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“POR QUE EU ME SINTO TÃO VAZIO?” — A PERGUNTA QUE DEFINE 2025

A pergunta que mais recebi em 2025 não veio de profissionais em busca de ascensão. Veio daqueles que já conquistaram o ápice.

E ela revela o colapso de um sistema inteiro.
Diretores executivos, VPs, sócios-fundadores. Trajetórias irrepreensíveis, reconhecimento internacional, equipes extensas sob comando, remunerações que simbolizam o sucesso paradigmático.
A dúvida que emergia, nua e insistente?
“Marcello, por que eu me sinto tão vazio?”

Por vezes veladas: “Será que este é realmente o meu lugar?”, “Não suporto mais sustentar esta estrutura”, “Preciso encontrar um propósito que seja meu — não o da empresa, não o do mercado”. Mas o núcleo permanece inalterado: um vácuo existencial profundo, que nenhuma validação externa — promoção, bônus, aplauso coletivo — logra preencher.
Isso não é mero sintoma individual. Revela o colapso sistêmico de 2025: o teatro corporativo, outrora convincente, perdeu sua potência ilusória até para os atores principais.
Não se trata de burnout clássico — esgotamento por sobrecarga, diagnosticado e medicado há décadas.
Trata-se de algo mais insidioso: esgotamento por ausência ontológica. Ausência de sentido autêntico. Ausência de presença encarnada. Ausência radical de si mesmo no ato de performar.
Ao longo dos anos, fomos moldados para erigir uma versão profissional liquido hiperotimizada: competente em extremos, estratégica em essência, resiliente perante adversidades, adaptável a qualquer reconfiguração. Dominamos competências técnicas, acumulamos conquistas mensuráveis, polimos narrativas impecáveis para plataformas como esta.
E, nesse processo, perdemos o contato com a camada primordial do ser — aquela que Merleau-Ponty descrevia como percepção pré-reflexiva, corporal, inseparável do mundo vivido. Reduzimo-nos a personas desencarnadas, flutuando em abstrações performáticas.
A emergência acelerada da IA tornou isso inegável: quando algoritmos replicam e superam em segundos domínios que demandaram décadas de maestria técnica, emerge a interrogação inescapável: o que, em minha existência, resiste à substitutibilidade absoluta?
A resposta intuitiva aponta para o irredutivelmente humano: a presença relacional profunda, a intuição contextual enraizada no corpo, a sensibilidade ética que emerge da intersubjetividade vivida.
Contudo, o paradoxo se impõe com crueldade: profissionalizamos até essas dimensões. Networking transformou-se em transação calculada. Inteligência emocional, em protocolo de gestão comportamental. Propósito organizacional, em narrativa de PowerPoint. Vulnerabilidade, em estratégia de liderança “autêntica” — mas sempre instrumental.
Treinamos exaustivamente para simular humanidade, e o resultado foi a atrofia da capacidade de habitá-la genuinamente.
O corpo, esse traidor fiel, registra o custo: hiperativação sustentada do córtex pré-frontal dorsolateral em dissonância cognitiva crônica, com supressão da ínsula anterior e do córtex cingulado — regiões cruciais para a intercepção, o senso de coerência interna e a detecção de incongruências entre ação e essência. Sartre denominaria isso má-fé existencial: a negação deliberada da liberdade de ser. Eu o chamo de exaustão identitária — uma fadiga ontológica que corrói a vitalidade mais profunda.
Três rupturas convergentes marcam 2025 como ponto de inflexão irrevogável:
1. O colapso do contrato psicológico implícito: por gerações, vigorou o pacto não escrito — dedicação vitalícia em troca de estabilidade, reconhecimento e identidade profissional. Hoje, empresas oferecem precariedade velada, métricas gamificadas e narrativas efêmeras. Quando a função se dissolve na reestruturação algorítmica, o que resta do eu construído sobre ela?
2. A transparência radical imposta pelos algoritmos: sistemas de avaliação quantitativa e redes de performance expõem impiedosamente a clivagem entre competência substancial e mera performance narrativa. Muitos percebem, tardiamente, que se perderam na arte de aparentar valor — construindo imagens imaculadas —, mas corroeram o fazer genuíno, a contribuição que transcende métricas.
3. O esgotamento da economia relacional falsa: acumulamos redes extensas — milhares de conexões, encontros “estratégicos” incessantes. Contudo, na hora do colapso pessoal, não há quem atender uma chamada verdadeira. Porque conexões instrumentais não geram intimidade; ativam apenas circuitos superficiais de reciprocidade transacional, deixando o sistema de neurônios-espelho faminto por autenticidade compartilhada.
A resposta que demanda coragem ontológica absoluta
Não existe solução técnica — hack, framework ou protocolo ágil. Trata-se de uma questão do ser, não do fazer.
Quatro movimentos exigem confrontação sincera com o próprio abismo:
1. Desidentificação radical: você não é seu cargo, sua organização, suas conquistas acumuladas, seu perfil digital. Heidegger advertia contra a queda no “ser-à-mão” — reduzir o Dasein a mera utilidade instrumental. Inicie desmontando rótulos: apresente-se sem títulos. Habite o vácuo inicial. Ele não é niilismo; é o umbral da abertura autêntica ao mundo.
2. Reconexão relacional não-instrumental: o antídoto ao vazio reside na presença encarnada, sem agenda oculta. Neurociência confirma: a área tegmental ventral ativa-se intensamente em interações genuínas, liberando recompensa intrínseca superior à de conquistas performáticas. Mas isso requer vulnerabilidade — aparecer falível, sem edição —, algo que o sistema corporativo pune sistematicamente. A fome relacional só se sacia quando ousamos ser, não usar.
3. Aceitação revoltada do absurdo: ecoando Frankl e Camus, o sentido não emerge da eliminação do sofrimento, mas da construção deliberada de significado perante o inevitável. No corporativo, o absurdo é o sistema que mercantiliza a existência. Revolte-se não fugindo, mas criando: em microatos que afirmam valores apesar da indiferença estrutural.
4. Microescolhas de coerência existencial: abandone a espera pela grande epifania. Neuroplasticidade ensina: cada escolha alinhada — recusar um teatro relacional, priorizar substância sobre visibilidade, admitir ignorância genuína, proteger silêncio em meio à hiperconexão — reconstrói vias neurais, fortalecendo uma identidade ancorada no interno, não no aplauso externo.
Em 2026, antevejo a migração silenciosa em escala: profissionais que permanecem formalmente, mas se retiram emocionalmente da performance. A verdadeira revolução não é externa; é cessar a autotraição diária.
Organizações persistirão com programas superficiais de bem-estar, ignorando o contrato velado: “Seja autêntico — desde que sua autenticidade otimize resultados”.
A dúvida de 2025 transcendia carreira: era sobre integridade existencial em um ecossistema que coisifica o humano.
A saída? Coragem para ser ordinariamente verdadeiro em um mundo de falsidade extraordinária. Não é espetacular. Não rende engajamento viral. Mas preserva o reconhecimento no espelho daqui a uma década.

E você? Qual foi sua dúvida mais profunda em 2025?

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Se este texto gerou desconforto profundo, era precisamente o propósito: o incômodo é o primeiro indício de que algo essencial foi tocado.

No meu blog (www.marcellodesouza.com.br), centenas de publicações exploram essas dimensões com rigor interdisciplinar — neurociência, filosofia existencial, psicologia comportamental —, sem anestesia ou promessas ilusórias. Apenas o confronto que leva a reconstruções duradouras.

Acesse agora e permita-se perguntas que não confortam, mas transformam trajetórias.