A DOENÇA QUE SUA EMPRESA CHAMA DE “GESTÃO DE PESSOAS”
Existe um equívoco silencioso operando no coração das organizações contemporâneas, tão naturalizado que raramente é questionado: a crença de que conhecer pessoas significa categorizá-las. Chamamos isso de “gestão de talentos”, “segmentação de força de trabalho”, “programas direcionados”. Criamos taxonomias cada vez mais sofisticadas — millennials, geração sanduíche, trabalhadores seniores, mulheres em transição reprodutiva — e nos convencemos de que, ao nomear esses grupos, estamos os compreendendo. Mas e se essa compulsão por classificar for precisamente o que nos impede de ver quem realmente está diante de nós?
Há algo perturbador acontecendo quando um diretor de RH olha para uma colaboradora de cinquenta e dois anos e vê antes um “perfil demográfico” do que uma trajetória singular de escolhas, renúncias, aprendizados e transformações. Quando ela menciona dificuldades de concentração, a organização já tem uma resposta pronta: “trabalhadores mais velhos precisam de ferramentas digitais adaptadas”. Mas ninguém perguntou se ela está enfrentando um luto recente, se está renegociando o sentido de sua própria existência, se está atravessando uma crise existencial sobre o que construiu profissionalmente nas últimas três décadas. A categoria já forneceu a resposta antes mesmo de a pergunta real ser formulada.
O problema não é que as organizações estejam oferecendo pouco suporte. O problema é que elas estão operando com uma epistemologia fundamentalmente falha: pressupõem que seres humanos complexos podem ser adequadamente compreendidos através de variáveis demográficas. É como tentar entender uma sinfonia analisando apenas a duração das notas. Tecnicamente correto, ontologicamente vazio.
Quando um CEO implementa “programas de apoio a cuidadores”, ele acredita estar respondendo a uma necessidade real. E está, em algum nível superficial. Mas o que ele não percebe é que, ao fazer isso, está simultaneamente reforçando uma estrutura conceitual que trata a experiência de cuidar como uma variável extrínseca à identidade profissional. Como se alguém fosse “um gestor de projetos que ocasionalmente precisa cuidar de um pai idoso”, e não um ser humano cuja capacidade de cuidar informa profundamente como ele lidera, como negocia conflitos, como sustenta relações de longo prazo dentro da organização.
A história que nunca contamos é esta: aquela mulher que está cuidando simultaneamente de uma mãe com Alzheimer e de uma filha adolescente desenvolveu, nesses anos de navegação impossível entre demandas irreconciliáveis, uma capacidade de priorização sob pressão que nenhum MBA poderia ensinar. Ela aprendeu a tomar decisões com informação incompleta, a lidar com ambiguidade emocional extrema, a sustentar múltiplos registros de presença simultaneamente. Mas a organização não vê isso. Vê apenas alguém que “precisa de horário flexível” e “apresenta quedas periódicas de produtividade”.
Estamos sistematicamente cegos para o conhecimento encarnado que as pessoas acumulam ao viver. Tratamos a experiência vivida como ruído que interfere no sinal produtivo, quando na verdade ela é o único terreno real sobre o qual qualquer competência genuína pode ser construída. Um homem de sessenta anos que está atravessando a própria consciência aguda de finitude não é apenas “um trabalhador sênior que precisa de apoio psicológico”. Ele carrega uma lucidez sobre o que realmente importa que poderia transformar completamente a cultura de urgência artificial que domina a organização. Mas ninguém pensa em ouvi-lo sobre isso, porque sua experiência já foi codificada como “questão de saúde mental relacionada à idade”.
O que estamos perdendo ao reduzir pessoas a categorias gerenciáveis não é apenas sua humanidade abstrata. Estamos perdendo inteligência organizacional concreta, estratégica, insubstituível. Cada pessoa que atravessa uma crise, um luto, uma doença, uma transição existencial está sendo forçada a fazer algo extraordinariamente sofisticado: integrar dimensões incomensuráveis da experiência. Está aprendendo, na prática, o que nenhum workshop de “resiliência” pode ensinar — como sustentar continuidade de propósito em meio à ruptura radical de todas as certezas.
E o que fazemos com essa expertise adquirida no fogo da vida real? Tratamos como déficit. Como algo a ser “acomodado” até que a pessoa “volte ao normal”. Como se o normal fosse valioso e a transformação, um problema.
Pense na violência simbólica contida na expressão “evento importante na vida”. Como se a vida fosse uma linha reta de produtividade ocasionalmente interrompida por “eventos”. Como se existisse um estado padrão — trabalhar — e exceções que precisam ser geridas. A realidade é exatamente inversa: a vida é o que está constantemente acontecendo, e o trabalho é apenas uma das formas através das quais a navegamos. Mas invertemos completamente a hierarquia ontológica, tratando a produtividade como substância e a existência como acidente.
Quando uma organização diz “precisamos de programas para apoiar transições de saúde reprodutiva em mulheres”, ela está dizendo, sem perceber: “construímos um ambiente que só funciona para corpos que não mudam, que não sangram, que não gestam, que não atravessam metamorfoses hormonais profundas”. O problema não está na ausência do programa. O problema está em ter criado uma estrutura que torna o programa necessário.
Um diretor verdadeiramente lúcido não perguntaria “que benefícios adicionar?”. Perguntaria: “que pressupostos sobre o humano estão embutidos na própria arquitetura desta organização?”. E a resposta seria desconfortável: pressupomos que pessoas são recursos modulares, intercambiáveis, cujas particularidades biográficas são irrelevantes para a função que exercem. Pressupomos que conhecimento é algo que se adquire em treinamentos, não algo que se encarna ao viver. Pressupomos que experiência profissional é o que está no currículo, não o que está inscrito no corpo, na psique, na história relacional de alguém.
A consequência prática disso? Organizações desperdiçam sistematicamente o recurso mais valioso que possuem: a sabedoria acumulada nas biografias singulares de cada pessoa. Aquela mulher que atravessou um câncer não é apenas “alguém que precisa de acompanhamento de saúde continuado”. Ela agora sabe algo sobre urgência, sobre o que é realmente essencial, que nenhum planejamento estratégico consegue capturar. Mas ninguém pensa em incluí-la em discussões sobre priorização organizacional, porque sua experiência foi codificada como “questão médica pessoal”, não como inteligência estratégica.
O que realmente está em jogo aqui transcende políticas de RH. É uma questão de como concebemos o próprio ato de conhecer outra pessoa. Categorias nos dão a ilusão de compreensão sem exigir o esforço de realmente encontrar alguém em sua irredutível singularidade. É mais fácil dizer “millennials valorizam propósito” do que perguntar a cada pessoa o que, especificamente, confere sentido ao seu trabalho. É mais eficiente criar “programas para trabalhadores seniores” do que reconhecer que cada pessoa de cinquenta e cinco anos carrega uma configuração absolutamente única de perdas, conquistas, desilusões e sabedorias.
Mas eficiência não é o mesmo que inteligência. E talvez estejamos descobrindo, tarde demais, que organizações construídas sobre eficiência categorial são estruturalmente menos inteligentes do que precisam ser para navegar a complexidade do mundo contemporâneo. Porque complexidade não responde a categorias. Complexidade exige encontro real, escuta específica, atenção ao detalhe irrepetível de cada trajetória.
A verdadeira revolução organizacional não virá de melhores programas de bem-estar. Virá quando um CEO finalmente compreender que aquela pessoa em sua equipe, que está lidando com um pai morrendo, não precisa apenas de “dias de licença compassiva”. Ela precisa que alguém pergunte: “o que você está aprendendo sobre liderança ao acompanhar seu pai até o fim?”. E então, milagrosamente, ouça a resposta. Realmente ouça. E considere que talvez, só talvez, a experiência de sustentar presença diante da finitude ensine algo sobre como liderar times em momentos de crise que nenhum curso de Harvard jamais capturou.
Não estamos falando de humanizar organizações. Estamos falando de acordar para o fato de que nunca houve nada além de humanos organizando-se, e que todo o nosso aparato gerencial foi construído sobre o esquecimento sistemático dessa obviedade. Cada categoria que criamos é um véu adicional entre nós e a possibilidade de realmente conhecer com quem estamos trabalhando. E cada véu é um desperdício monumental de inteligência, criatividade, resiliência genuína.
A pergunta que deveria tirar o sono de qualquer líder não é “estamos oferecendo benefícios suficientes?”. É: “quantas pessoas nesta organização nós reduzimos a categorias gerenciáveis, ignorando completamente a inteligência singular que só elas, com suas histórias específicas, poderiam contribuir?”.
A resposta, provavelmente, é: todas.
Mas existe um gesto tão simples, tão radicalmente óbvio, que sua ausência nas organizações expõe a verdadeira natureza de nossa cegueira. Imagine um conselho de administração que, em vez de aprovar mais um “programa de diversidade geracional”, decide fazer algo perturbadoramente direto: convocar cinco colaboradores acima de 55 anos — escolhidos sem critério além da idade — para uma reunião de estratégia de três horas, sem pauta, sem slides, sem objetivo mensurável. A única regra: cada um pode falar o tempo que precisar sobre “o que a vida me ensinou que esta organização ainda não sabe”.
Imagine o silêncio inicial. A perplexidade. A hesitação de quem nunca foi solicitado como oráculo, apenas como executor.
Imagine a primeira voz tremendo ao contar sobre a morte do filho há sete anos e sobre como aprendeu, no desespero inominável que se seguiu, que metas trimestrais são ficção quando a dor não tem deadline. Que a ideia de “voltar ao normal” é uma violência simbólica contra quem foi irreversivelmente transformado. Que a única liderança que importa é aquela que consegue sustentar presença quando todas as certezas desmoronaram.
Imagine o segundo falando de como cuidar da esposa com esclerose lateral amiotrófica o ensinou a detectar sinais imperceptíveis de exaustão nos liderados antes que eles mesmos os percebam. De como aprendeu que cuidado não é concessão, mas atenção radical ao que está realmente acontecendo antes que se torne crise. De como desenvolveu uma inteligência relacional que nenhum dashboard de engajamento jamais capturará.
Imagine o terceiro revelando que, aos 61 anos, está aprendendo programação sozinho à noite porque precisa provar a si mesmo que ainda pode começar de novo. Que essa fome latejante, essa recusa em se fossilizar, é exatamente o que falta nos projetos de inovação da empresa — não porque sejam mal executados, mas porque foram concebidos por pessoas que nunca tiveram que reconstruir completamente sua própria relevância.
Imagine o CEO sem saber o que anotar, porque não há KPI para aquilo. Imagine o conselho inteiro, pela primeira vez em anos, sem recurso a frameworks, sem vocabulário corporativo de escape, apenas ouvindo humanos que nunca tinham sido convocados como portadores de sabedoria estratégica — apenas como “recursos a serem acomodados”.
E então a percepção que deveria ser óbvia: não precisamos de nenhum programa novo. Precisamos apenas parar de tratar experiência vivida como desvio gerenciável e começar a tratá-la como o único currículo que realmente importa. Precisamos parar de perguntar “como adaptar essas pessoas à organização” e começar a perguntar “o que essas pessoas sabem que a organização ainda não consegue ver”.
Naquele dia, a organização não se tornará “mais humana” — esse vocabulário já está contaminado pela lógica que precisa ser abandonada. Ela simplesmente deixará de ser cega. E descobrirá, tarde demais, quantas décadas desperdiçou tratando como problema exatamente aquilo que poderia tê-la salvado.
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