
VOCÊ NÃO ESTÁ EM PÉ. VOCÊ ESTÁ CAINDO DEVAGAR.
Fica de pé. Junta os pés, os braços ao lado do corpo, fecha os olhos. Não se mexe.
Você não vai conseguir.
Alguma coisa dentro de você, um centímetro de cada vez, vai começar a corrigir. Um músculo aqui, outro ali, uma inclinação quase imperceptível para a esquerda que puxa de volta para a direita antes que você perceba que tinha ido para a esquerda. Ninguém ensinou isso. Ninguém treinou. E, ainda assim, é o trabalho mais constante que seu corpo faz o dia inteiro, todos os dias, desde antes de você aprender a falar a própria palavra “equilíbrio”.
Eu queria começar por aqui porque a maior parte do que aprendi sobre pessoas, sobre times, sobre relações que duram e relações que racham, eu aprendi olhando para isso: para o que fica de pé sem parecer que está fazendo força nenhuma.
*
Existe uma mentira bonita que a gente conta para si mesmo, e é essa: que estabilidade é um estado. Que existe um lugar onde se chega e, a partir dali, fica-se parado. Casamento estável. Carreira estável. Emocionalmente estável. A palavra sugere repouso, sugere chão firme, sugere que em algum momento o trabalho termina.
Não termina.
O que existe não é estabilidade como destino. É estabilidade como verbo. Uma sucessão ininterrupta de pequenos ajustes que ninguém vê, porque quando funcionam, são invisíveis — e só aparecem, com toda a sua violência, no instante em que falham. Ninguém aplaude um executivo que passou o trimestre inteiro sem cair. Aplaudem quem cresceu, quem bateu meta, quem apareceu na foto do resultado. O trabalho de não cair é tão bem-feito que se torna transparente. E o que é transparente, a gente esquece que existe. Até doer.
*
Trabalho há quase três décadas com gente que, de fora, parece estar em pé com uma facilidade suspeita. Diretor que nunca titubeia numa reunião. Mãe que dá conta de tudo sem parecer exausta. Casal que, para os amigos, “nunca briga”. E o que descubro, sessão após sessão, ano após ano, é sempre a mesma coisa: por trás da aparência de firmeza, existe um sistema de correções tão rápido, tão constante, que a pessoa nem percebe mais que está corrigindo. Ela chama isso de “personalidade”. Chama de “meu jeito de ser”. Só quando o sistema falha — quando vem a demissão, a traição, o diagnóstico, a filha que vai embora de casa — é que ela descobre que aquilo que chamava de “eu” era, na verdade, um equilíbrio em ação, e que equilíbrio em ação pode quebrar.
E quando quebra, dói de um jeito específico. Não dói como uma perda comum. Dói como quando alguém tira o chão debaixo dos seus pés literalmente — aquele segundo de vertigem, o estômago que sobe, o mundo que gira sem ter girado. Porque não foi só uma coisa que a pessoa perdeu. Foi o sistema inteiro de pequenas correções que sustentava a sensação de estar de pé.
*
Um dia, andando na rua, vi um homem tropeçar na calçada. Não caiu. O corpo dele fez, em menos de meio segundo, uma sequência de ajustes tão rápida que da distância parecia até elegante: o braço abriu, o tronco girou, a perna avançou num passo maior do que o normal para recuperar o centro. Ele seguiu andando como se nada tivesse acontecido. Só quem olhou de perto viu o susto no rosto.
Fiquei pensando: quantas vezes por dia a gente faz isso emocionalmente e ninguém percebe? Alguém diz uma frase que corta, e por dentro alguma coisa vacila — mas por fora o rosto segue, a voz segue, a reunião continua. Um ajuste invisível, um passo maior, um braço que abre para o lado certo. E a gente segue andando como se nada tivesse acontecido.
Só que, diferente do corpo, que tem um sistema treinado por milhões de anos para isso, a gente nem sempre sabe fazer o ajuste certo. Às vezes o braço abre para o lado errado. Às vezes o passo maior vem tarde demais. E a queda, quando vem, não é física — é uma queda de sentido, de identidade, de tudo aquilo que a pessoa achava que sabia sobre si mesma.
*
Existe uma frase que ouço com uma frequência que já deveria ter deixado de me surpreender, e não deixou: “Eu não sei mais quem eu sou”. Vem de gente de quarenta, cinquenta, sessenta anos. Gente que construiu carreira, casa, família, reputação. E que, de repente, num divórcio, numa demissão, numa doença, sente o chão sumir.
O que essas pessoas descobrem, sem querer, é que a identidade nunca foi uma coisa sólida guardada dentro delas. Era um equilíbrio dinâmico entre papéis, entre relações, entre pequenas confirmações diárias — o bom dia do porteiro, o cargo no crachá, o lugar à mesa de domingo. Tira um desses apoios de uma vez e o resto, sozinho, não segura o peso. É como tirar uma perna da cadeira: a cadeira não estava em pé por causa de uma perna, estava em pé por causa da relação entre as quatro. Ninguém nota isso até faltar uma.
E aqui está a parte que ninguém conta: a pessoa que “se reconstrói” depois de uma queda dessas não volta a ser quem era antes. Ela aprende, geralmente pela primeira vez na vida, a sentir o próprio processo de equilíbrio funcionando. Passa a perceber os ajustes em tempo real, em vez de só perceber quando eles falham. E isso, estranhamente, dá mais segurança do que a antiga sensação de “estar bem” — porque agora ela sabe onde está o mecanismo, e não só o resultado dele.
*
Uma coisa que aprendi olhando times, não só pessoas: organizações fazem exatamente a mesma coisa que corpos fazem. Um time que “nunca tem conflito” não é um time equilibrado. É um time que aprendeu a fazer ajustes tão silenciosos, tantas pequenas cessões, tantos “deixa quieto” e “não vale a pena discutir isso agora”, que o conflito nunca chega a aparecer na superfície. Só que ele não desapareceu. Ele foi absorvido, um grau de cada vez, até que um dia — geralmente no pior momento possível, geralmente numa entrega crítica, geralmente na frente do cliente — o sistema inteiro de correções silenciosas atinge o limite e desaba de uma vez.
Líderes adoram medir clima, engajamento, satisfação. Números redondos, fáceis de apresentar num slide. Mas raramente alguém mede a frequência dos ajustes invisíveis: quantas vezes por semana uma pessoa engoliu uma discordância para não “criar problema”. Quantas vezes segurou uma ideia melhor porque quem falou primeiro tinha mais cargo. Isso não aparece em pesquisa de clima. Aparece seis meses depois, na forma de um pedido de demissão que todo mundo jura que “veio do nada”.
Não veio do nada. Veio de um sistema de equilíbrio que trabalhou em silêncio até não aguentar mais.
*
Volto para o corpo, porque ele ainda tem alguma coisa para me ensinar.
Existe um mecanismo curioso que faz seus olhos ficarem fixos num ponto mesmo quando você sacode a cabeça. Tenta: olha para um objeto fixo na sala e balança a cabeça de um lado para o outro, devagar. A imagem continua nítida. Agora, mantém a cabeça parada e tenta sacudir só os olhos na mesma velocidade — a imagem embaça, tudo borra. O sistema que compensa o movimento da cabeça é automático, é rápido demais para você pensar nele, e existe justamente para isso: para que o mundo não vire uma câmera tremida na sua frente enquanto você atravessa a rua, corre atrás de um ônibus, dança numa festa.
Sabe quem tem esse mesmo tipo de compensação emocional? As pessoas que a gente chama de “centradas”. Não são pessoas sem tremor interno. São pessoas cujo tremor interno não vaza para fora, porque existe um mecanismo compensatório treinado, silencioso, que mantém o “olhar” — os valores, o senso de si, o que elas consideram inegociável — fixo, mesmo quando a cabeça, isto é, a circunstância, sacode com violência.
E como se treina isso? Não é força de vontade, que é a resposta preguiçosa que todo mundo dá. É repetição consciente: parar, sentir o tremor, escolher onde manter o olhar fixo, sentir de novo, escolher de novo. Ninguém nasce com o reflexo pronto para as situações da vida adulta — nasce com ele pronto para a cabeça balançando, e precisa construir, praticamente do zero, a versão dele que funciona quando é a reputação que balança, ou o dinheiro, ou o diagnóstico médico, ou o silêncio do outro lado da cama.
*
Uma pergunta que eu faço, e que quase ninguém consegue responder de primeira: qual é o seu ponto fixo? Não o valor bonito que você diria numa entrevista. O ponto real, aquele que, quando tudo balança, seus olhos voltam a procurar sem você decidir procurar.
Tem gente cujo ponto fixo é a própria imagem. Balança a circunstância, os olhos correm atrás da aprovação alheia — e aí, sim, tudo embaça, porque um ponto fixo que se move junto com a circunstância não serve para nada, é como tentar fixar o olhar num objeto que também está balançando.
Tem gente cujo ponto fixo é uma pessoa. E funciona, até a pessoa ir embora, ou morrer, ou simplesmente errar — porque pessoas, ao contrário de um ponto na parede, se movem por conta própria.
E tem uma minoria, pequena, que encontrou como ponto fixo alguma coisa que não depende de aprovação, de outra pessoa, de resultado. Geralmente é algo tão simples que soa até anticlimático quando a pessoa fala em voz alta. “Eu não minto para mim mesmo, mesmo quando dói.” “Eu trato quem não pode me dar nada do mesmo jeito que trato quem pode.” Frases pequenas. Mas são o tipo de ponto fixo que não sai da parede quando o chão sacode, porque nunca esteve na parede — estava dentro.
*
Queria dizer uma coisa sobre queda, porque a palavra assusta mais do que deveria.
O corpo nunca elimina o risco de cair. Elimina apenas a queda óbvia, a queda grosseira, trocando-a por uma sucessão infinita de micro quedas corrigidas em tempo real. Você está, tecnicamente, caindo o tempo todo — só que caindo tão devagar, em tantas direções alternadas, que o resultado final é ficar de pé. Ficar de pé não é o oposto de cair. É uma forma disciplinada de cair sem parar de um jeito que nunca chega ao chão.
Acho que é assim com quase tudo que a gente chama de estável na vida adulta. O casamento que dura não é o casamento sem crise. É o casamento em que as pequenas quedas de sentido, de desejo, de paciência, são corrigidas antes de virarem queda grande — e às vezes corrigidas tarde demais, e aí vem o tombo de verdade, e as pessoas se olham sem entender como chegaram ali, porque não perceberam nenhuma das cem micro quedas anteriores.
*
Tem uma cena que me marcou dentro de um avião, num trecho de turbulência forte, daquelas que fazem gente que nunca reza começar a rezar baixinho. Olhei ao redor. Metade da cabine agarrada no braço da poltrona, olhos fechados, respiração curta. E, no corredor, uma comissária andando — devagar, mas andando — servindo água como se o chão não estivesse se mexendo debaixo dela.
Não era coragem. Era treino. O corpo dela tinha, ao longo de anos, recalibrado o que conta como “chão instável” e o que conta como “chão normal”. A turbulência que para mim era catástrofe, para ela era terça-feira. E aí me ocorreu uma coisa incômoda: grande parte do que a gente chama de “pessoa forte” não é uma pessoa com menos medo. É uma pessoa cujo sistema de referência do que é ameaça real foi recalibrado pela repetição, pela exposição, pelas vezes em que precisou andar de corredor em corredor, servindo água, com o avião sacudindo.
Isso muda a pergunta que a gente costuma fazer sobre gente que “aguenta tudo”. Não é “como ela consegue não sentir”. É “quantas turbulências ela já atravessou sem que ninguém, do lado de fora, percebesse o esforço”. E a resposta, quase sempre, é: muitas mais do que parece justo.
*
Tem uma outra cena, essa mais silenciosa, que aconteceu comigo mesmo, e eu não ia contar, mas o texto pede.
Há alguns anos, numa fase difícil, percebi que estava fazendo, o dia inteiro, um tipo de ajuste que nunca tinha percebido antes: sorrir um pouco antes da hora de sorrir, concordar um pouco antes de realmente concordar, adiantar a resposta que a outra pessoa esperava para não precisar sustentar o desconforto de uma resposta verdadeira. Um equilíbrio inteiro, treinado, eficiente, dedicado a evitar que ninguém percebesse que, por dentro, alguma coisa balançava sem parar.
Funcionou por um bom tempo. Até o dia em que descobri o preço: eu tinha ficado tão bom em compensar o desequilíbrio interno que quase esqueci que ele existia. E foi só quando parei — literalmente parei, cancelei a agenda de um dia inteiro, fiquei em silêncio, sozinho — que senti o tremor que vinha sendo compensado havia meses. Foi desconfortável do jeito que só é desconfortável aquilo que a gente evitou sentir por tempo demais.
Aprendi, com isso, uma coisa que hoje devolvo em cada sessão: o objetivo não é nunca balançar. É perceber o balanço cedo o suficiente para escolher o ajuste, em vez de deixar que o ajuste vire hábito escondido, décadas de compensação automática disfarçada de personalidade.
*
Queria fechar contando de um dia comum. Fila do mercado, aquelas que ninguém aguenta. Um senhor na minha frente, uns oitenta anos, com uma bengala que ele nem usava direito, mais carregava do que se apoiava nela. A fila andava devagar, ele foi dar um passo maior para não perder a vez para alguém que tentou furar, e cambaleou. Por um segundo achei que ia cair.
Não caiu. A bengala tocou o chão no tempo exato, o braço livre abriu, o corpo achou uma diagonal impossível de prever e voltou ao eixo. Ele olhou em volta, meio sem graça, ajeitou o casaco, seguiu na fila como se nada tivesse acontecido.
Fiquei olhando para ele o resto do tempo em que esperei minha vez. Pensando que aquele corpo, com oitenta anos de uso, com uma bengala que mal servia, ainda sabia fazer, num décimo de segundo, o que a cabeça de muita gente de trinta e cinco não sabe fazer nem com anos de terapia: sentir o desequilíbrio chegando, não negar que ele estava ali, e responder com o ajuste certo antes que virasse queda.
Ele não pensou em nada disso. Só ficou de pé.
E talvez seja só isso que a gente esteja tentando aprender a vida inteira.
—
#equilíbrio #relaçõeshumanas #comportamentohumano #desenvolvimentocognitivocomportamental #inteligênciaemocional #marcellodesouza #marcellodesouzaoficial #coachingevoce
Marcello de Souza | Coaching & Você
marcellodesouza.com.br
© Todos os direitos reservados
Se isso fez sentido para você, existe um próximo passo possível
Algumas reflexões não terminam no conteúdo — elas continuam em forma de diálogo, aprofundamento ou sustentação de um trabalho contínuo.
Você pode gostar

QUEM DISSE QUE EMPATIA É FRESCURA? É ESTRATÉGIA, É PODER, É SOBREVIVÊNCIA
7 de maio de 2025
NEGOCIANDO COM MENTIROSOS – PARTE 2
23 de abril de 2024