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VOCÊ NÃO ESTÁ SEM TEMPO. VOCÊ ESTÁ COM MEDO DO QUE APARECE QUANDO ELE PARA

Quantas vezes você disse “não tenho tempo” hoje?

Duas. Três. Talvez você tenha dito antes mesmo de tomar café, quando alguém pediu cinco minutos e você já estava calculando o prejuízo. A frase saiu automática, quase um reflexo, do jeito que a gente tira a mão do fogo antes de sentir a dor.

Só que eu quero fazer para você uma pergunta diferente. Não “por que você não tem tempo”. Isso todo mundo já perguntou. Quero saber: o que aconteceria se você tivesse?

Não é retórica. É séria. Imagina, por um instante, que amanhã de manhã você acordasse com o dia inteiro livre, sem reunião, sem prazo, sem ninguém esperando resposta. Antes de imaginar o que faria de bom com esse tempo, repara na primeira sensação que vem — porque, para muita gente, ela não é alívio. É um desconforto quase físico, um “e agora?” que nenhuma lista de tarefas jamais precisou responder.

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Reparei uma coisa ao longo de quase três décadas ouvindo gente falar da própria rotina, em salas de reunião, em processos de mentoria, em conversas de corredor que duram mais que a reunião oficial. Quem mais reclama de falta de tempo costuma ser quem mais teme o que sobra quando ele aparece.

Não é sobre gestão. É sobre coragem.

A agenda cheia funciona como um álibi extremamente sofisticado. Ela dá para você uma razão nobre, socialmente aceita, aplaudida até, para nunca chegar perto de certas perguntas. “Estou sem tempo para pensar nisso agora” é uma frase que soa como responsabilidade. Na prática, é fuga com crachá de profissionalismo pendurado no pescoço.

Pensa no seu próprio domingo à tarde. Aquele intervalo entre o almoço e o fim do fim de semana, quando teoricamente não existe mais nenhuma tarefa esperando por você. O que você faz com ele? Uma parcela enorme das pessoas que já sentei para conversar confessa, baixinho, quase com vergonha, que esse é o horário mais difícil da semana. Não o mais cansativo. O mais difícil. Porque é quando a casa fica quieta e não tem e-mail, não tem reunião, não tem ninguém do outro lado da linha esperando resposta — só você e a pergunta que o trabalho, o WhatsApp, as mil abas abertas vinham abafando o tempo inteiro. Curioso como um domingo livre, que deveria ser descanso puro, consegue pesar mais do que uma segunda-feira cheia.

E se a verdade for essa: você não enche a agenda porque tem muito para fazer. Você enche a agenda para não sobrar espaço onde essa pergunta possa entrar. E o curioso é que, no fundo, você sabe disso — só prefere não prestar atenção.

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Repara no trânsito de uma sexta-feira. Aquele engarrafamento parado, sem previsão de andar, onde o único movimento possível é o do relógio. Uma parte das pessoas usa o tempo para ligar para alguém, resolver pendência, adiantar o que puder. Outra parte simplesmente olha para frente, em silêncio, e algo nesse silêncio incomoda mais do que o atraso em si.

O incômodo, às vezes, não é apenas o trânsito. É o que aparece quando, pela primeira vez no dia, você é obrigado a ficar parado consigo mesmo, sem ter para onde correr fisicamente nem mentalmente.

A produtividade virou, para muita gente, uma forma elegante de nunca ficar parado com os próprios pensamentos. E o pior é que ninguém chama isso pelo nome certo. Chamam de disciplina. Chamam de foco. Chamam de “sou assim mesmo, gosto de estar sempre fazendo alguma coisa” — frase que, dita com orgulho, esconde um funcionamento bem mais simples: parar dói, e fazer anestesia.

E talvez seja justamente aí que o comportamento se consolide. Se parar coloca você diante de algo desconfortável e voltar a fazer alguma coisa reduz esse desconforto, essa associação é aprendida rapidamente: ocupar-se alivia. Não é preciso decidir fugir conscientemente. Basta repetir aquilo que, por alguns minutos, funciona. O problema é que o alívio imediato pode cobrar uma conta longa: aquilo que você evita não desaparece, apenas deixa de competir com o barulho. E, quanto mais eficiente você fica em produzir barulho, mais raro fica o momento em que aquilo que foi adiado teria espaço para ser ouvido.

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Existe um tipo de conversa que se repete, com pequenas variações, em quase todo processo de desenvolvimento que acompanho. A pessoa chega achando que o problema é organização. Quer aprender a priorizar melhor, a dizer não com mais firmeza, a distribuir as horas do jeito certo. E tem razão, em parte — organização importa, prioridade importa, saber recusar importa.

Só que, depois de algumas conversas, quase sempre aparece uma segunda camada, mais incômoda que a primeira. A pessoa não está desorganizada. Está usando a desorganização como cortina de fumaça para não encarar uma decisão que evita há anos: mudar de área, encerrar uma relação que já morreu faz tempo, admitir que aquele projeto não vai dar certo, aceitar que envelheceu e que certas portas não vão mais abrir do jeito que abriam antes.

Nenhuma dessas coisas se resolve com aplicativo de agenda.

E aqui está o ponto que ninguém coloca na lista de dicas de produtividade: quanto mais pesada a decisão evitada, mais sofisticada fica a agenda que a esconde. Gente brilhante constrói rotinas impressionantes — check-ins, blocos de foco, rituais matinais impecáveis — inteiramente a serviço de manter uma pergunta específica trancada no porão.

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Eu já fiz isso. Não vou fingir que essa observação vem de fora, olhando os outros do alto de algum consultório imaginário. Teve uma fase da minha vida, na transição entre a engenharia e o trabalho com desenvolvimento humano, em que minha agenda estava impecável e minha cabeça, uma bagunça. Projetos, prazos, reuniões emendadas — tudo perfeitamente encaixado. E, no fundo, uma pergunta enorme sobre se eu estava construindo a vida certa ou só ficando bom em administrar a vida errada.

A resposta não chegou quando organizei melhor a agenda. Chegou quando parei de fugir dela.

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Isso se repete em escala maior dentro das organizações, e talvez você já tenha visto de perto. Um líder que enche a própria agenda — e a do time — de reuniões de alinhamento, quando na verdade existe uma única conversa difícil sendo evitada há meses: dar um feedback duro, admitir que colocou a pessoa errada no lugar errado, encerrar um projeto que já morreu mas continua sendo alimentado porque cancelar exigiria explicar por que começou.

A empresa chama isso de gestão ocupada. Muitas vezes é só um jeito coletivo de adiar uma decisão que uma pessoa, sozinha, teria coragem de tomar em cinco minutos de silêncio. E o time inteiro aprende, sem que ninguém precise dizer em voz alta, que encher a agenda é a forma segura de parecer produtivo sem correr o risco de encarar o que realmente precisa mudar.

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Talvez você conheça alguém — ou seja essa pessoa — que sempre tem uma tarefa nova assim que termina a anterior. Termina o relatório, já abre a planilha. Sai da reunião, já entra na próxima aba. Chega em casa, já pega o celular. Existe algo quase compulsivo nesse movimento, uma necessidade física de manter as mãos ocupadas, como quem tampa um buraco antes que alguma coisa suba por ele.

O que sobe, geralmente, não é nada dramático à primeira vista. É só uma sensação incômoda de vazio. Só que esse vazio tem má reputação. A cultura em que vivemos trata o vazio como falha, como espaço mal aproveitado, como sinal de fracasso pessoal. Ninguém ensina você que boa parte do que você é foi construída justamente nos intervalos, não nas tarefas.

Uma criança aprende a andar nos momentos entre as quedas, não durante elas. Uma ideia boa raramente nasce no meio da reunião apertada — nasce no chuveiro, no trajeto, na fila do caixa eletrônico, exatamente porque ali a mente para de obedecer ordens e volta a vagar.

Você tira o vagar da sua rotina e tira, junto, a possibilidade de que algo novo apareça sem ser convocado.

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Aqui cabe uma provocação, e eu assumo que ela incomoda: descanso não é apenas prêmio. Às vezes, é confronto. A gente cresceu ouvindo que merece descansar depois de trabalhar duro, como se o corpo parado fosse uma recompensa liberada por bom comportamento produtivo. Faz sentido — descanso também é necessidade do corpo, recuperação, regulação. Só que, para muita gente, ele carrega uma segunda função, menos confortável de admitir.

Quando você para de verdade — sem tela, sem lista, sem playlist de podcast enchendo os seus ouvidos de vozes que não são a sua — o que sobra é exatamente você. Sem cargo, sem função, sem próxima entrega. E para bastante gente essa versão nua da própria existência é mais assustadora do que qualquer prazo apertado.

Faz sentido, então, que tanta gente prefira o cansaço do excesso ao desconforto do silêncio. O cansaço, pelo menos, tem explicação. O silêncio não explica nada. Só espera.

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Vou contar para você uma cena banal, dessas que a gente vive e esquece rápido. Sala de espera de dentista, revista velha na mesa, celular com bateria em oito por cento. Você olha ao redor e nota: quase ninguém está simplesmente esperando. Todo mundo inventou uma tarefa para não esperar de verdade — mexe no bolso, revisa mensagem antiga, reorganiza o que já está organizado.

Esperar virou coisa rara. E o motivo não é falta de paciência, como se costuma dizer. É que esperar deixa você cara a cara com o tempo cru, sem disfarce, e isso é mais difícil do que qualquer tarefa que você poderia estar fazendo.

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Existe uma diferença enorme entre organizar o tempo e negociar com o medo dele. A primeira é técnica, aprendível, tem método. A segunda é outra conversa inteira, e ela raramente aparece quando alguém pede ajuda para “ser mais produtivo”. Aparece disfarçada, embrulhada em pedidos de ferramenta, de aplicativo, de planilha nova.

Se a sua vida está cheia demais para você pensar, talvez ela esteja assim de propósito. Não do propósito consciente, deliberado — do outro tipo, mais antigo, o que a gente monta sem perceber para se proteger de si mesmo.

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Pensa numa reforma de casa que nunca termina. Sempre falta um detalhe, uma cor errada, um móvel que não chegou. Quem mora nela vive dizendo que a casa “ainda não está pronta” para receber visita, para fazer festa, para simplesmente ser vivida. Só que, se você observar de perto, vai notar que sempre vai faltar alguma coisa. A obra nunca termina porque terminar significaria admitir que a vida ali dentro é a vida real, sem mais desculpa de reforma para adiar o convívio.

A agenda lotada funciona exatamente assim. Ela é a reforma permanente que impede a casa de ser habitada.

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O mesmo mecanismo aparece nas relações mais próximas, só que com outro nome. Vira logística. Vira administrar a casa, os filhos, as contas, a agenda do casal, cada um puxando uma ponta para que o dia renda. É trabalho de verdade, ninguém finge que não é. Mas, em muitos casais, essa logística cresce exatamente até o tamanho necessário para que nunca sobre um momento de silêncio em que alguém precisaria perguntar ao outro: “a gente ainda está bem, ou só está funcionando?”

Perguntas assim não cabem no meio de uma correria. E talvez seja justamente por isso que a correria nunca diminua sozinha — porque, em algum nível pouco confessado, ela está fazendo exatamente o trabalho para o qual foi criada.

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Individual, organizacional ou a dois, o mecanismo se repete com a mesma assinatura: primeiro vem o desconforto de uma pergunta que ninguém quer responder ainda, depois vem a ocupação que promete adiar essa resposta, e por fim vem o hábito, que faz a ocupação parecer identidade — “eu sou assim mesmo, gosto de estar sempre fazendo alguma coisa” — quando na verdade é só uma estratégia antiga que deu certo cedo demais e nunca mais foi questionada.

Existe uma forma simples de perceber a diferença entre ocupação que constrói e ocupação que evita, embora ninguém goste muito de aplicá-la em si mesmo. Ocupação que constrói deixa um resultado que você reconhece depois — algo entregue, aprendido, resolvido. Ocupação que evita também pode produzir resultados — e talvez seja justamente isso que a torne tão difícil de reconhecer. Você entrega, resolve, responde, organiza. Mas termina o dia com a sensação estranha de ter corrido muito sem tocar naquilo que realmente importava. A diferença nunca esteve na quantidade de horas, nem no quanto você produziu. Esteve no que aquelas horas estavam, de fato, protegendo você de encarar.

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Volto à pergunta do começo. O que aconteceria se você tivesse tempo de verdade? Não o tempo cronometrado de app de produtividade, dividido em blocos coloridos. O outro tempo, o cru, o que sobra quando você para de correr dele — o tempo que não precisa ser preenchido para justificar que você existiu naquele dia.

Talvez apareça uma decisão que você vem adiando há anos escondida atrás de “ainda não é o momento certo”. Talvez apareça uma pergunta sobre para quem você está construindo essa vida toda, ou se é só para não parar e pensar nisso. Talvez apareça, simplesmente, você — sem cargo, sem tarefa, sem próxima aba aberta, só respirando.

E talvez seja exatamente isso que você vem evitando o tempo inteiro, disfarçado de falta de tempo.

Então experimente uma coisa menos sofisticada do que qualquer método de produtividade: deixe hoje um único intervalo vazio. Não preencha. Não otimize. Não aproveite.

E veja o que aparece quando o barulho perde a função de esconder.

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Marcello de Souza | Coaching & Você

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