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A ÁGUA QUE NINGUÉM FOI BUSCAR

Você já chegou perto de alguma coisa que devia ser boa e sentiu o corpo murchar antes mesmo de entender por quê?

Não foi a coisa. Foi a distância entre ela e o mapa que você tinha desenhado antes de chegar.

Tem um lago na Austrália que os primeiros exploradores batizaram de Lago da Decepção. Eles vinham atravessando terra seca havia semanas, o gado quase caindo, os mapas prometendo um espelho d’água doce onde as expedições finalmente respirariam. Chegaram. Era sal. Uma planície branca, brilhante, morta para qualquer boca sedenta. O nome pegou. Ficou mais de cem anos em documentos oficiais, atravessou gerações de cartógrafos, até que devolveram ao lago o nome que os povos originários sempre usaram, um nome que não carregava a mágoa de ninguém.

Eu penso muito nesse lago. Não pela geografia. Pelo gesto de nomear um pedaço do mundo com a própria frustração e deixar que esse nome sobrevivesse a você.

Porque é isso que a gente faz. Todos os dias, em escala menor, sem mapas e sem gado, batizando situações, pessoas, empregos, casamentos com o rótulo da nossa expectativa fracassada, sem perceber que o lago nunca teve culpa de não ser o que a gente precisava que ele fosse.

Água salgada não é um defeito da água. É só água, se comportando como sempre se comportou, indiferente ao que alguém precisava beber.

Tem uma armadilha simples que a gente nunca examina de perto: achar que decepção é uma reação ao que aconteceu. Não é. Decepção é uma reação à diferença entre o que aconteceu e o que a sua cabeça já tinha decidido, antes, em algum comitê secreto de expectativas, que deveria acontecer.

Você não avalia nada isolado. Nunca avaliou. Compara tudo, o tempo inteiro, com uma linha de base que você nem lembra ter desenhado. Um quarto morno parece gelado depois da sauna e parece quente depois da neve. Um salário que faria você comemorar há dez anos hoje parece pouco, sentado numa mesa onde todo mundo ganha mais. A régua nunca é o mundo. A régua é sempre a comparação.

Tem gente que estuda cérebro de macaco pra entender isso, e o que encontram é curioso: os neurônios que liberam a sensação de recompensa não disparam pelo tamanho do prêmio. Disparam pela surpresa dele. Uma banana esperada não ativa quase nada. Uma banana inesperada acende o circuito inteiro. E quando o animal espera a banana e ela não vem, a resposta despenca abaixo da linha de base, como se o corpo registrasse a ausência com mais força do que jamais registrou a presença.

O nome técnico pra isso é chato, então eu não vou usar. Mas o mecanismo é simples de sentir: você não é recompensado pelo que ganha. Você é recompensado pela distância entre o que ganhou e o que esperava ganhar. E punido pela mesma distância, quando ela vem ao contrário.

Isso muda tudo. Porque significa que dá pra estar rico e infeliz, bastando ter combinado consigo mesmo, em segredo, que deveria estar mais rico ainda. E dá pra estar com pouco e sentir uma alegria genuína, inteira, se a linha de base que você trouxe pra mesa era mais baixa do que aquilo que apareceu.

Em 1992, numa Olimpíada, pesquisadores filmaram o rosto dos atletas no instante em que descobriam sua colocação. Prata e bronze. A lógica de qualquer criança diria que quem ficou em segundo deveria estar mais feliz que quem ficou em terceiro. Prata vale mais. Só que as imagens mostravam o oposto, de forma consistente, mensurável: os medalhistas de bronze sorriam mais, choravam de alívio, abraçavam mais gente. Os de prata seguravam a cara de quem engoliu alguma coisa amarga bem na frente das câmeras.

Não é sobre o metal. É sobre o filme que cada um estava passando na cabeça enquanto o resultado saía. O de prata tinha o ouro ali, quase, roçando o dedo. Toda a comparação dele era com o que quase foi. O de bronze tinha o quarto lugar como fantasma, aquele que sai do estádio sem nada nas mãos, sem pódio, sem entrevista. A comparação dele era com o vazio.

Duas medalhas de valor objetivo diferente. Duas experiências emocionais completamente invertidas. O que decide não é o degrau do pódio. É o outro degrau, o imaginário, aquele que a pessoa carrega dentro e usa como parâmetro sem nem perceber que está comparando.

Eu queria que você lesse esse parágrafo pensando na sua última decepção grande. Não no evento. No filme que você tinha rodando por dentro antes do evento acontecer.

Tem um detalhe de linguagem que eu adoro contar, porque ele denuncia algo que a gente finge não saber. Existem idiomas que criam uma palavra inteira só para corrigir uma expectativa errada. O alemão tem uma. O francês tem outra. O sueco também. Servem pra responder a uma frase do tipo “você não vem” com um único som que significa, ao mesmo tempo, “ao contrário do que você pensa, eu vou”.

Uma língua inteira decidiu que essa situação acontece com frequência suficiente pra merecer palavra própria. Pensa nisso. Alguém, em algum ponto da história de um povo, sentiu tantas vezes a necessidade de corrigir a expectativa alheia que a comunidade toda concordou em economizar sílabas pra isso.

A gente vive corrigindo o filme dos outros sobre nós. E os outros vivem corrigindo o nosso filme sobre eles. Um casal inteiro pode ser resumido nesse movimento repetido, ano após ano: “achei que você fosse X”, “não sou X, nunca fui”, “mas eu jurava”. Uma equipe inteira também. Um filho. Um pai. A convivência é majoritariamente feita de correção de mapa.

Deixa-me contar uma cena que qualquer pessoa que já trabalhou numa empresa reconhece na hora.

Alguém entra num emprego novo com um filme na cabeça: vai ser reconhecido rápido, vai crescer, o chefe vai perceber o talento sem que ele precise pedir. Passam seis meses. Nada mudou de forma visível. E o que a pessoa sente não é neutro, é uma queda, um azedume que ela mesma tem dificuldade de explicar, porque objetivamente nada de ruim aconteceu. Ninguém maltratou ninguém. O salário caiu no dia certo. Só que o filme não bateu com a realidade, e o corpo reage a isso como se tivesse sido roubado de alguma coisa que nunca foi prometida por ninguém, a não ser por ele mesmo, lá no início, sozinho, imaginando.

Eu vejo esse roteiro se repetir em quase toda queixa de carreira que chega até mim. Raramente a reclamação é sobre o fato bruto. Quase sempre é sobre o abismo entre o fato e o mapa privado que a pessoa desenhou antes de o fato acontecer.

E o pior: ninguém costuma revisitar o mapa. As pessoas revisitam o fato, tentam mudar o chefe, mudar o salário, mudar a empresa, sem nunca sentar com aquele desenho antigo, feito de ilusão e pressa, pra perguntar se ele fazia sentido desde o começo.

Você discorda de mim se eu disser que boa parte da dor humana é geográfica, no sentido exato do Lago da Decepção? Um ponto no mapa que era pra ser uma coisa e era outra. E o nome que a gente dá a esse ponto costuma durar mais que o ponto em si.

Um ex-companheiro vira, pra sempre, “aquele que me decepcionou”, como se essa fosse a verdade inteira dele, e não apenas a distância entre o que ele era e o que você tinha imaginado que ele fosse. Um chefe vira “aquele injusto”. Um filho vira “aquele que não correspondeu”. A pessoa carrega o rótulo por décadas, do mesmo jeito que o lago carregou o nome por mais de cem anos, sem que ninguém pensasse em perguntar: e se o problema nunca foi a água?

Tem gente que passou a vida estudando como o cérebro constrói aquilo que a gente chama de realidade, e chegou a uma conclusão que ainda me assombra: a mente inteira talvez funcione basicamente como uma máquina de prever e corrigir previsão. Não vemos o mundo puro. Vemos uma hipótese sobre o mundo, testada a cada milésimo de segundo contra o que os sentidos trazem, ajustada sem parar. Percepção não é fotografia. É aposta permanente.

Se isso for verdade, e eu acho que é, então cada decepção que você já sentiu não foi um desvio raro do funcionamento normal da mente. Foi o funcionamento normal da mente fazendo exatamente o que ela sempre faz: apostar, comparar, corrigir, sentir a diferença como se fosse dor.

Isso muda a pergunta que eu faço quando alguém chega dizendo “estou decepcionado”. Eu já não pergunto mais só o que aconteceu. Pergunto que aposta essa pessoa fez antes, silenciosamente, sem contar pra ninguém, nem pra ela mesma.

Tem uma armadilha adicional, sutil, que ninguém me ensinou e que eu aprendi vendo gente sofrer de perto: quanto mais alguém se cala sobre a própria expectativa, maior fica a chance de decepção. Porque uma expectativa dita em voz alta pode ser negociada, ajustada, contestada. Uma expectativa silenciosa torna-se lei interna, roteiro fixo, e o mundo, que nunca leu esse roteiro, segue fazendo o que sempre fez.

Casais que brigam há anos pela mesma coisa costumam brigar, no fundo, por um roteiro que nunca foi lido em voz alta na primeira página. Equipes que colapsam depois de um projeto costumam colapsar porque cada pessoa tinha um filme diferente rodando sobre o que “sucesso” significava ali, e ninguém comparou os filmes antes de começar a rodar.

Eu não estou dizendo pra você parar de esperar coisas. Isso seria pedir pra parar de ser um cérebro funcionando. Esperar é o motor. É o que faz você sair da cama, ir atrás, tentar de novo depois de errar. O problema nunca foi a expectativa em si.

O problema é a expectativa que nunca foi examinada, nunca foi dita, nunca foi comparada com o mapa de mais ninguém, e que age como se fosse fato consumado antes mesmo de o mundo abrir a boca pra responder.

Tem uma variação dessa história que eu vivo em quase toda sessão de mentoria, e que eu queria trazer pra cá porque ela mostra o outro lado da moeda: o lado de quem cria expectativa nos outros sem perceber.

Um líder promete, no calor de uma reunião boa, que o próximo ciclo vai ser diferente. Fala isso quase de passagem, sem anotar, sem pensar duas vezes, porque no momento aquilo parecia verdade e parecia gentil. Seis meses depois, nada mudou de fato, porque a vida de uma empresa tem mil variáveis que aquele líder nem sonhava controlar. E o time inteiro, que guardou a frase como promessa, sente o mesmo tombo que Frank Hann sentiu diante do lago salgado. Só que dessa vez o mapa não foi desenhado por quem decepcionou. Foi entregue por ele, de presente, sem embalagem, sem aviso de que talvez não desse certo.

Eu aprendi, com o tempo, que boa parte da liderança madura é isso: cuidar da palavra antes de soltar ela no ar, porque uma frase dita com leveza vira mapa na cabeça de quem escuta, e mapa vira expectativa, e expectativa não pede licença pra doer quando o território real aparece diferente.

Isso vale pra liderança, vale pra amizade, vale pra qualquer relação em que uma pessoa tenha peso suficiente na vida da outra pra que sua fala funcione como profecia. Quanto mais alguém confia em você, mais frágil fica a distância entre o que você disse por acaso e o que a pessoa vai carregar como certeza.

Existe ainda um terceiro personagem nessa engrenagem, que costuma passar despercebido: a própria memória.

Porque a gente não compara só com o futuro imaginado. Compara também com o passado editado. Um casamento de vinte anos pode desmoronar não porque o presente ficou ruim, mas porque alguém guardou uma versão do início tão boa, tão polida pela saudade, que nenhum presente real teria condição de competir com aquela fotografia mental. A pessoa não está decepcionada com o cônjuge de hoje. Está decepcionada porque o cônjuge de hoje perdeu pra um cônjuge de memória, um personagem que nunca existiu exatamente daquele jeito, mas que a mente foi lapidando, ano após ano, até virar padrão ouro impossível de alcançar.

O mesmo acontece com carreira. “Eu era mais feliz na empresa antiga” costuma ser menos sobre a empresa antiga e mais sobre um recorte cuidadosamente esquecido das noites ruins que também existiam lá, das crises que também aconteciam lá, do chefe que também irritava lá. A memória edita pra proteger, e depois cobra do presente uma régua que nem o passado real alcançaria, se fosse revisitado sem filtro.

Queria fechar contando o final da história do lago, porque ele tem uma reviravolta que eu acho bonita.

Em determinado momento, alguém resolveu perguntar por que aquele corpo d’água precisava carregar pra sempre a frustração de um homem que passou por ali uma única vez, há mais de cem anos, com sede, cansado, num dia ruim de expedição. E devolveram o nome antigo. Kumpupintil. Um nome que já existia antes da decepção de ninguém, que descrevia o lugar por aquilo que ele era, não pela ausência do que alguém esperava encontrar.

O lago não mudou uma gota. A água continua salgada, continua a mesma. Mudou só o nome. Mudou só a história que se conta sobre ele.

Talvez seja essa a pergunta que sobra, pra você levar pro resto do dia, sem pressa de responder agora: quantos lagos você anda chamando de decepção, quantas pessoas, quantos empregos, quantos anos inteiros, sem nunca ter parado pra perguntar se o nome era mesmo sobre eles ou se era sobre o mapa que você trouxe na bagagem, sozinho, muito antes de chegar.

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