A ILUSÃO DA PRESENÇA ESTRATÉGICA
Existe uma fantasia corporativa que persegue executivos como uma sombra: a crença de que estar presente é suficiente. Salas de reunião lotadas, agendas congestionadas, uma sequência interminável de encontros onde rostos se encontram, palavras são pronunciadas, decisões aparentemente tomadas. No entanto, algo essencial permanece ausente — e esse vazio não aparece nos relatórios trimestrais.
A presença virou commodity. O mercado corporativo a celebra, a quantifica, a transforma em métrica. “Presença executiva”, “presença de liderança”, “presença estratégica” — termos que proliferam em avaliações de desempenho como se nomear o fenômeno fosse o mesmo que compreendê-lo. Mas aqui reside o paradoxo mais cruel da liderança contemporânea: nunca os executivos estiveram tão presentes fisicamente e, simultaneamente, tão ausentes na dimensão que realmente importa.
Não se trata de estar na sala. Trata-se de habitar o instante com a totalidade do seu aparato perceptivo, cognitivo e afetivo — uma capacidade que a arquitetura corporativa moderna parece desencorajar sistematicamente. A fragmentação da atenção, elevada à categoria de virtude sob o disfarce da “multitarefa”, produz líderes que existem em múltiplos lugares ao mesmo tempo e, precisamente por isso, não habitam verdadeiramente nenhum deles.
Observe a coreografia das reuniões executivas: olhares que deslizam furtivamente para telas, mentes que já processam o próximo compromisso enquanto os lábios ainda articulam respostas ao compromisso atual, corpos que ocupam cadeiras enquanto a consciência navega por cinco simultaneidades diferentes. Essa dispersão sistemática da atenção não é acidental — é estrutural. E passa por competência.
O que chamamos de “presença executiva” frequentemente se resume a uma performance calculada: a postura correta, o tom de voz adequado, o timing da intervenção, a gestualidade que comunica autoridade. Uma teatralidade sofisticada que pode existir completamente desconectada de qualquer engajamento genuíno com o momento presente. É possível executar o script da presença sem jamais estar verdadeiramente presente — e o ambiente corporativo não apenas tolera essa dissociação, como frequentemente a recompensa.
A consequência dessa ausência disfarçada de presença é devastadora em dimensões que raramente são mapeadas. Decisões que parecem racionais, mas ignoram sutilezas cruciais captadas apenas por quem está verdadeiramente atento. Conflitos que se perpetuam porque ninguém estava suficientemente presente para perceber o não-dito que antecedeu a ruptura. Oportunidades estratégicas que passam despercebidas porque a mente estava ocupada demais administrando a aparência de estar ali.
Há uma diferença ontológica entre ocupar um espaço e habitar uma situação. O primeiro é geográfico, mensurável, auditável. O segundo é existencial, exige a totalidade do ser, demanda uma qualidade de atenção que a cultura do sempre-conectado tornou quase subversiva. Habitar uma situação significa permitir que ela te afete, que te transforme, que te desloque de certezas confortáveis — e isso é precisamente o que a armadura executiva foi desenhada para impedir.
A ironia é cortante: num mundo que celebra a “inteligência emocional” e a “escuta ativa”, criamos estruturas que sistematicamente inviabilizam ambas. Como desenvolver inteligência emocional quando você está emocionalmente ausente de si mesmo? Como praticar escuta ativa quando sua atenção está fragmentada em doze frentes simultâneas, cada uma exigindo uma performance diferente?
Existe um custo cognitivo nessa ausência crônica que as neurociências vêm mapeando com precisão cirúrgica, mas que o discurso corporativo prefere ignorar. A atenção plena não é um luxo espiritual — é uma condição neurobiológica para processamento profundo de informação, para integração de dados complexos, para a emergência daquilo que chamamos de insight estratégico. Quando pulverizamos a atenção, não apenas perdemos presença — perdemos capacidade analítica, perdemos sutileza perceptiva, perdemos a habilidade de detectar padrões que só se revelam para quem está genuinamente atento.
E há outra dimensão ainda mais perturbadora: a ausência se replica. Líderes fragmentados criam culturas fragmentadas. Executivos que não habitam o presente autorizam suas equipes a fazer o mesmo. A dispersão se normaliza, se institucionaliza, se torna “o jeito como trabalhamos aqui”. E quando todos estão ausentes juntos, quando a desatenção se torna código cultural, a organização inteira opera em modo automático — executando procedimentos sem jamais questionar se ainda fazem sentido.
A verdadeira presença executiva não tem nada a ver com carisma performático ou domínio gestual. Tem a ver com a coragem de estar inteiramente onde você está, mesmo quando isso significa sentir o desconforto daquele momento, perceber a tensão não resolvida naquela sala, notar a incoerência entre o que está sendo dito e o que está sendo sentido. Presença real é vulnerabilidade estratégica — a capacidade de se deixar afetar pelo que está acontecendo, de permitir que a situação te informe antes de você tentar controlá-la.
Mas isso exige algo que a cultura corporativa teme profundamente: pausa. Silêncio. Intervalos não produtivos onde nada está sendo executado, mas tudo está sendo percebido. A presença genuína nasce dessa descontinuidade radical — do momento em que você para de performar e começa a perceber, do instante em que abandona o script e se permite ser surpreendido pelo que está diante de você.
Não é coincidência que as decisões mais desastrosas, aquelas que depois nos fazem perguntar “como não vimos isso?”, frequentemente emergem de contextos onde todos estavam presentes, mas ninguém estava verdadeiramente atento. A sala cheia, a reunião realizada, a ata lavrada — e a percepção crítica ausente porque todas as consciências estavam ocupadas demais administrando suas próprias performances de presença.
Então surge a questão incômoda: se sua presença é apenas uma performance sofisticada, se você ocupa espaços sem jamais habitar situações, se sua atenção está perpetuamente fragmentada entre o que você está fazendo e as outras quinze coisas que você deveria estar fazendo — você realmente está liderando? Ou apenas executando uma simulação elaborada de liderança, enquanto a verdadeira inteligência estratégica, aquela que exige presença total, permanece inacessível?
A presença real não é um estado de serenidade contemplativa. É um modo de operação que exige energia, disciplina, uma recusa ativa de se dispersar. É a escolha deliberada de estar inteiramente em um lugar, mesmo quando isso significa dizer não a outros lugares, mesmo quando isso significa perder a ilusão de controle que a fragmentação parece oferecer.
E aqui reside a transformação possível: quando um executivo descobre que habitar verdadeiramente um momento gera mais inteligência estratégica do que administrar cinco simultaneamente, algo muda. Não na agenda — na qualidade da presença. Não no número de reuniões — na profundidade do engajamento. Não na performance externa — na coerência interna.
A pergunta que ninguém quer fazer, mas que define tudo: se retirássemos sua agenda, seus títulos, suas métricas de desempenho — o que restaria da sua presença? Existe algo sendo habitado, ou apenas espaços sendo ocupados?
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THE ILLUSION OF STRATEGIC PRESENCE
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