, fenomenólogo francês que poucos leem hoje, dedicou sua vida a estudar como habitamos os espaços — não apenas físicos, mas afetivos. Ele criou os conceitos de topofilia (afeto pelos lugares) e topofobia (medo disfarçado de apego). Em relacionamentos abusivos, vivemos uma forma específica de topofobia relacional: o medo de sair disfarçado de amor que permanece.
A “casa afetiva” — aquele relacionamento que deveria ser refúgio, segurança, lugar onde você pode baixar a guarda — se torna prisão. Você caminha em ovos dentro da própria relação. Mede palavras. Evita temas. Antecipa humores. Ajusta comportamentos para não despertar a ira, a frieza, o abandono emocional temporário que virá disfarçado de “preciso de um tempo”. Você habita a relação como quem habita território inimigo — sempre alerta, sempre em defesa, nunca em paz.
Edith Stein, filósofa e fenomenóloga alemã, estudou profundamente a natureza da empatia. Ela fez uma distinção crucial: empatia verdadeira é um ato cognitivo rigoroso — você compreende o sofrimento do outro sem se dissolver nele. Porém, em relacionamentos abusivos, a empatia se transforma em autoaniquilação. Você sente tanto pelo outro — pelas suas dores, suas feridas, suas justificativas — que deixa de sentir por si mesmo. Você se dissolve. Perde bordas. Sua dor se torna menos importante que a dor de quem te machuca. E assim, paradoxalmente, você cuida de quem te adoece enquanto negligencia a própria saúde emocional.
A neurociência confirma o que esses filósofos intuíram: esperar cronicamente por mudança em um relacionamento que não muda ativa os mesmos circuitos neurais que a ansiedade generalizada. O eixo hipotálamo-pituitária-adrenal libera cortisol de forma persistente. O corpo entra em estado de alerta crônico. A tensão muscular se instala nos ombros, na mandíbula, no estômago. O sono se fragmenta. O default mode network — rede neural responsável por narrativas autobiográficas — roda em loop infinito: “Será que vai mudar? O que eu fiz de errado? Se eu for mais paciente, talvez…”
Você não está apenas cansado. Você está exausto existencialmente. Porque viver esperando que o outro mude é viver perpetuamente suspenso entre “como era antes” (a idealização do início) e “como será depois” (a promessa que nunca chega). E nessa suspensão, você nunca está aqui — plenamente presente, habitando a realidade do relacionamento como ele é agora.
A violência emocional mais insidiosa não é aquela que grita. É aquela que sussurra: “Você está exagerando.” “Eu nunca disse isso.” “Você é sensível demais.” “Se você me amasse de verdade, entenderia.” Gaslighting é a arte de fazer você duvidar da própria sanidade. E quanto mais você duvida de si, mais você se apega à esperança de que o outro, finalmente, validará sua percepção, reconhecerá o dano, mudará.
Essa esperança é a prisão.
O Momento em Que Você Para de Esperar
Emmanuel Levinas, filósofo lituano que revolucionou a ética contemporânea, propôs que somos infinitamente responsáveis pelo Outro. A responsabilidade ética nasce antes mesmo da liberdade — você é responsável simplesmente porque o Outro existe diante de você. É uma ideia poderosa. Porém, em relacionamentos abusivos, essa responsabilidade sem reciprocidade se torna armadilha existencial.
Você se sente eternamente responsável pelo bem-estar, pela felicidade, pela transformação de alguém que nunca assume responsabilidade por você. Você carrega o peso da relação sozinho. Você faz terapia para “melhorar a comunicação” enquanto o outro se recusa a reconhecer que há problema. Você perdoa infinitamente porque “compreende” — enquanto suas próprias feridas nunca são sequer vistas.
Gabriel Marcel, outro filósofo francês esquecido pelo mainstream, fez uma distinção fundamental entre problema e mistério. Problemas são questões que podem ser resolvidas com método, análise, técnica. Mistérios são realidades nas quais estamos imersos — não podemos resolvê-las porque fazemos parte delas.
Relacionamentos abusivos frequentemente são tratados como problemas a resolver: “Se eu mudar minha abordagem…” “Se eu ler mais sobre comunicação não-violenta…” “Se eu for para terapia de casal…” Porém, alguns relacionamentos não são problemas. São mistérios que exigem ruptura, não solução. A saída não é encontrar a chave certa — é reconhecer que você está tentando abrir uma porta que nunca existiu.
E aqui reside o ponto de virada radical: a reconquista da soberania relacional. Não se trata de abolir completamente a esperança — ela tem função adaptativa quando aplicada a contextos que podem, de fato, mudar. Trata-se de deslocar o poder: de parar de esperar que o outro finalmente te veja, te valorize, te respeite — e começar a agir a partir de quem você é, não de quem o outro poderia se tornar.
Trata-se de reconhecer que a transformação de um relacionamento exige movimento de ambas as partes. E se apenas uma pessoa está fazendo terapia, lendo, refletindo, mudando — enquanto a outra permanece intocada, negando, culpabilizando — então não há relacionamento. Há monólogo disfarçado de diálogo.
A pergunta que T.S. Eliot nos legou ecoa aqui com força devastadora: não há maior agonia do que a agonia de viver uma vida não autêntica. Relacionamentos sustentados por esperança vazia, por promessas que nunca se cumprem, por versões idealizadas que nunca se materializam — esses são relacionamentos devolutos. Você está presente fisicamente, ausente ontologicamente. Você performa amor enquanto morre por dentro.
E a pergunta que ninguém quer fazer, mas que não pode mais ser adiada, é esta:
Se este relacionamento tivesse que continuar exatamente como é hoje — sem mudanças, sem promessas, sem a esperança de que “um dia será diferente” — você o aceitaria?
Não o relacionamento idealizado que vocês “poderiam ter”. Não a versão romântica do início que você tanto revisita. Este relacionamento. Agora. Exatamente como ele é.
Se a resposta for não — se houver medo, exaustão, ou a sensação clara de que você está se dissolvendo — então a esperança que você cultiva não é virtude. É cumplicidade com o próprio aprisionamento.
Protocolo de Soberania Relacional:
Identifique o sinal de saturação relacional.
Não o justifique. Não o relativize. Sinta-o no corpo como evidência irrefutável de que algo está profundamente errado. Pode ser tensão no estômago ao ver uma mensagem dele. Pode ser o medo de contrariar. Pode ser a sensação de caminhar em ovos dentro da própria casa. Pode ser a exaustão de sempre explicar, sempre se desculpar, sempre ser quem cede. O corpo sabe antes que a mente se permita aceitar.
Mapeie as microdecisões que sustentaram o padrão.
Sem autopiedade. Sem narrativas de vítima — mas também sem culpa paralisante. Nomeie-as com precisão: foram escolhas feitas sob coação emocional, sob medo de abandono, sob esperança ilusória. Você silenciou quando deveria ter gritado. Aceitou desculpas vazias como se fossem mudanças reais. Priorizou a paz superficial sobre a verdade necessária. Repetiu automaticamente aquilo que nunca examinou com honestidade radical.
Execute a ação incongruente. Agora.
Uma só. Pequena o suficiente para ser imediatamente viável. Grande o suficiente para romper a cadeia de submissão ao padrão abusivo. Não prometa fazer depois do Natal. Não planeje para o ano novo. Faça agora. Diga não sem justificativa elaborada. Estabeleça um limite claro. Procure ajuda profissional. Converse com alguém de confiança que você vinha evitando por vergonha. Uma única ação incongruente já inicia o processo de recuperação da autoria sobre a própria vida — algo que promessas grandiosas nunca alcançam.
Repita na continuidade.
John Schaar, sociólogo, disse algo devastador: o futuro não é um lugar para onde estamos indo, mas o lugar que estamos criando. O caminho para ele não é encontrado, mas construído — e o ato de fazê-lo muda tanto o realizador quanto o destino.
Seu futuro relacional não será diferente porque o calendário virou. Ele será diferente porque você decidiu construí-lo de forma diferente — escolha por escolha, limite por limite, verdade por verdade dita em voz alta.
E aqui Philip Chesterfield nos oferece o princípio final: a firmeza de propósito é um dos mais necessários elementos do caráter. Sem ela, mesmo o gênio desperdiça seus esforços num labirinto de inconsistências. Aplicado a relacionamentos: sem firmeza, você vagará eternamente no labirinto da esperança crônica, repetindo os mesmos ciclos, acreditando nas mesmas promessas, morrendo lentamente dentro de uma relação que nunca foi lar.
Simone Weil nos deixou uma frase que poucos realmente compreendem: “O amor não consola, transforma.” Se o que você vive te consola com promessas, com momentos esporádicos de ternura entre longos períodos de frieza, com desculpas elaboradas que nunca viram mudança concreta — então aquilo não é amor. É ilusão projetiva disfarçada de relacionamento.
É a autoria existencial que morre quando deixamos de assumir que nenhuma força externa — tempo, técnica, discurso terapêutico unilateral ou marco simbólico — pode substituir o enfrentamento da verdade. Há relações que não entram em crise porque algo deu errado, mas porque jamais se constituíram como espaço ético de encontro. O que chamamos de esperança, nesses casos, é apenas o adiamento organizado da lucidez.
A vida afetiva que você vive não é algo que acontece a você. É algo que você constrói — ou permite que destruam — escolha por escolha, silêncio por silêncio, perdão por perdão dado sem arrependimento recebido. E essa construção não acontece em momentos grandiosos de revelação. Ela acontece no acúmulo imperceptível de instantes onde você decide: eu mereço ser tratado com dignidade, e se este relacionamento não oferece isso, então ele não merece minha permanência.
O Natal está a poucos dias. E você sabe exatamente qual conversa vem adiando, qual limite precisa estabelecer, qual verdade precisa dizer em voz alta. De isto de presente para você!
A pergunta permanece, implacável, inescapável: você viveria este relacionamento para sempre, exatamente como ele é hoje?
Se a resposta for não, então você sabe o que precisa ser feito.
Não há mais orações, padres e pastores, não há gurus, milagres e muito menos magia que farão isso por você. Não há terapeutas que curarão quem se recusa a mudar. Não há ano novo que apagará padrões que você continua permitindo. Há apenas você, aqui, agora, decidindo se continuará sendo cúmplice do próprio aprisionamento — ou se finalmente reconquistará a soberania sobre a própria vida.
Não em janeiro. Não depois das festas. Agora.
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