ARTIGOS (DE MINHA AUTORIA),  RELACIONAMENTO

PARE DE TENTAR SER DEUS NA VIDA DE QUEM VOCÊ DIZ AMAR

Existe um assassinato silencioso acontecendo agora mesmo, neste exato instante, em milhares de relações ao redor do mundo. Não envolve violência física. Não deixa marcas visíveis. Mas é letal. É o assassinato da alteridade — o momento preciso em que você transforma o Outro em objeto, em função, em extensão domesticada de suas próprias necessidades.
Você olha para a pessoa ao seu lado e acredita que a vê. Mentira. O que você vê é um mosaico de projeções, uma colagem de expectativas, um espelho distorcido onde sua própria imagem se reflete travestida de intimidade. O Outro desapareceu. No lugar dele, você instalou um personagem cuidadosamente editado para caber nas molduras que você construiu antes mesmo de conhecê-lo.
E quando isso acontece — quando a alteridade morre — a relação se transforma em necrofilia emocional. Você está em um vínculo com um cadáver simbólico, tentando reanimar através de expectativas, cobranças, tentativas desesperadas de controle aquilo que você mesmo assassinou: a presença viva, indomesticável, radicalmente Outra daquele ser humano.
A questão que perfura todas as camadas de convenção social, todos os manuais de relacionamento, toda a arquitetura do que chamamos de intimidade é esta: você consegue sustentar a responsabilidade ética de estar diante de alguém que jamais será completamente compreensível? Consegue renunciar à fantasia do controle total? Consegue aceitar que o Outro permanecerá, para sempre, um território inexplorado — e que isso não é uma falha, mas a própria condição de possibilidade para que exista encontro?
Porque aqui está o paradoxo brutal que ninguém quer enfrentar: quanto mais você tenta capturar o Outro, mais ele escapa. Quanto mais você o reduz a categorias — “meu marido”, “minha esposa”, “meu parceiro” — mais você destrói precisamente aquilo que inicialmente te atraiu. A alteridade. O mistério. A impossibilidade de domesticação completa.
Pense na trajetória padrão de uma relação. No início, existe fascínio. Existe espanto. Você está diante de alguém que te surpreende, que te desestabiliza, que carrega consigo um universo inteiro que você não controla. Isso te excita. Isso te mobiliza. Isso te faz sentir vivo. Mas então — e aqui começa a tragédia — você decide que precisa “conhecer melhor” essa pessoa. E nessa operação aparentemente inofensiva, você inicia o projeto de assassinato.
Conhecer melhor, na prática cotidiana, significa mapear. Catalogar. Prever. Reduzir a complexidade infinita a padrões administráveis. Você começa a construir um arquivo mental: “Ele é assim quando está estressado”, “Ela sempre reage desse jeito quando sente ciúmes”, “Posso prever como vai responder a isso”. E cada nova entrada nesse arquivo é uma pequena morte da alteridade. Você está substituindo a pessoa viva por um modelo operacional. Um simulacro.
O que chamamos de intimidade, muitas vezes, é apenas familiaridade com nosso próprio mapa mental do Outro. Você deixou de se relacionar com a pessoa real há muito tempo. Agora você se relaciona com sua representação interna dela. E quando a pessoa real ousa se comportar de maneira que não se encaixa no mapa — quando ela te surpreende, te contradiz, te desafia — você não celebra a alteridade ressurgente. Você se irrita. Se frustra. Se sente traído. Porque ela ousou ser Outra quando você já a havia capturado.
Aqui está a ferida narcísica que ninguém quer admitir: você não quer realmente o Outro. Você quer um reflexo ajustado de si mesmo. Quer alguém que confirme suas narrativas, que valide suas percepções, que se encaixe perfeitamente no roteiro que você escreveu antes mesmo de conhecê-lo. O verdadeiro Outro — aquele que emerge com toda sua alteridade radical, com toda sua irredutibilidade a qualquer categoria que você possa criar — esse te assusta. Porque exige de você algo que nossa cultura nos ensinou a evitar a todo custo: a renúncia ao controle.
E antes que você se defenda dizendo que foi você quem foi capturado, domesticado, reduzido — sim, isso também aconteceu. Você também foi assassinado por alguém que te transformou em objeto. Você também conhece a dor de ser visto apenas como função, como extensão, como personagem no roteiro alheio. Mas reconhecer isso não te absolve de examinar onde você reproduz exatamente o que te feriu. Onde você, agora, captura. Onde você, agora, domestica. Onde você, agora, assassina a alteridade de quem está ao seu lado.
E então você constrói jaulas. Chama de compromisso. De expectativas legítimas. De construção conjunta. Observe a operação sutil: você está tentando fazer o Outro caber em estruturas que neutralizam sua alteridade. Não é diálogo — é domesticação. Não é encontro — é colonização.
A responsabilidade ética que emerge desse reconhecimento é vertiginosa. Porque não é uma responsabilidade que você escolhe. Não é uma obrigação moral que você decide assumir por ser uma “boa pessoa”. É anterior a qualquer escolha. É constitutiva. O Outro te convoca a uma responsabilidade que te constitui enquanto ser capaz de relação autêntica, quer você aceite conscientemente ou não.
Essa responsabilidade não é fazer o Outro feliz. Não é atender suas expectativas. Não é mesmo compreendê-lo completamente — porque compreensão total é impossível e, se fosse possível, seria simplesmente o fim. A responsabilidade é sustentar a relação com a alteridade mesmo quando ela incomoda, frustra, desestabiliza. É renunciar ao projeto de captura. É aceitar que você estará sempre diante de um mistério — e que isso não é um problema a ser resolvido, mas a própria condição para que exista desejo, espanto, vida.
Pense nas relações que morreram ao seu redor. Quantas delas sucumbiram precisamente porque alguém conseguiu o que queria — capturou completamente o Outro? O casamento que se tornou administrativo. A parceria que virou rotina mecânica. O vínculo que perdeu toda vitalidade. O que morreu ali não foi o amor. Foi a alteridade. E sem alteridade, não há relação — há apenas coabitação entre fantasmas.
Agora observe o custo dessa operação em sua própria saúde mental. A ansiedade crônica de tentar controlar alguém que, por definição, é incontrolável. A frustração permanente diante de expectativas que nunca serão plenamente atendidas porque são construídas sobre a fantasia de um Outro domesticado. A raiva que surge quando a pessoa real ousa desafiar o personagem que você criou para ela. O ressentimento acumulado porque você investiu toda sua energia tentando fazer o Outro caber em suas categorias, e ele continua escapando.
Estamos exaustos. E deveríamos estar. Porque estamos tentando fazer o impossível — capturar o infinito. Transformar a alteridade radical em objeto administrável. E quanto mais tentamos, mais a relação morre, e mais intensificamos os esforços de controle, criando uma espiral descendente que só pode terminar em ressentimento, tédio ou colapso.
A alternativa não é romantizar a alteridade. Não é celebrar cinicamente a impossibilidade de encontro genuíno. É aceitar a tensão. É sustentar o paradoxo. Você nunca conhecerá completamente o Outro. E é precisamente isso que permite que exista relação viva.
Há uma sabedoria antiga que ressoa brutalmente aqui: quando Sólon disse a Creso que não se pode julgar a felicidade de alguém até o final de sua vida, ele estava apontando para algo que transcende a questão temporal. Estava revelando que você nunca possui a narrativa completa do Outro. Nem mesmo a pessoa possui sua própria narrativa completa enquanto está viva. O rei esperava ser reconhecido como o mais feliz dos homens — rico, poderoso, no auge. Mas Sólon recusou cristalizar essa narrativa. Recusou transformar uma vida em processo numa categoria definitiva.
Se você conhecesse completamente o Outro, ele estaria morto. Seria um objeto em sua consciência, não um sujeito no mundo. A fortuna pode mudar até o último momento — não apenas a fortuna externa, mas a própria configuração do ser. A pessoa que você julgou conhecer ontem pode ser radicalmente Outra amanhã. E você, ao insistir em mantê-la presa à imagem cristalizada, está impedindo não apenas a vida dela, mas a possibilidade mesma de relação.
Então a pergunta se reformula: você consegue amar sem capturar? Consegue se vincular sem colonizar? Consegue aceitar que a pessoa ao seu lado permanecerá, para sempre, parcialmente opaca — e que isso não é uma falha dela, nem sua, mas a estrutura mesma da alteridade?
Nas relações familiares, isso ganha contornos ainda mais complexos. Observe como tratamos filhos como extensões. Como propriedades. Como projetos nossos. “Meu filho vai ser médico”, “Minha filha vai se casar bem”, “Meu garoto vai me dar orgulho”. Onde está a criança real nessas frases? Desapareceu. Foi substituída por uma projeção narcísica. Por um roteiro que você escreveu antes mesmo dela nascer.
E quando ela ousa ser Outra — quando escolhe caminhos que não estão no seu script, quando manifesta desejos que contradizem seus planos — você não celebra a emergência de um ser autônomo. Você se sente traído. Fracassado. Porque você confundiu parentalidade com controle. Confundiu amor com colonização.
O mesmo acontece na direção inversa. Pais envelhecendo. Você os viu de uma forma a vida inteira. Fortes. Provedores. Referências. E então o tempo os transforma. O corpo falha. A memória vacila. E você se irrita. Porque eles ousaram envelhecer. Ousaram ser Outros em relação à imagem que você construiu e cristalizou. A responsabilidade ética aqui é brutal: sustentar a alteridade do pai que já não é o pai que você mapeou. Da mãe que já não corresponde ao personagem materno que você internalizou.
A saúde mental — individual e coletiva — começa quando você para de tentar capturar. Quando você renuncia à fantasia do controle total. Quando você aceita que estará sempre diante de mistérios ambulantes. E que isso não é uma falha do sistema — é a própria condição para que exista vida.
A alegria não vem da captura. Vem do encontro. E encontro só é possível quando há dois — dois Outros radicais, irredutíveis um ao outro, que aceitam a responsabilidade ética de sustentarem a relação mesmo sem garantias, sem mapas completos, sem controle total.
Você quer autenticidade? Então precisa aceitar sua própria alteridade também. Precisa reconhecer que você mesmo é parcialmente opaco para si próprio. Que você também escapa às categorias que tenta impor a si mesmo. Que você também é Outro — inclusive para você.
E aqui reside a possibilidade de libertação. Quando você para de performar para ser “compreendido”. Quando você renuncia ao projeto impossível de se tornar completamente transparente, completamente conhecido, completamente capturado — nem pelo Outro, nem por si mesmo.
O que surge daí não é caos. Não é relativismo vazio. É a possibilidade de relações vivas. De vínculos que respiram. De encontros que não se esgotam na familiaridade. Porque sempre haverá algo mais. Sempre haverá alteridade ressurgente. Sempre haverá o espanto de estar diante de alguém que nunca será totalmente seu — e que, precisamente por isso, pode ser parceiro de jornada.
Então observe suas relações agora. Quantas são com pessoas vivas? Quantas são com cadáveres que você mantém animados artificialmente através de expectativas, controles, projeções? Quantas vezes hoje você viu realmente o Outro — e quantas vezes você viu apenas seu mapa mental dele?
A responsabilidade ética que te convoca não é confortável. Não vem com manual. Não oferece garantias. Exige que você sustente a tensão. Que você aceite o incômodo. Que você renuncie ao projeto de domesticação.
Mas é só aí — nessa renúncia radical ao controle — que a relação pode começar. De verdade. Com pessoas vivas. Com alteridades que te espantam, te desafiam, te chamam a ser mais do que você imaginava ser possível.
Porque o Outro não é um problema a ser resolvido. É um chamado a ser respondido.
Esta é a única relação que vale a pena. A única que não mata. A única onde você pode, finalmente, parar de tentar ser Deus — onisciente, onipotente, controlador de alteridades — e aceitar ser humano. Limitado. Incompleto. Imperfeito. E precisamente por isso, capaz de encontro genuíno.
Sem o Outro, você não existe como ser relacional. A alteridade não é obstáculo ao encontro — é sua condição de possibilidade.
E você responde não tentando capturá-lo, mas aceitando estar diante dele — infinitamente responsável, infinitamente incapaz de controle total, infinitamente vivo na tensão do encontro.

#alteridaderadical #responsabilidadeética #relaçõesautênticas #saudemental #desenvolvimentohumano #consciênciarelacional #intimidadeconsciente #psicologiaprofunda #transformaçãopessoal #relacionamentossaudáveis #autoconhecimento #marcellodesouza #marcellodesouzaoficial #coachingevoce

Quer se aprofundar ainda mais nessa jornada de transformação cognitiva e relacional?
Acesse meu blog onde publico centenas de artigos sobre desenvolvimento cognitivo comportamental humano e organizacional, e sobre relações humanas saudáveis e evolutivas. Lá você encontrará análises densas, provocações necessárias e ferramentas práticas para uma vida mais consciente e autêntica.
www.marcellodesouza.com.br

Deixe uma resposta