ARTIGOS (DE MINHA AUTORIA),  RELACIONAMENTO

APRENDE A SUBIR

Tem um momento.
Você está ali, no meio da discussão — ou do silêncio, que é discussão sem som —, e de repente o corpo sabe antes da cabeça: já estivemos aqui.
Não é memória. É reconhecimento muscular.
O estômago se fecha sozinho, como quem aprendeu a se defender antes do golpe chegar. A mandíbula trava no exato ângulo em que sempre trava. As mãos procuram o que fazer — mexer no cabelo, cruzar os braços, apertar o celular — qualquer coisa para não sentir que estamos presos dentro de um disco arranhado, tocando sempre o mesmo segundo de música.
E o pior: o outro também sabe.
Vocês dois sabem. E mesmo sabendo, continuam dançando.
Um passo pra frente. Dois pra trás. Giro. Repete.
Isso não é amor. Mas também não é falta dele.
É outra coisa. Algo que não tem nome nos livros, porque os livros ainda insistem em separar o que é “saudável” do que é “tóxico” — como se a vida emocional humana coubesse em duas gavetas limpas.

A GEOMETRIA SECRETA DO APRISIONAMENTO
Existe uma física das relações que ninguém ensinou.
Não é química — esse todo mundo conhece, é aquela coisa de “nos atraímos”, “bateu”, “conexão instantânea”.
É geometria viva.
Em algum momento da infância ou da adolescência, seu corpo aprendeu uma forma. Uma curvatura específica. Um jeito de se organizar emocionalmente no espaço que ocupava ao lado de quem deveria te amar.
Você virou o que precisava virar para ser notado. Ou para não ser abandonado. Ou para não ser machucado demais.
Alguns viraram conchas. Aprenderam a se fechar, a engolir, a absorver tudo sem revidar. Viraram o recipiente onde os outros despejam o que não querem carregar. Aprenderam que amar é caber no espaço negativo do outro.
Outros viraram lâminas. Aprenderam a se projetar, a ocupar, a empurrar para fora tudo que dói por dentro. Viraram a saliência que invade território alheio sem pedir licença. Aprenderam que amar é preencher o vazio do outro antes que ele perceba que você também tem vazio.
E aí vocês se encontram.
Concha e lâmina.
Côncavo e convexo.
O encaixe é perfeito. Tão perfeito que parece destino. Tão perfeito que dói na medida exata em que você acha que dor é prova de profundidade.
Mas escuta isso — escuta de verdade:
Encaixe perfeito não é amor. É memória procurando completar o que ficou inacabado.

POR QUE A MENTE INSISTE EM VOLTAR PRO MESMO LUGAR
Seu cérebro não quer felicidade. Ele quer previsibilidade.
Ele quer o que já conhece, mesmo que o que já conhece te destrua aos poucos. Porque o conhecido, mesmo sendo uma prisão, tem um chão. E o desconhecido é queda livre.
Então você volta. Sempre volta.
Volta porque o corpo foi treinado pra reconhecer aquele tipo de dor como “casa”. Aquele tom de voz irritado, aquele silêncio prolongado, aquela sensação de nunca ser suficiente — tudo isso parece íntimo porque já esteve no quarto da sua infância, na sala da sua adolescência, no primeiro amor que te ensinou que amar é se contorcer até caber.
E tem mais: quando o padrão finalmente se repete — quando a briga explode, quando a distância se instala, quando a decepção confirma o que você já esperava —, uma parte de você sente alívio.
Não é masoquismo. É reconhecimento.
“Ah, aqui eu sei onde estou. Aqui eu sei o que fazer. Aqui eu não preciso inventar um jeito novo de existir.”
Só que esse alívio tem preço.
O preço é que vocês nunca saem do lugar. Giram, giram, giram — e chamam isso de “esforço”, de “luta pelo relacionamento”, de “amor verdadeiro que enfrenta dificuldades”.
Mas não é.
É recusa de crescer disfarçada de fidelidade.

O DIA EM QUE O CÍRCULO RANGE
E aí acontece.
Às vezes é um dia específico. Às vezes é um acúmulo que vira trovoada interna.
Um de vocês — não importa quem — acorda com uma pergunta nova:
“E se eu não precisar mais ser essa forma?”
E se a concha puder ter espinhos? E se a lâmina puder ter curvas? E se eu puder ser os dois, ou nenhum, ou outra coisa que ainda não tem nome?
Quando isso acontece, o outro sente.
Sente porque o encaixe começa a falhar. A geometria não fecha mais. O espaço que sempre foi preenchível de repente tem resistência. A saliência que sempre avançava de repente encontra limite.
E aí começa o verdadeiro teste:
Vocês vão tentar voltar à forma antiga — porque a forma antiga é segura, é conhecida, é onde vocês sabem quem são —, ou vão permitir que algo absolutamente novo e assustador aconteça?

A ESPIRAL NÃO É METÁFORA. É ESCOLHA BIOLÓGICA.
A espiral não nega o círculo. Ela não apaga o passado. Ela não finge que vocês nunca foram disfuncionais.
A espiral usa o círculo como degrau.
Significa isso: o tema volta. A briga sobre o mesmo assunto volta. O medo antigo volta. A insegurança volta.
Mas — e aqui está o milagre pequeno e violento — vocês voltam diferentes.
Porque dessa vez, quando a concha começar a se fechar, ela vai sentir o movimento e dizer: “Opa. Já sei esse caminho. Vou tentar não fechar completamente.”
E quando a lâmina começar a projetar, ela vai sentir o impulso e dizer: “Opa. Já sei esse movimento. Vou tentar segurar antes de invadir.”
Não é perfeição. É consciência em tempo real.
É a diferença entre ser jogado pela onda e surfar nela.
Vocês vão errar de novo. Vão cair de novo. Vão se machucar de novo.
Mas cada volta acontece um centímetro mais alto. E daqui a dez voltas, quando você olhar pra trás, vai perceber que o círculo antigo ficou lá embaixo, pequeno, distante — ainda existe, mas não habita mais.

E SE SÓ UM QUISER SUBIR?
Aí está a verdade que ninguém quer ouvir:
Você não consegue puxar alguém pra espiral.
Você pode convidar. Pode mostrar o caminho. Pode mudar você mesmo e torcer pra que o outro veja a mudança e queira também.
Mas se o outro escolher ficar no círculo — se a forma antiga for tudo o que ele conhece de si mesmo, e a ideia de perdê-la for terror puro —, você vai ter que escolher.
Escolher entre voltar pra baixo, pra manter a relação. Ou escolher seguir subindo, sozinho.
Nenhuma das duas é fácil.
Voltar pra baixo é trair a si mesmo. Subir sozinho é enfrentar o vazio de não ter mais aquele encaixe — mesmo que o encaixe machucasse.
E sabe o que é mais cruel?
Não existe resposta certa.
Existe apenas: o que você consegue sustentar sem morrer por dentro?

O AMOR QUE FICA QUANDO O CÍRCULO SE ROMPE
Tem gente que vai terminar.
E tem gente que vai descobrir que pode continuar — mas continuando de um jeito que nunca existiu antes.
Sem a forma antiga. Sem o encaixe perfeito. Sem a dor como cola.
Isso assusta. Porque sem a dor, quem vocês são juntos?
Vocês vão ter que inventar.
Vão ter que construir uma relação onde não é mais obrigatório sofrer para provar que se importam.
Onde silêncio não é punição. Onde distância não é abandono. Onde crescimento individual não é ameaça ao vínculo.
E isso — isso que ninguém te avisou — é muito mais difícil do que repetir o sofrimento.
Porque repetir é automático. Criar é esforço consciente, todo santo dia.
Mas é nessa criação que mora a única coisa que vale a pena chamar de amor adulto:
Dois seres humanos que escolhem, repetidamente, não usar o outro como solução para a própria incompletude.

O INSTANTE VERTICAL
No final, a pergunta não é “vocês vão ficar juntos?”
A pergunta é: vocês conseguem olhar pro abismo da repetição e escolher subir?
Juntos, se possível. Separados, se necessário.
Mas subir.
Porque o círculo é confortável, mas te mata devagar.
E a espiral é vertigem pura — mas pelo menos é vida em movimento ascendente.
Você vai cair. Vai se machucar. Vai ter momentos em que vai querer desistir e voltar pro chão conhecido.
Mas vai ter um dia — pode ser daqui a meses, pode ser daqui a anos — em que você vai olhar pra trás e perceber:
Você não cabe mais naquele círculo. Nem que quisesse.
E esse dia, meu caro leitor, não é o fim.
É o nascimento.

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Se esse texto mexeu em algo que você nem sabia que carregava — uma ferida antiga, uma pergunta sem resposta, uma esperança escondida —, saiba que ele é apenas a porta de entrada.
No meu blog, mantenho centenas de textos autorais, construídos ao longo de quase duas décadas de imersão nas fronteiras da neurociência aplicada, da psicologia existencial e da fenomenologia viva das relações humanas.
Eu sempre vou ainda mais fundo. Sem filtro. Sem concessões. Sem receitas prontas.
Só verdades cruas, caminhos inexplorados e mapas para territórios que você nem sabia que existiam dentro de você.
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Porque transformação de verdade não acontece num post.
Acontece numa vida inteira disposta a subir — volta após volta, espiral após espiral — até que um dia você olhe pra baixo e perceba que o círculo ficou tão pequeno que já nem dá mais medo.
Eu te espero lá. Na próxima volta. Um pouco mais alto.