ARTIGOS (DE MINHA AUTORIA),  COACHING COMPORTAMENTAL,  COMUNICAÇÃO E COMPORTAMENTO,  DESENVOLVIMENTO HUMANO,  GESTÃO,  LIDERANÇA,  NEUROCIÊNCIA,  PENSAMENTO SISTÊMICO,  PSICOLOGIA,  PSICOLOGIA SOCIAL,  RELACIONAMENTO

QUALIFICADO DEMAIS PARA QUEM, EXATAMENTE?

Você já ouviu alguém recusar uma coisa boa com um elogio?

“Você é bom demais para mim.” Quem já escutou essa frase no fim de um relacionamento sabe que ela não tem nada de elogio. É uma porta sendo fechada com delicadeza, para que o barulho não acorde ninguém. Quem diz não está avaliando o outro. Está se protegendo de alguma coisa que ainda não conseguiu nomear.

O mercado de trabalho aprendeu a mesma frase. Só trocou o vocabulário. Agora se diz “qualificado demais para a vaga”. E, do outro lado da mesa, uma mulher de cinquenta e tantos anos, com vinte e cinco de carreira, um MBA e uma disposição honesta de recomeçar, volta para casa sem entender como tudo o que construiu virou o motivo de não ser escolhida.

Eu quero sentar nessa mesa. Nos dois lados dela.

Essa conversa costuma ser contada com um vilão e uma vítima, e eu desconfio de histórias assim. Elas consolam, só que não transformam ninguém. A empresa que descarta o profissional maduro tem medos que merecem ser olhados de frente. E o profissional maduro carrega, às vezes, coisas que ele mesmo prefere não ver. O que me interessa é o que acontece quando os dois param de se defender.

*

A pergunta que quase ninguém faz em voz alta: do que, exatamente, a empresa tem medo?

A resposta oficial é conhecida. Medo de que o salário não seja suficiente. Medo de que a pessoa saia na primeira oportunidade. Medo de que ela não se adapte a uma posição abaixo da que já ocupou. São medos razoáveis, contáveis, cabem numa planilha. E é justamente por caberem numa planilha que eu desconfio deles.

Existe um medo anterior, mais silencioso, que nunca aparece no feedback.

O medo de ser visto.

Quem já viveu uma década de reuniões sabe reconhecer o teatro. Sabe quando um projeto nasceu morto e todo mundo finge que está vivo porque o diretor gosta dele. Sabe quando a “nova estratégia” é a de cinco anos atrás com outra fonte no slide. Sabe quando o gestor está inseguro, por mais alto que fale. Um profissional maduro entra numa sala e, em poucos minutos, enxerga coisas que levaram anos para ficar invisíveis lá dentro. Nem precisa dizer nada. Basta o olhar.

Para um líder que ainda não fez as pazes com as próprias fragilidades, isso é insuportável. Contratar alguém mais experiente é aceitar uma testemunha. E poucas pessoas querem testemunhas no lugar onde ainda estão aprendendo a fingir que sabem.

Há casos em que a conta não fecha mesmo. O salário não cabe, a função foi desenhada pequena demais, a expectativa de autonomia de um lado não encontra espaço do outro. Esses desencontros existem e merecem ser ditos com clareza. Só que eu penso que, com muito mais frequência do que se admite, “qualificado demais” deixa de ser sobre o candidato. Vira uma frase que descreve, com precisão involuntária, o tamanho da insegurança de quem contrata. E aí o excesso não está no currículo. Está no desconforto do outro lado da mesa.

*

Toda empresa paga uma mensalidade invisível. Ela não aparece no balanço, não tem centro de custo, ninguém aprova. É a mensalidade do esquecimento.

Funciona assim. Uma equipe jovem, brilhante, cheia de energia, propõe uma solução. Ela parece nova porque é nova para quem propõe. Ninguém na sala esteve lá da última vez que alguém tentou algo parecido, oito anos atrás, e quebrou a cara pelo mesmo motivo. A ideia é aprovada. Consome meses, orçamento, a saúde de gente boa. Fracassa. E a lição vai embora com quem sai, porque ninguém registrou o que de fato deu errado, só que “não funcionou”. Três anos depois, uma nova equipe brilhante redescobre a mesma ideia, com a mesma empolgação, e marca a mesma reunião de kick-off.

A empresa estuda a mesma matéria a vida inteira e nunca passa de ano.

Já vi isso acontecer em telecomunicações, em varejo, em indústria, em banco. Muda o setor, o enredo se repete. Organizações que trocam de gente mais rápido do que conseguem trocar de erro. E o que elas chamam de renovação, muitas vezes, é só amnésia com bom marketing.

O profissional maduro não vale pelo que sabe a mais. Isso é pouco, e às vezes nem é verdade. Ele vale porque guarda a memória dos tombos. Carrega no corpo a lembrança de como um projeto começa a dar errado muito antes de a planilha mostrar. Aquela sensação vaga, numa reunião de terça-feira, de que alguma coisa não fecha. Quem passou por isso algumas vezes aprende a escutar esse incômodo como quem escuta um ruído estranho no motor do carro antes de pegar a estrada. Quem nunca passou acha que é implicância.

Uma empresa sem essa escuta anda rápido. Só não sabe para onde.

*

E chego ao medo mais repetido, aquele que surge em qualquer roda de RH quando o assunto vem à mesa: “o problema dos mais velhos é que eles chegam cheios de vícios”.

Essa frase tem um pedaço de verdade e um pedaço enorme de preguiça.

O que é um vício, no trabalho? É uma resposta antiga que continua sendo dada a uma pergunta que já mudou. Uma forma de fazer que, um dia, resolveu um problema real e foi tão útil que virou automática. O automatismo, em si, não é defeito. É ele que permite conduzir uma conversa difícil sem pensar em cada palavra, montar uma proposta sem reinventar o formato, ler um contrato e achar o erro na terceira página sem saber explicar como achou. A experiência é, em grande parte, isso: soluções que se dobraram sobre si mesmas até caberem num gesto.

O problema começa quando a pessoa não consegue mais desdobrar o que dobrou. Quando esquece que aquela resposta, um dia, foi uma pergunta.

Isso não tem idade.

Repare no profissional de vinte e quatro anos que chega à empresa. Ele também traz vícios. Traz a convicção de que todo problema se resolve com uma ferramenta nova. Traz a impaciência de quem aprendeu a pensar em ciclos de quinze segundos. Traz a certeza, nunca testada, de que tudo o que é antigo é lento e tudo o que é lento é ruim. Traz uma forma de escrever, de falar com o cliente, de reagir a uma crítica, que ele copiou de algum lugar sem perceber que copiou. Os vícios dele existem. Ainda não têm nome porque são os vícios da moda. E vício da moda não parece vício. Parece atualização.

Eu desafio as empresas a perceberem uma coisa: elas não têm medo do vício. Têm medo do vício que destoa do delas. O hábito que combina com a cultura da casa ganha o nome de “fit”. O hábito que vem de fora ganha o nome de “vício”.

Há ainda um ponto menos confortável. Muitas vezes o sênior chega rígido porque passou anos em lugares que nunca pediram que ele revisasse nada. Lugares onde o erro era punido, a dúvida era lida como fraqueza, e a melhor estratégia de sobrevivência era repetir o que já tinha dado certo. A rigidez que a empresa nova enxerga nele é a cicatriz da empresa anterior. Não nasceu na pessoa. Foi ensinada. E o que foi ensinado pode, num ambiente que permita errar, ser desaprendido.

A pergunta honesta, então, não é “essa pessoa tem vícios?”. Todo mundo tem. É outra: essa pessoa ainda consegue ser surpreendida?

*

Atravesso a mesa agora. E não para acariciar ninguém.

Para você que tem cinquenta, cinquenta e cinco, sessenta anos e está do lado de cá, deixo uma pergunta que talvez incomode.

Você quer ser contratado pelo que vai fazer ou pelo que já fez?

Existe uma diferença enorme entre carregar a própria história como ferramenta e carregá-la como troféu. O troféu pede reconhecimento. A ferramenta pede uso. Já vi profissionais extraordinários perderem oportunidades não pela idade, e sim porque passaram a entrevista inteira apresentando o museu de si mesmos. Cada pergunta virava uma visita guiada ao passado. “Na época em que eu liderava…”, “quando eu implantei…”, “no meu tempo…”. E o recrutador, que talvez até quisesse ser convencido, saía com a impressão de ter conversado com alguém que já terminou.

Ninguém contrata quem terminou.

Recomeçar dói. O salário menor dói, e às vezes reorganiza uma família inteira, a divisão das contas, os planos dos filhos. Há uma dor menos visível, porém. A de voltar a não saber. De perguntar a um rapaz da idade do seu filho como funciona o sistema. De errar na frente de quem você, em outro contexto, teria orientado. De ser corrigido por alguém que tem menos tempo de empresa do que você tem de carteira assinada.

Essa dor tem dois destinos possíveis. Pode virar humilhação, se cada pergunta for interpretada como prova de que você perdeu valor. Ou pode virar humildade, se você entender que voltar a ser aprendiz numa casa nova é a coisa mais sofisticada que alguém com a sua história pode fazer. A diferença entre as duas não está no que acontece. Está no que você conta para si mesmo enquanto acontece.

Quem atravessa isso descobre algo curioso. A experiência pode acelerar o aprendizado novo de um jeito difícil de imitar, desde que a pessoa saiba separar o que trouxe na bagagem. Alguns padrões continuam valendo em qualquer lugar. Outros só valiam na casa antiga e, se não forem deixados na porta, atrapalham mais do que ajudam. Quando essa triagem acontece, um setor desconhecido se abre em meses, porque o que há por baixo dele já é familiar. Pessoas são pessoas em qualquer porto, em qualquer agência, em qualquer fábrica. Conflito é conflito. Medo é medo. A ferramenta muda, a linguagem muda, os nomes mudam. O humano por trás continua sendo o mesmo bicho assustado e esperançoso que você conhece há trinta anos.

Esse é o seu ativo. Não o que você sabe. O que você reconhece.

*

E então, o encontro.

Fala-se muito em colocar jovens e seniores lado a lado como se fosse um programa de mentoria de mão dupla. O mais velho ensina o que sabe, o mais novo ensina a mexer no aplicativo, todo mundo tira foto, a ação vira post. É bonito e quase inútil. Reduz a convivência entre gerações a uma troca de conteúdo. E conteúdo, hoje, qualquer um acha em trinta segundos.

O que eu vejo, quando o encontro funciona de verdade, é outra coisa. Não é troca. É atrito.

Cada geração carrega uma cegueira diferente. O jovem não sabe o que é impossível, e por isso tenta. O sênior sabe o que era impossível dez anos atrás, e às vezes não percebe que deixou de ser. Sozinho, o jovem gasta energia batendo em paredes que já foram mapeadas. Sozinho, o sênior desiste de portas que se abriram enquanto ele olhava para outro lado. Juntos, acontece algo que nenhum dos dois faria isoladamente: voltam a testar o impossível, agora com memória. O entusiasmo de quem nunca caiu e o mapa de quem já caiu muitas vezes, no mesmo projeto, na mesma mesa, discordando.

É na discordância que a coisa nova aparece.

Lembro de uma cena doméstica. Uma mãe e o filho adolescente montando juntos uma mensagem para um parente com quem a família tinha brigado. O filho sabia o formato, o tom curto, o que não escrever para não soar como ataque. A mãe sabia quem era aquele parente, o que ele precisava ler nas entrelinhas, o que aquela família tinha engolido ao longo de vinte anos. Nenhum dos dois teria escrito sozinho a mensagem que escreveram juntos. E ela funcionou. Não porque um ensinou o outro. Porque cada um corrigiu, em tempo real, o ponto cego do outro.

Empresas vivem de mensagens difíceis. A negociação com o fornecedor prestes a romper. O líder que precisa dar uma notícia ruim à equipe. O cliente que reclama de uma coisa e está furioso com outra. Times homogêneos, todos da mesma faixa de idade, escrevem essas mensagens com a mesma caligrafia. E erram do mesmo jeito, ao mesmo tempo, sem ninguém para dizer “espera, isso vai ser lido de outra forma”.

Diversidade de idade não é pauta de responsabilidade social. É uma questão de visão. Literalmente. Quantos ângulos uma organização consegue enxergar ao mesmo tempo.

*

Isso exige algo que pouquíssimas empresas sabem oferecer: um líder capaz de sustentar o atrito sem precisar vencê-lo.

Volto ao gestor de trinta e dois anos que recebe no time alguém de cinquenta e oito. O medo dele, dizem, é que o mais velho queira o seu lugar. Pode até ser, em alguns casos. Eu desconfio de outra coisa. Muitos profissionais maduros que aceitam uma posição menor não querem cadeira nenhuma. Já sentou em várias e sabe o peso que elas têm. O que o gestor jovem pode temer, sem confessar nem para si mesmo, é a comparação silenciosa que vai acontecer dentro dele mesmo, toda vez que o subordinado resolver em dez minutos algo que ele levaria uma semana para destravar.

A saída não é contratar alguém mais fraco para não se sentir ameaçado. É crescer até o tamanho da própria equipe.

Um líder que consegue dizer “você enxergou isso antes de mim, me ajuda a entender” diante de alguém mais velho não perde autoridade. Ganha a única que importa, aquela que nenhum cargo entrega. E o sênior que ouve essa frase, vinda de alguém mais novo, entende que está num lugar onde pode, finalmente, parar de provar e começar a contribuir.

Dois medos que, quando se encontram de verdade, se desarmam.

*

E se a pergunta “qualificado demais?” estivesse invertida desde o começo?

E se a empresa que diz isso estivesse, sem perceber, confessando que é qualificada de menos para receber alguém assim? Pouco preparada para conviver com quem enxerga mais longe, pouco segura para ser questionada, pouco curiosa para descobrir o que alguém de outra época sabe e ela ainda não aprendeu.

O país está envelhecendo. Isso não é opinião, é demografia: menos nascimentos, vidas mais longas, gente trabalhando por mais tempo. A tendência é que a pergunta mude de lugar. Deixe de ser se as empresas devem contratar profissionais seniores e passe a ser quanto custará, cada vez mais, abrir mão deles. As organizações que entenderem isso agora chegarão a esse futuro com uma cultura onde gerações discordam com respeito e aprendem umas com as outras sem pedir licença. As outras chegarão com a pressa de sempre, a amnésia de sempre, e uma vaga aberta que ninguém consegue preencher.

Para você, que já viu muito, o convite é igualmente exigente. Deixar o currículo falar menos e a curiosidade falar mais. Entrar numa casa nova como quem chega a um país estrangeiro, com respeito pela língua local, sem esquecer a própria. Aceitar ser aprendiz sem deixar de ser quem é.

Nenhum dos dois lados consegue isso sozinho.

Talvez seja por isso que a frase incomoda tanto. No fundo, ela nunca disse “você sabe demais”. Disse “eu ainda não sei o que fazer com o que você sabe”.

E essa é uma frase que só se responde a dois.

*

Se este texto mexeu com alguma coisa em você, de qualquer lado da mesa, continue a conversa no blog. Lá estão centenas de publicações sobre desenvolvimento cognitivo comportamental humano e organizacional e sobre relações humanas saudáveis e evolutivas: marcellodesouza.com.br

#profissionaisseniores #etarismo #etarismonotrabalho #overqualification #diversidadegeracional #geracoesnotrabalho #lideranca #culturaorganizacional #gestaodepessoas #mercadodetrabalho #carreira50mais #recomeco #desenvolvimentohumano #comportamentoorganizacional #marcellodesouza #marcellodesouzaoficial #coachingevoce

Marcello de Souza | Coaching & Você

marcellodesouza.com.br

© Todos os direitos reservados

Se isso fez sentido para você, existe um próximo passo possível

Algumas reflexões não terminam no conteúdo — elas continuam em forma de diálogo, aprofundamento ou sustentação de um trabalho contínuo.

Se este conteúdo fez sentido, você pode acompanhar os próximos textos.

A forma como você percebe define a forma como você age — mesmo sem perceber.

Invalid email address
Apenas quando houver algo que realmente valha a pena.
Sustentar este trabalho também é uma forma de continuidade
Apoiar este trabalho

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *