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QUANDO O VENENO VEM DE DENTRO

Existe um tipo de destruição que não faz barulho. Não grita, não confronta, não bate portas. Ela sussurra. Planta. Insinua. E quando você percebe, o estrago já está feito — não nas estruturas, mas nas pessoas. Na confiança que se esvai sem que ninguém consiga nomear exatamente por quê. Na motivação que mingua como se algo invisível a drenasse. No clima que apodrece, célula a célula, enquanto todos se perguntam: o que está acontecendo aqui?

Durante anos, construímos narrativas poderosas sobre ambientes tóxicos. Falamos de lideranças autoritárias, de culturas adoecedoras, de sistemas que trituram gente. E tudo isso é real, necessário, urgente. Mas há uma face dessa conversa que permanece incômoda, quase proibida: nem toda toxicidade é sistêmica. Às vezes, ela tem nome, sobrenome e crachá. E age com uma precisão que envergonharia qualquer estrategista.

A Armadilha Do Encantamento Inicial
O que acontece quando o problema não é a empresa, mas aquela pessoa? Quando não há sobrecarga estrutural, não há assédio institucionalizado, não há omissão da alta gestão — mas mesmo assim o time adoece? Quando os dados apontam para um ambiente equilibrado, mas o termômetro emocional indica febre alta?

Deixe-me dar um exemplo prático: A alguns anos atrás, em uma consultoria de DCCO em uma empresa de médio porte, acompanhei uma nova coordenadora que chegou com credenciais impecáveis e discurso irretocável sobre gestão humanizada. Nos primeiros 60 dias, conquistou a confiança de todos. Mas logo começou a operar diferente em conversas paralelas: questionava decisões da diretoria, sugeria que certos colegas eram “privilegiados”, insinuava que processos eram injustos. Quando o RH foi investigar os índices de engajamento três meses depois, descobriu que 40% do time estava considerando sair — mas nenhum sabia explicar exatamente por quê. O problema não estava na estrutura. Estava numa única pessoa reprogramando, diariamente, a percepção coletiva.

Do ponto de vista do desenvolvimento cognitivo comportamental, o que ocorre aqui é uma interferência nos mapas mentais coletivos. A pessoa não altera processos — altera significados. Não muda fatos — muda interpretações. E faz isso explorando um princípio fundamental da cognição social: confiamos mais em quem parece nos proteger do que em quem nos lidera formalmente.

A Manipulação Como Habilidade Social Desviada
Existe, sim, o colaborador que destrói. Não por incompetência — às vezes, tecnicamente, é até brilhante. Mas por uma combinação fatal: inteligência emocional desviada, habilidade social manipulativa e ausência de compromisso com o bem comum. Essa pessoa não erra por fragilidade. Ela escolhe. Escolhe minar. Escolhe fragmentar. Escolhe usar o discurso da vítima como escudo e a desestabilização como ferramenta.

E o mais perigoso? Ela quase sempre começa encantando. Chega bem articulada, simpática, próxima. Conquista confiança rapidamente. Fala a língua certa, nos momentos certos, para as pessoas certas. Mas enquanto constrói essa fachada, já está semeando o caos. Não de forma explosiva — isso seria fácil de identificar. Mas gota a gota, conversa a conversa, insinuação a insinuação.

Um caso que acompanhei foi de Júlio. Ele era analista de dados numa startup de tecnologia. Extremamente competente, sempre disponível para ajudar. Aos poucos, tornou-se o “confidente” do time — aquele com quem todos desabafavam. Mas Júlio não guardava confidências: ele as redistribuía estrategicamente, sempre omitindo contextos e distorcendo nuances. “Fulana disse que seu trabalho não está no nível.” “Beltrano comentou que você não deveria estar nesse projeto.” Em seis meses, o time que colaborava intensamente passou a operar em silos, com medo de expor fragilidades. A produtividade caiu significativamente, impactando inclusive na motivação do time. Quando a liderança finalmente entendeu o padrão, Júlio já havia pedido transferência para outra área — deixando para trás um ambiente emocionalmente devastado.

No campo do desenvolvimento organizacional, isso se chama sabotagem relacional sistêmica: a pessoa não ataca o sistema produtivo, ataca o sistema de vínculos. E vínculos são a infraestrutura invisível de qualquer cultura. Quando eles entram em colapso, tudo o mais desmorona — mesmo que os processos estejam impecáveis.

Quando O Sistema Imunológico Organizacional Falha
O grande problema é que nossa cultura organizacional ainda não sabe lidar bem com isso. Somos ágeis em diagnosticar problemas estruturais. Sabemos mapear sobrecarga, pressão excessiva, falhas de comunicação. Mas quando o problema é gente, quando é alguém que domina os códigos, que sabe exatamente o que dizer e para quem, a coisa complica. Porque não há métrica fácil para manipulação. Não há dashboard para malícia. Não há KPI para intenção destrutiva.

E aí entra a armadilha do politicamente correto mal aplicado: o medo de julgar, de responsabilizar, de dizer “essa pessoa está fazendo mal”. Como se nomear o problema fosse pior do que deixá-lo corroer tudo. Como se a única toxicidade aceitável fosse a que vem de cima, nunca a que vem de dentro. Como se todo colaborador fosse, por definição, vítima — e nunca algoz.

Eu me lembro quando trabalhava com o time de vendar em uma multinacional do setor financeiro, uma gerente começou a apresentar queixas recorrentes de assédio moral e sobrecarga. O RH abriu três processos investigativos em 18 meses — todos concluíram que não havia evidências. Mas a cada investigação, ela intensificava o discurso de perseguição, mobilizando grupos de apoio interno e pressionando a organização publicamente. Com medo de danos reputacionais, a empresa hesitou em agir. Resultado: seis profissionais de alta performance pediram demissão, alegando “ambiente instável e polarizado”. Só quando uma denúncia formal de manipulação documental apareceu é que a empresa finalmente agiu — mas o dano já estava feito.

Do ponto de vista do desenvolvimento cognitivo comportamental organizacional, o que falhou aqui foi a capacidade de discernimento sistêmico: confundir empatia com conivência, cuidado com paralisia. Toda organização saudável precisa desenvolver seu sistema imunológico — a habilidade de identificar, isolar e neutralizar comportamentos que ameaçam o coletivo, sem perder sua humanidade no processo.

As Quatro Diretrizes Para Proteção Consciente
Então, o que fazer? Como proteger a cultura organizacional sem cair na paranoia nem na passividade?

1. Dados são aliados do cuidado, não inimigos da empatia
Mapear riscos psicossociais com rigor técnico não é desconfiar das pessoas — é proteger o sistema. Quando você tem evidências de que a estrutura está equilibrada, consegue identificar com mais clareza quando o problema é comportamental. Isso não é acusação: é diagnóstico cognitivo organizacional. É a diferença entre tratar a febre e tratar a infecção.

2. Velocidade define a saúde da resposta
Comportamentos tóxicos prosperam no tempo. Quanto mais você demora para investigar, apurar e agir, mais eles se enraízam. Mais pessoas são contaminadas. Mais a dúvida se instala. Do ponto de vista do desenvolvimento comportamental, cada dia de inação é um reforço negativo: o sistema aprende que aquele comportamento é tolerável.

3. Comunicação não é exposição, é responsabilidade
Silêncio gera vácuo. E vácuo é preenchido com especulação, medo, versões paralelas. O time precisa saber que a organização viu, investigou e tomou providências. Que valores não são decorativos. Que cultura não é slogan. Isso não é defensiva — é integridade sistêmica.

4. Cuidar também é delimitar
Porque uma organização que não consegue se proteger de quem a fere por dentro não está sendo humana — está sendo omissa. E omissão, aqui, tem nome: é permitir que uma pessoa destrua dezenas. É escolher a conivência em nome de uma suposta empatia que, na verdade, é covardia.

Toxicidade: origem ou sintoma?
Mas há uma distinção que o desenvolvimento cognitivo comportamental nos obriga a fazer — e que poucas organizações têm maturidade para enfrentar: nem toda toxicidade é originária. Algumas pessoas carregam padrões destrutivos como traço; outras foram toxificadas pelo próprio ambiente.
A diferença não é semântica — é diagnóstica. E ignorá-la pode levar tanto à ingenuidade (tolerar o intolerável) quanto à crueldade (punir quem, na verdade, está apenas respondendo a um sistema adoecido).
Exemplo prático: Numa consultoria de tecnologia, um coordenador antes colaborativo e respeitado tornou-se progressivamente cínico, defensivo e minador. Três meses de investigação revelaram: ele não era o problema original — ele era o primeiro a reagir ao problema. Uma liderança acima dele operava com manipulação sistemática, e sua “toxicidade” era, na verdade, uma tentativa disfuncional de proteger o time. Quando a liderança real foi removida, ele voltou ao equilíbrio em semanas.
Isso não justifica comportamentos destrutivos — mas contextualiza origens. Do ponto de vista do desenvolvimento comportamental organizacional, ignorar essa diferença é como tratar febre sem investigar a infecção: você pode eliminar o sintoma visível e deixar a doença intocada.
Ambientes tóxicos não apenas drenam — eles convertem. Pessoas saudáveis, quando expostas cronicamente a culturas adoecedoras, desenvolvem mecanismos adaptativos que, embora funcionais para sobrevivência imediata, tornam-se padrões destrutivos. Cinismo como blindagem. Desconfiança como estratégia. Sabotagem como autodefesa. E quando esses padrões se cristalizam, o que era reação vira identidade.
É aqui que o ciclo vicioso se instala: a pessoa toxificada começa a toxificar outros. O ambiente que a adoeceu agora se multiplica através dela. E se a organização não intervém com discernimento — identificando onde a toxicidade se origina e como ela se propaga — o sistema entra em colapso progressivo. Não haverá “caminho de volta” sem intervenção estrutural, porque cada novo membro será contaminado, e cada saída será substituída por alguém que, em meses, repetirá o padrão.
A pergunta de ouro para líderes não é apenas: “Essa pessoa é tóxica?”
É: “Essa pessoa sempre foi assim — ou nós a tornamos assim?”
E a resposta exige humildade. Porque se for a segunda opção, remover a pessoa sem corrigir o ambiente é crueldade disfarçada de gestão. Você estará punindo quem adoeceu por um sistema que você deveria ter protegido.
Mas se for a primeira — se há evidências de padrão crônico, histórico de comportamento manipulativo em múltiplos contextos, incapacidade de autorregulação mesmo com suporte — então a responsabilidade ética não é “ajudar mais”. É proteger o coletivo. Porque algumas pessoas precisam de ajuda que a organização não tem estrutura para oferecer. E tentar “salvar” quem opera com toxicidade estrutural enquanto sacrifica dezenas ao redor não é compaixão — é omissão travestida de bondade.

A empatia que protege o coletivo
A verdadeira empatia é sistêmica. Ela olha para o todo. Ela pergunta: quem está sendo protegido quando eu não ajo? E a resposta, quase sempre, é incômoda: estamos protegendo quem destrói e sacrificando quem constrói.
Não existe ambiente saudável que sobreviva a veneno interno sem resposta. Não existe cultura forte que resista a sabotagem silenciosa sem reação. E não existe cuidado genuíno que ignore a diferença entre quem sofre e quem finge sofrer para justificar o dano que causa.

No trabalho de desenvolvimento cognitivo comportamental humano e organizacional, uma das descobertas mais desconfortáveis é esta: nem todo conflito é oportunidade de crescimento. Alguns conflitos são, simplesmente, destrutivos. E reconhecer isso não é cinismo — é maturidade. É a capacidade de distinguir entre tensão criativa e sabotagem relacional. Entre desconforto necessário e toxicidade calculada.

Então, sim: colaborador tóxico existe. E negar isso não nos torna mais humanos — apenas mais vulneráveis. Cuidar é também conter. É delimitar. É dizer não. Porque a saúde do coletivo depende não só de quem somamos, mas também de quem temos coragem de subtrair.

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