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O QUE EM VOCÊ NÃO ESTÁ À VENDA

Tenta um exercício rápido, agora, antes de continuar lendo. Pega uma folha, ou abre uma nota no celular, e escreve cinco coisas que você valoriza em si. Vai. Eu espero.

Feito? Agora olha essa lista com um pouco de crueldade. Quantas dessas cinco coisas você valoriza porque elas produzem alguma coisa? A disciplina que te fez crescer na carreira. A empatia que fideliza clientes. A resiliê— não, essa palavra não. A capacidade de aguentar pressão que te tornou confiável. A inteligência que resolve problemas que ninguém mais resolve.

Repara no padrão. Quase tudo que a gente chama de “quem eu sou” é, na verdade, uma lista de funcionalidades. Um inventário de peças que funcionam bem dentro de um sistema maior — o sistema do trabalho, o sistema da família, o sistema da aprovação social. E aí eu te pergunto o que ninguém costuma perguntar: existe alguma coisa nessa lista que você valorizaria mesmo que ela parasse de dar resultado amanhã?

Se você travou por um segundo antes de responder, ótimo. Foi ali que o texto começou.

Existe uma ideia, vinda de um pensamento que atravessou tempos de guerra e fome sem perder densidade, que diz o seguinte: tratar algo como sagrado é reconhecer nele um ponto de parada absoluto na cadeia de utilidade. Não é sobre religião. É sobre aquilo, em uma pessoa, que se recusa a ser meio para outra coisa. O sagrado não serve. Ele apenas é. E é exatamente por não servir que ele é o único lugar onde a pessoa pode se apoiar quando tudo o mais desaba — porque tudo o mais que só existe em função de um resultado desaparece no instante em que o resultado para de vir.

Pensa numa engenheira que passou vinte anos sendo “a que resolve”. A que a empresa chama quando o sistema cai, a que a família chama quando a crise aperta, a que os amigos procuram quando o conselho certeiro é necessário. Ela é boa nisso. Genuinamente boa. Só que um dia ela adoece, ou é demitida, ou simplesmente cansa — e aí ela descobre, com um tipo de vertigem que ninguém avisa que vem, que não sabe mais quem é quando não está resolvendo nada. Porque a identidade dela inteira foi construída sobre a função, e a função é a primeira coisa que o mundo tira quando o mundo quer.

Isso não é fraqueza de caráter. É arquitetura mal projetada. E arquitetura se corrige, não se condena.

Agora, o outro lado da moeda — e é aqui que a maioria dos textos sobre esse tema erra feio. Eles tratam a busca por esse núcleo como uma expedição arqueológica: cava, cava, cava, até achar o tesouro enterrado que é “quem você realmente é”. Só que na minha experiência, depois de quase trinta anos ouvindo gente contar a própria vida, isso raramente funciona assim. As pessoas não chegam confusas porque não têm nada lá dentro. Elas chegam confusas porque tem barulho demais em cima do que já está lá.

Pensa numa sala cheia de gente falando ao mesmo tempo. Tem alguém dizendo o que você deveria querer. Tem alguém comparando seu progresso com o de outra pessoa. Tem uma cobrança interna, quase automática, repetindo o placar do mês. Tem a expectativa da família, o padrão do mercado, a métrica do LinkedIn. E no meio desse coral inteiro, cantando ao mesmo tempo, tem uma voz mais baixa, mais antiga, que nunca parou de falar — só que ela nunca foi a mais alta.

Você não perdeu essa voz. Você perdeu a capacidade de escutar ela no meio do resto.

E isso muda completamente a pergunta que a gente deveria estar fazendo. Não é “o que eu preciso descobrir sobre mim”. É “o que eu preciso desligar para voltar a ouvir o que nunca parou de estar aqui”.

Eu desafio você a reparar numa coisa na sua própria rotina, hoje. Existe algum momento, por menor que seja, em que você age de um jeito que parece inteiramente seu? Não porque alguém pediu. Não porque o cargo exige. Só porque é assim que você é quando ninguém está calculando o retorno daquilo.

Pode ser a forma como você escuta um filho contando uma história sem sentido, sem pressa de chegar ao fim. Pode ser o jeito como você organiza uma prateleira sem que isso tenha nenhuma utilidade prática. Pode ser aquele minuto de silêncio antes de responder um e-mail difícil, um minuto que ninguém vê, que não conta pontos em lugar nenhum.

Esses instantes pequenos são pistas. E aqui está o ponto que eu mais quero que você leve deste texto: você não constrói clareza sobre quem é através de uma revelação total, tipo raio caindo do céu. Você constrói observando os fragmentos onde já existe coerência — e alargando esses fragmentos, um por um, até eles virarem chão.

Tem um mecanismo delicado escondido nisso tudo, e vale a pena olhar de frente. Nossas ações também fornecem informação para a construção e a atualização do autoconceito — não são só um resultado de quem a gente é, elas também alimentam, com o tempo, a resposta pra essa pergunta. Se as ações são emprestadas — feitas pra agradar, pra performar, pra não decepcionar —, a informação que sobra pra esse processo é confusa, porque está sendo construída sobre movimento alheio.

E aí o círculo vicia. Autoconceito confuso gera objetivos vagos. Objetivos vagos geram mais ações emprestadas. Mais ações emprestadas geram um autoconceito ainda mais confuso. Dá pra passar uma vida inteira nesse looping sem nunca perceber que o problema não era falta de determinação. Era estar alimentando o sistema errado, na direção errada, com convicção.

A boa notícia — se é que dá pra chamar assim — é que o círculo funciona nos dois sentidos. Toda vez que você age a partir daquele fio fino de coerência que sobrou, por menor que seja o gesto, o sistema começa a girar pro outro lado. Não é sobre um insight que resolve tudo numa tarde. É sobre um acúmulo de gestos pequenos e genuínos que, com o tempo, vão atualizando o que você mesma reconhece como sendo seu.

Talvez você esteja pensando que isso é bonito na teoria e impossível na prática, porque o mundo real cobra resultado, cobra função, cobra utilidade — e eu não vou fingir que não cobra. Mas repara numa distinção que muda tudo: uma coisa é usar suas capacidades para produzir resultado. Outra, bem diferente, é reduzir seu valor pessoal ao resultado que essas capacidades produzem. A primeira é trabalho. A segunda é um sequestro silencioso da própria identidade, feito peça por peça, sem aviso, até o dia em que a pessoa olha no espelho e não reconhece mais quem responde ali.

Uma cliente minha, há alguns anos, resumiu isso numa frase que eu carrego até hoje: “Eu não sei mais separar o que eu sou do que eu entrego.” Ela achava que era elogio a si mesma. Levou um tempo até ela entender que aquilo era o diagnóstico mais preciso possível do próprio esgotamento.

Existe um outro pensador, menos citado nas rodas corporativas, que dizia algo assim: a gente não é um conjunto de traços fixos, a gente é a trama que conta sobre si mesma ao longo do tempo — e toda trama boa precisa, ao mesmo tempo, manter algum fio reconhecível e admitir mudança sem se perder no meio do caminho. O sagrado, nesse sentido, não é uma característica fixa gravada em pedra. É esse fio. É aquilo que, mesmo quando a história muda de capítulo, continua sendo reconhecível como sendo seu.

Eu não vou te dar uma fórmula pra achar isso, porque fórmula é exatamente o tipo de instrumento que trata o sagrado como se fosse mais uma tarefa a cumprir — e aí a ironia se fecha em si mesma, você tentaria alcançar o não-transacionável através de um processo transacional. Não funciona assim.

O que eu posso te oferecer é uma pergunta, pra você levar com você pelo resto do dia, ou da semana, o tempo que precisar. Se alguém tirasse de você, agora, tudo aquilo que é reconhecido por fora — o cargo, o elogio, o resultado visível, o número que comprova competência — o que sobraria que você ainda chamaria de valioso? Não precisa responder rápido. Aliás, desconfia se a resposta vier rápido demais, porque as respostas rápidas costumam ser as que o mundo já colocou na sua boca.

Deixa-a demorar. Deixa-a incomodar um pouco antes de aparecer.

Talvez o que sobrar não seja grandioso. Talvez seja só o jeito como você fica em silêncio do lado de alguém que sofre, sem tentar consertar nada. Talvez seja a teimosia de terminar o que começa, mesmo quando ninguém mais notaria se você desistisse. Talvez seja uma curiosidade infantil por como as coisas funcionam, que sobreviveu a décadas de gente dizendo que isso era perda de tempo.

Seja o que for, ele estava lá antes de você aprender a vender qualquer coisa. E vai continuar lá depois que você parar de vender.

A pergunta que fica não é o que você vai fazer com isso amanhã. É se você vai ter coragem de escutar essa voz baixa hoje, no meio do coral inteiro gritando o que você deveria ser.


Se esse tipo de reflexão faz sentido pra você, tem muito mais desenvolvido no meu blog, com textos que exploram o comportamento humano, as relações e o desenvolvimento cognitivo comportamental por outros ângulos que a gente raramente vê por aí: marcellodesouza.com.br

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